30.6.08

Sonetos que não são


Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.

E sendo água, amor, querer ser terra.

- Hilda Hilst -

20.6.08

Ai, o Carvana...

"Neste sentido, o “New Labour” e todos os seus imitadores demonstram-se, em todo o mundo, compatíveis inteiramente com o modelo neoliberal de seleção social. Pela simulação de “ocupação” e pelo fingimento de um futuro positivo da sociedade do trabalho, cria-se a legitimação moral para tratar de uma maneira mais dura os desempregados e os recusadores de trabalho. Ao mesmo tempo, a coerção estatal de trabalho, as subvenções salariais e os trabalhos assim chamados “cívicos e honoríficos” reduzem cada vez mais os custos de trabalho. Desta maneira, incentiva-se maciçamente o setor canceroso de salários baixos e trabalhos miseráveis."
Manifesto contra o trabalho

12.6.08

O aniversário da foca

Tenho lembrado muito de uma pessoa que fez parte da minha vida por muito tempo. Dias atrás, no meio da madruga, chegou um recadinho dele dizendo apenas "saudades". Engraçada essas sintonias, mas sempre acho que podemos explicá-las, em parte, pela memória compartilhada. No mês passado, nos encontramos e lembramos que faziam 11 anos que havíamos nos conhecido.
Hoje fiquei pensando em como eu gostava (ou ainda gosto) dos rituais comuns. Não toda a pieguice comercial do dia dos namorados C&A. Mas o carinho, a lembrança, os marcos de passagem e datas comemorativas. Os casais criam um mundo próprio, em que determinadas coisas passam a fazer sentido, e é claro, apenas porque é em função da outra pessoa. Não cabe em outro espaço, nem em outra relação.
Lembrei da minha foca de pelúcia. Exatamente 11 anos atrás, relacionamento começando, aquela insegurança típica de quem começa a se perceber apaixonado, sem saber muito bem o que esperar do outro. Ele então, o outro, me aparece com uma foca de presente de dias dos namorados. Dizia que ela era careca e com um fiozinhos de barba que nem ele. Era um bichinho para que eu me lembrasse sempre dele.
A partir disso e é claro que apenas por um tempo (intenso, longo, mas um tempo) firmamos um companheirismo maravilhoso. Ele é músico, a gente curtia ir em pagodes, sertanejos, karaoke, rock, o que rolasse. Enchiamos a cara juntos. Ele passou a fazer parte do meu grupo de amigos, do meu grupo de teatro. Ajudava no que desse fazendo cenário, dando pitaco em música, luz...
Eu assistia aos ensaios da banda dele. Ouvia suas composições, falava o que achava e ele ouvia. Juntamos por vezes as duas galeras, os meus e os deles, a ponto de quase sair mais um casal.
Todo ano, eu olhava para a foca e lembrava que o aniversário dela, era mais um ano que eu passava com ele.
Mais um ano de cantoria, de brigas, de amor, de conversas sobre o mundo e sobre a gente.De inventação de rituais. Nossos rituais. Mais um ano que ele me chamava de "leãozinho" (por que será hein?) e cantava para me acordar: "Gosto muito de te ver leãozinho, caminhando sob o sol..."
No primeiro aniversário da foca, sem o aniversário de namoro, eu achei que ia morrer. Mesmo. De verdade.
Nessa lógica de "mundo do casal", com o tempo a gente começa a sacar até a intenção das palavras. Às vezes eu perguntava, por conta de alguma estranheza: O que foi? E ele respondia: Nada não.
Era mentira. Tinha alguma coisa sim, e não falhava. Se a resposta era somente um "nada", aí sim podia ser encanação.
Tanto era verdade, que tempos depois, já na crise, ele fez um música. Me surpreendi de manhã descobrindo que ainda sei o final dela.
"Nao te entendo e temos tudo do avesso
de nossa geração.
Passo a passo faço nossa história
se tornar canção
Andamos juntos tão distantes
de nossa geração
Temos defeitos, tenho medo
do meu coração.
-O que foi?
- Nada não.
- O que foi?
-Nada, nada não...."
Hoje em dia ele deve odiar essa música, achar ruim para caramba, com rimas pobres. Mas eu dizia para ele que ia fazer um puta sucesso na indústria de massa para o público adolescente. Que ele ia ficar rico-famoso-drogado, me trocar por uma modelo, ficar mais deprimido e mais drogado e morrer disso.
E eu ia ficar rica leiloando entre patricinhas adolescentes histéricas, o manuscrito original da música.
Ele ria.
Eu ria.
Ele continua músico e meio hippão... Agora me chama de irmãzinha. Vai vendo...
Eu eu continuo aqui. Em tempo difíceis para se falar de amor, é bom ficar lembrando como ele existe.

5.6.08

lendo o mundo pelo rádio

Manhã de café prolongado, ouvindo um pagode, sem falar de nada. Esses pequenos prazeres são inexplicáveis. São aquelas coisas que a gente gosta, e muitas outras pessoas não vêem o menor sentido. Tipo o sujeito que gosta do seu bicho-de-pé, só para poder chegar em casa a tarde e coçá-lo. Vai saber as esquisitices de quatro paredes que existem por aí...

Mas também me impressiona como sou capaz de passar horas ouvindo rádio. A companheira do blog “histérica e feliz” adoraria ser locutora. Eu adoraria ser sua ouvinte. Mandaria recadinhos para o meu amor e tudo...

Mais especificamente, acho a 105 fm um dos jabás mais bem investidos das rádios comerciais. Claro que não tem como não lembrar do filósofo Mano Brow:

“...periferia...corpos vazios e sem ética lotam os pagodes rumo a cadeira elétrica...eu sei vc sabe o que é frustação...máquina de fazer vilão...”

Durante todo o dia, acompanhando as tarefas da rapaziada, em meio a cozinhas alheias, filhos que não são os seus, ou carros nos quais você nunca vai passear, fala-se de amor. O tempo todo. Boa parte das músicas se preocupa em pensar o amor nas suas milhões de formas cotidianas. Uma fala do casal feliz, outra fala de separação, outra fala de traição, de amizade, de saudade, da vontade de amar, de esquecer ou de ficar sozinho, “na pista”.

E as pessoas participam pedindo músicas. