15.11.07

Então é natal...


Pois é... chegou de novo. Adoro as renas e a neve que domina a região da Paulista... Dá assim um ar civilizado, meio primeiro mundo pra gente. Só povinho subdesenvolvido mesmo para passar o natal no calor, tomando cerveja e fazendo churrasco.
Além disso, legal é a quantidade de coisas inúteis que todo mundo compra no Natal... Aquela festa de 13º salários se apertando na 25 de março, pessoas disputando a tapa bonecas que fazem xixi ... E o companheiro agente inflitrado do socialismo de mercado chinês, Law King Chong enchendo as burras de grana.

Bacana também no natal, é um certo surto de bondade e solidariedade nas pessoas... A polícia Federal por exemplo fica muito solidária e louca para distribuir renda, principalmente a de chineses que garantem o abastecimento das pechinchas e alegrias do natal.
Os caras prendem o chinês, apreendem uma caralhada de coisas fundamentais para o espírito natalino como bolsas chanel falsificadas e carrinhos de controle remoto que sobem paredes. Aí eles já fazem o Natal da mulher e das crianças da casa deles.
E o que sobra, o Estado doa para ong's, de forma que elas possam organizar bazares, e as pessoas mais pobres possam comprar, comprar, comprar.... E serem felizes também. Assim, o capitalismo se transforma um pouquinho mais em para todos. No natal as promessas se realizam. O nascimento do menino jesus e as roupas novas, redimem qualquer merda de ano.

É por isso que eu adoooorrroooo o natal... é quando mais de verdade se vê que quando os ricos gastam mais, os pobres sofrem menos.
O medo é que enclausura as pessoas. É ele que faz todo mundo viver nisso aqui e achar que tudo bem. Ele delimita até onde podemos ir. Dos nossos termomêtros, ou faro, é um dos que mais costumam ser respeitados.
O medo me lembra também uma animalidade incrível. Gente com medo faz besteira, fica arisco que nem bicho acuado. Medo dá frio no estomâgo, dá vontade de chorar e sair correndo para que aquela tortura acabe. Ele é a tortura em si.
Medo pode ser promovido por um fator coletivo, mas ele só pode se realizar individualmente. Só eu tenho aquele medo específico, sentindo-o do meu modo e provocado pelas minha trajetória, minhas histórias e marcas. Muitas pessoas compartilham medos genericamente, tipo medo de barata. Mas só eu sei qual é o tamanho da minha barata. A minha existência condiciona meu medo.
Sempre temos algumas sensações de infância que voltam... A minha pior sensação dessa epóca da vida, é o medo.
Depois que o medo foi passando na exata proporção em que a idade foi aumentando, fiquei folgada. Sabe quando você acha que já passou o pior medo da sua vida e que se sobreviveu, então não há mais nada que possa realmente te assustar?

Pois é, mais uma que eu me enganei.

Tipo achar com 4 anos que com 10 anos você vai ser super grande.
Que com 20 anos você vai ser mais tranquila, quando se tem 14.
E que achar que sentimento cria imunização, tipo rubeóla, aos 25.

12.11.07

Contenção

Sempre fico meio triste quando acabo um romance... É besteira, mas durante um tempo, eles viram meus amigos, meus companheiros de vida e busão. Começo a viajar como tal figura se sairia em x situação. Aprecio alguns valores dos personagens e detesto outros, prometendo sempre não fazer igual. Enfim, por meio do mundo criado pela narrativa do romance, acabo por entender um pouco mais minha própria narrativa...

Hoje o Martin Eden me abandonou. Fazia exatamente um mês que divídiamos angústias. Tentei economizar as últimas páginas, reduzi o ritmo de leitura, me afastei durante uma fase de leituras obrigatórias, li um outro romance mais curto no meio... Mas não deu. Hoje fiquei ansiosa para saber como ele solucionaria a vida que ele se esforçou tanto, todo o livro para conseguir.

E foi uma tristeza só ...

Tudo o que ele queria não passavam de coisas vazias. O amor que ele achava que sentia, na verdade era a idealização criada sobre uma mulher "pálida e burguesa", egoísta e que o abandonou quando ele mais precisava. Quando a fama chegou, quando ele se tornou "rico, bonito, famoso e solteiro", a imbecil voltou, confirmando a menina idiota e mimada que sempre foi e a idéia de que a pessoa amada por ele, na verdade, nunca existiu.

Sempre admirei e respeitei bastante os suicidas. Principalmente os suicidas ditos "vitoriosos". Eles escolheram, não tem porque não ser um decisão digna como as outras...

No outro romance que intercalou as aventuras do rapaz em questão, existia o Miguel que ficou comigo só alguns dias... Ele era quase um suícida. Passou a vida sofrendo por achar que amava e se casou com uma mulher que sempre gostou de outro. Preparou a partida para uma segunda - feira, e só então se deu conta de que a data foi escolhida porque era depois do futebol de domingo... E então desistiu.

Miguel não era um suicida. Era só um infeliz incapaz de lidar com o amor. No fim, se descobre que sua mulher o amava muito. Ele é que só era capaz de acreditar no que lhe alimentasse o pessismo.

Mas o Martin Eden não buscava motivos para ser infeliz. Ao contrário. Lutava com todas as patinhas por coisas que acreditava que lhe fariam feliz. Era pobre, fudido e queria ser escritor e ganhar dinheiro só para poder casar com a imbecil que não foi capaz de nada para lhe retribuir todo o amor que ele lhe destinava. Dizia que o amava, mas não bancou o universo diferente e mal visto ao qual ele pertencia. E, não aceitar o universo do outro e pior, tentar mudá-lo, é gostar de alguém que não existe.
Enfim, o vazio foi maior do que o gosto nas coisas que possuía a sua volta: dinheiro, fama, mulherada pra todo o lado...

Mas esse mundo não é feito de Martin Edens e sim de Migueis.

E a pergunta que me ficou na cabeça: Até quando o futebol de domingo vai continuar segurando essa vida?

Respeito realmente os suicidas. Acho sinceramente bem fácil entender os que se vão... Interessante realmente é entender como, nesse mundo, tantos ficam ...

Qual é o futebol de domingo de cada um?

9.11.07

Viva a butecada!

Butecada que é butecada tem que ser no bar de algum Seu João ou seu Zé. Geralmente um tiozinho figura que faz parte do cenário do buteco, junto com as conservas de queijo no óleo, e os pacotinhos de torcida.

Dar uma butecada só com mulheres tem suas especificidades. Butecada feminina tem sempre o fator exótico que deixa tudo meio bizarrão. Uma mesa só de mulher nunca passa impune no buteco.
Butecada de mulher, principante depois da oitava garrafa quando todo mundo começa a falar alto, chama a atenção daqueles figuras que vão todo santo dia no Seu João, portanto nós, e não o buteco, somos a quebra da rotina. Daí os figuras querem pagar cerveja, recitam poema no meio da rua, vira uma festa...
A gente já tá falando alto de sexo, silicone, crianças, universidade pública e vai embora...
Butecada que é butecada termina com as mocinhas saindo, visivelmente embriagadas, empolgadas com a discussão sobre a privatização do mundo e soltando aquela fascistada etílica, xingando os estudantes da FFLCH de vagabundos, só pra finalizar a conversa.

Esbarra em um samba.

E faz a gente acordar de ressaca achando que era mesmo o melhor a se fazer naquele fim de tarde.
Tenho achado bonitinho tanta coisa que eu não achava...
Será que estou ficando mais velha?
Ou mais tolerante?
Ou mais bundona?
Ou tudo, no fim, quer dizer a mesma coisa?

7.11.07

Tchuva cai, o porco mete, dá uma tristeza na gente...

Sempre se leva pessoas pela vida... aquelas que apesar de distantes, sempre te trazem lembranças, coisas boas, vontade de ver.
A Dani Doms é uma delas. Esse era o nome artístico de uma das minas mais do caralho que eu conheci. Forte, bonita, sensível.
A Dani me protegia na escola quando eu arranjava encrenca. Vai lá pro ginasião pra ver se o bicho não pega...ainda mais pra mim que era, digamos, um pouco odiada. Depois melhorou, mas quando eu fui pra lá, a fofinha que vinha da escola particular de volta para o Estado... hum... problemas de classe mesmo.

Os fudidos X classe média limbo.

Jogaram minha carteira na privada do banheiro masculino imundo na primeira oportunidade. A vida é essa bosta assim. As coisas tomam esse rumo. Eu virei universitária. As moças viraram caixas de supermercado.
Mas quando a Dani veio para me fazer companhia fiquei folgada. Arranjava tretinha, pagava de muita louca, porque sabia que ela trincava comigo. Sempre. Nós duas.
Todo dia eu andava um dez minutos a mais só para passar na casa dela. Casa de fumantes onde tinha o café da tia Vilma e, na falta de recursos, um delicioso Continental roubado do digníssimo Vardão, ou como é mais conhecido, o Vardão da Sabesp.

A vida andou, eles ficaram mais juntos, eu tomei um rumo diferente.

E hoje, quando li o blog da companheira (http://insipidoeinodoro.blogspot.com/), me deu uma saudade grande de tudo. De quando a gente enchia a cara na pastelaria pra não morrer de tédio. Li essa frase do título e me veio toda a nostalgia do que é morar em Piedade. Da melancolia. Do não ter o que fazer. Do ser meio roça meio cidade.

Dani, bom saber que você está mais perto. E valeu por ainda lembrar dessa peróla do tempo que a gente se enxergava um no outro.

5.11.07

Nossa catchola, como você é ranzinza.... passou, passou... não faz drama vai, também não é assim...

Era isso o que eu queria escutar... esquizofrênica que sou, falo para mim mesma....
Vixê.... São 5 horas da manhã, de uma segunda -feira, e já estou sentada na frente do computador. Daqui há 3 horas horas entrego um trabalho e faço prova.

Sou absolutamente incapaz de fazer qualquer coisa útil e racional depois das 10 horas da noite... E mais incapaz ainda de recusar uma cervejinha com amigos depois de uma tarde infernal e 2 horas de discussão inútil sobre a historiografia da Guerra do Paraguai.

É isso. Agora bota na minha conta. Eu pago. Essa tem sido minha filosofia de vida já faz um tempinho. Estou fazendo merda? Foda-se, bota na minha conta. Se eu não aguentar, parcelo num super crediário estilo Casas Bahia... Demora, pago uns juros, mas tudo bem. Ninguém morre por essas. Talvez aprofunde o alcolismo, mas morrer não morre não.

Bom, no fim, não sei o que é mais imbecil: Eu, o ser sem disciplina. A Licenciatura que é inútil. A Guerra do Paraguai sem imperialismo britânico segundo revisionistas mal intencionados.

Enfim... leve raiva de tudo.

Mais ainda da cafeteira que passou dois dias ligada (porque eu esqueci), torrando o restinho de café do fundo, o que virou uma crosta que simplesmente a inutiliza.


Olá Mundo.... boa semana para você também...

2.11.07

Dia dos mortos...

Hoje é feriado de Finados. Feriados só me dizem respeito quando posso pensar sobre o que fazer deles. Hoje trabalhei. Portanto não foi feriado... Apenas os ônibus demoraram mais para passar.

Depois de me sentir um tanto quanto desgraçada pela manhã, fiquei lembrando da conversa levemente pesada que tive ontem com a minha mãe. É o primeiro dia de finados em que ela se preocupa em arrumar o túmulo da mãe... Uma mãe da qual ela nunca se separou. Quando casou, fez um puxadinho no quintal. Quando construiu uma casa, fez na extensão do terreno. E quando construiu uma maior e mais distante 10 minutos a pé, fez uma casa nos fundos e levou os pais que já estavam mais velhos e desfeitos do bar em que trabalharam durante anos.
Enfim, ela estava especialmente sofrida. Pegou a foto e as flores para decorar o lugar onde minha vozinha está enterrada, e passou o dia de ontem, mais provavelmente o dia de hoje sofrendo por ter que lidar com a materialidade da morte.

Mas então por quê?

Hoje é um dia para, por meio da lembrança e da ida ao cemitério, mantermos presente os que se foram. Como se eles fossem ficar infelizes caso não fossem lembrados. Ou mesmo, viessem puxar o pé de alguém...


Entendo o sofrimento e o ritual da dor. Depois que a gente vem para a universidade virar intectuário e alcólatra, o simples foda-se qualquer, religião, jesus cristo ou o caralho, não contemplam mais. A gente quer tocar foda-se, mas também quer entender.

E eu não tenho mais nem idade para falar isso para a minha mãe. Não tenho mais 15 anos e nem vontade de ficar fazendo outro tipo de pregação, no caso, convertê-la ao ateísmo.

Mas sem querer, num surto de indignação, acabei voltando a ser, para a minha mãe, a adolescente passa mal... acho que eu nunca deixei de ser na verdade.

Ela me falando e chorando... relatando como era difícil, que era foda e traus, que foi ruim ir pegar flores e lálálá...

- Mas então porque você faz? Se é tão sofrido, arruma as paradas em outra hora, tem que ser agora, só para todo mundo ver que você não é uma filha relapsa para com o túmulo da sua mãe, o que aliás é uma puta besteira porque você sabe que a vó não tá lá e nem nunca esteve... que o que foi para lá é só um corpinho que a essa altura já não diz muita coisa sobre a pessoa também... Desencana, vai para a praia, larga essas porra aí que estão te fazendo sofrer.

Eu poderia ter dito isso a um amigo. Não para a minha mãe.

Para a minha mãe, quando você não sofre, não chafurda, você não sente. Só existe amor no sofrimento. E o sofrimento por tabela vira termomêtro quantitativo do amor...

Por essa lógica, se eu me recuso a tortura do Dia de Finados, quer dizer que não amava minha vó. A vozinha cuja lembrança me água os olhos quando como um pastel murchinho parecido com os que ela deixava frito dentro do forno do fogão. Ela que me emociona cada vez que vou até a Vila Élvio e penso que ela era uma das mocinhas operárias começando a vida. A velhinha que me criou...

Mas na sociedade cristã tudo é sofrimento e dor. Não existe espaço para simpesmente sentir a ausência, sem que isso ganhe uma conotação negativa.

Não se pode amar a lembrança. Só sofrê-la.

29.10.07

O engano que é acerto.

Algumas pessoas me chamam de intolerante. Admito, tenho dois pesos e duas medidas: Sou extremamente dura com algumas pessoas e absolutamente maleável com outras. Mas não se trata obviamente de algo aleatório. Trata-se dos meus critérios. Do meu termomêtro do que dá para engolir, e do que só resta meter o pé... Mas também venho tentando, depois de algumas puxadas de orelha, a aprender enxergar um sentido além do que está óbvio nas impressões superficiais. O problema é que muitas vezes, quando estou quase caindo numas de tentar achar todo mundo legal a princípio, acontece alguma coisa que mostra que a gente também não se engana tanto assim...
E também os equívocos não são inocentes, talvez seja uma espécie de perseverança... sei lá.

O fato é quando me engano, quando sou intolerante e faço mal juízo de determinadas pessoas e situações e, do além, elas me mostram o contrário e que fui profundamente simplista e linear, enfim, mudar de uma idéia ruim para uma sensação boa, costuma me agradar muito.
Mostra que eu me enganei. Nesse caso, é muito gostoso estar errado. Errar a idéia sobre a expectativa individual, renova um pouco a crença no ser humano. Tenho a sensação de que estou aprendendo um pouco mais da existência louca e ramificada de cada um.

Ontem, depois de um ano e traus, meus livros do Focault reapareceram. Eles que eu achei que estavam perdidos por aí, não apenas criaram a expectativa da volta, como renderam uma linda discussão sobre o amor e as relações de poder e expectativa que o cercam. Ou seja, voltaram lidos e de uma forma muito melhor do que a minha. De uma forma bem mais prática. De muita água que rolou...

Eu, que me pensava esquecida por algum motivo, não estava não. Minha lembrança só estava em um cantinho. Eu e os livros não éramos um nada.

E num domingo a noite chatinho, foi bom ouvir um simples e sincero : Poxa, sonhei com você. Sei lá , mas queria te ligar, te ver.... Saber se você está bem, como está sua vida....

Tem vezes que é assim mesmo... ninguém está errado, ninguém foi filha-da-puta. É só mesmo assim que é a vida, a gente também não queria mas também está por aí magoando meio mundo.

Bom me enganar... Me faz bem perdoar um pouco mais o mundo.

25.10.07

Olha nossa grande educadora Xuxa, formadora de uma geração e que continua dando das suas... Agora ela gosta do MST? Será que ela virou comunista depois dos 40?
E o mundo cada vez mais estranho....


http://video.globo.com/Videos/Player/Entretenimento/0,,GIM738734-7822-VOCE+SABE+QUEM+SAO+OS+SEM+TERRA,00.html

22.10.07

Depois de uma noite mal dormida (no sentido literal) em que todos os seus monstros resolvem te visitar. Uma manhã com uma aula de Freud pra iniciantes em que fica todo mundo tentando fazer auto análise e se encaixar em categorias como neuróticos, psicóticos e paranóicos (talvez eu fique entre os últimos). E uma tarde com adolescentes te sugando...
Bom, o que resta para um dia desses senão pegar um dos livro de cabeceira, as obras completas do Bandeira (de novo!) e abrir aleatoriamente, no melhor estilo "Minuto de sabedoria".
Eis o que me cai.... Encantadora de gatos, lembrei de você....

Arte de Amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

21.10.07

O que significam coisas simples se justamente elas é que são as mais complicadas de serem atingidas?

Quando penso no que gosto de ter na vida, tudo parece tão elementar e óbvio, que não tê-las me dói como se me faltasse conhecer a lua...

Parece que quanto mais besta o desejo, mais difícil é chegar na plenitude.

Como as poesias do Manuel Bandeira. De tão simples, dão é uma bruta vontade de chorar...
Por mim e pelo mundo.



Assim eu quereria o meu último poema.

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais

Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas

Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume

A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos

A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

18.10.07

Hoje foi aniversário do meu pai. Liguei para falar parabéns mesmo sabendo que ele talvez não faça idéia de qual o dia exato do meu aniversário, e que, em decorrência do afastamento, eu também tenha esquecido o dia dele. Me lembraram e então eu liguei. Nos falamos por exatos 35 segundos. E foi o máximo que conseguimos conversar nos últimos meses....
Entretanto, esses 35 segundos me comoveram tanto, que me lembraram o quanto eu já gostei, gosto e admiro esse sujeito. Um cara bronco, um ogro que mal me conhece. Mas que, mesmo distanciado, opaco, me ensinou coisas como ombridade, dignidade e vergonha na cara.
Eu poderia muito bem odiar nossa história e dizer o quanto ele me faltou nas coisas básicas como carinho, compreensão, ou simplesmente, o quanto muitas vezes esqueceu o dia do meu aniversário.... Mesmo assim sou incapaz de tal acusação porque mesmo com todo o rancor, o amor existe para mim de forma tão clara que, para outros, isso só poderia ser explicado do ponto de vista daquele amor imbecil, incondicional, que somente a família é capaz de manter.
E não é isso.
Não é tão simples.

O ogro me inspira raiva, mas também um respeito e amor tão grande (respeito por carinho, e não pelo patriardo), que simplesmente não pode ser explicado.
Me comoveu perceber que ele se comoveu com a minha voz. Só isso me basta.
Eu também não sei quem ele é. Como sente determinadas coisas e o quanto o meu jeito de ser também o agride.
Mas não consigo simplificar e reificar a situação dizendo que ele é uma merda de sujeito e de pai.
Talvez chamá-lo de insensível o enquadrasse em uma categoria que me permitisse racionalizar todo o resto.... ( dá até pra justificar uns poblema por conta disso).

Só que ele não é só insensível, nem só quadrado, nem só ogro, nem só digno, nem só engraçado, nem só ausente, nem só nada....

Ele não é nada disso e é também tudo isso.

Ele é.

Nós somos.

E é isso que me parece tão díficil, na maioria das vezes, de entender.

As pessoas são bem mais e a gente não faz idéia do que é a existência do outro....

8.10.07

Angústia....

O que se faz, quando não se pode fazer nada?




7.10.07

Imagina o que a gente nem desconfia...

Influenciada por um companheiro parmerense sobre as possiveís consequências caso o Corinthiase caia para a segundona e de assistir de novo o já famigerado Tropa de Elite, fiquei imaginando uma conversa que poderia ter acontecido antes do jogo, no meio daquelas relações espúrias de que a gente tanto desconfia...

Secretário de segurança pública: - Puta merda, se o corinthians rebaixar vai ser foda. Imagina aquela massa de preto, pobre, maconheiro e ex presidiário, putos da vida tendo que passar a humilhação de ir para Sorocaba assistir Corinthians e São Bento? Fudeu Governador, vai dá merda! Pobre já tem pouco, não pode tirar esse restinho, essa merdinha de futebol no domingo e na quarta que os cara grita.

Governador: Tudo bem, tudo bem... vou ligar pro pessoal lá do Morumbi que eles ajeitam... Já praticamente ganharam o Campeonato mesmo, né? Que custa contribuir um pouquinho com a ordem decente das coisas?

28.9.07

O espírito caipira

Estava olhando umas letras de música caipira, daquelas que cresci ouvindo, mas que por me acompanharem sempre, nunca me importaram tanto. Na adolescência, eu sempre dizia que gostava, que achava bacana e traus... Na onda "os mocinho da Casa da Cultura", pegava bem gostar dessas coisas de raiz, povo ... cultura popular, manja?

E é claro que não gostava de verdade. Respeitava. Era legal gostar, racionalmente, sabia que aquilo era interessante. Mas o que me tocava mesmo, o que me fazia companhia no meu quarto de angústias de jovenzinha meio perdida, eram outras músicas, outras temáticas, outras crises que em absolutamente nada tinham a ver com épicos caipiras tristes, com amores perdidos, criancinhas mortas por um boi, pés de ipês junto a cela, e muitas saudades do interior, do sertão...

Ora, o meu amor não estava perdido (mas dava um trabalho...), as criancinhas me sensibilizavam abstratamente ( como índices de fome no mundo), nunca tinha sido presa, e tudo o que mais queria era sair daquele sertão....

Mas quando, ao chegar do interior, inocente, pura e besta, me vi perdida mesmo, em uma cidade maluca, como pessoas estupidamente blasés que pareciam não se importar com aquele absurdo todo, um sistema de transportes confuso, e mais o anonimato que eu tanto queria com muita, muita solidão.... Ai sim, me peguei chorandinho, sofrendo, ouvindo num buteco da Santa Cecília (de Piedade para o Minhocão, tranquilo...), uma música bem manjada, mas que ainda me emudece, me mareja os olhos...

"De que me adianta, viver na cidade, se a felicidade não me acompanhar, adeus paulistinha do meu coração, lá pro meu sertão eu quero voltar..."

(hehehe... foda, mas juro que chorei com isso, com uma música que ouvi trilhões de vezes...)

Foi aí que entendi porque a viola caipira, na maior parte das músicas, fala do que perdeu... Da vidinha tradicional, do amor que foi embora, do respeito e valores que mudaram. Enfim, dessas modernidade que o capitalismo trouxe...
E senti de verdade o que eles estavam dizendo. Eu estrangeira, forasteira, desenraizada.
Numa cidade cuja maior qualidade e o pior defeito é justamente o não se importar com os outros.

Ai meu sertão...

Sofria por falta de uma identidade. Mas também não queria ir na Vila Madalena comprar uma nova.

- A senhorita deseja ser do pessoal do samba, das rodas de capoeira ou prefere algo mais adaptado a cidade, mais modernozo? Nesse caso, sugiro que vá a Augusta....

Mas só ali percebi que a que eu tinha, só agora, longe dela, é que me doia. Doia porque não cabia nesse mundo em que agora eu estava. E que eu teria que inventar um jeito de não me perder, de não virar nada...

Eu que estava, naquela hora, detestando tudo isso aqui. Mas que também, não queria como a música dizia, voltar para o meu sertão.

Nessa vaguei um bom tempo pela capitar... pelo monstro que me atraia muito, mas que me comia um pouco mais cada vez que eu me aproximava...

E assim por um bom tempo, eu chegava na segunda, sofria até quinta aqui. Voltava para Piedade, e sofria até segunda lá...


26.9.07




Momento utilidade pública ...

25.9.07

Na praça da república, ainda cedo, muita gente já caminha....
Muita gente com roupa de quem vai a uma festa e expressões de quem vai a um velório.
Literalmente abaixo deles, esparramados ou encolhidos sob o chão, o horror do ser humano degradado, sujo. Muitas outras gentes para quem não existe lugar no mundo.

Na democracia liberal, o controle e a manutenção da escrota ordem da coisas, não vem só de cima.
Vem de baixo, dos que sobraram.
São eles que ajudam a garantir um mundo de gente infeliz e obediente. Morrendo de medo de ser o entulho de gente, o tropeço, o obstáculo na praça.


Gente triste que come com medo de ser aquela gente triste que não come.

Mano Brow no roda viva

Finalizando, depois de soltar algumas numa entrevista cheia de dedos. Falando de igualdade de oportunidades para competição ao mesmo tempo em que defendia a sua gente lembrando o óbvio, ou seja, que eles também são gente....

Paulo Markun, o imbecil: Na minha época, a onda era ser paz e amor. Você se considera paz e amor?

Mano Brow, o Jacobino : Não. Eu quero paz e amor, mas vida não é assim não.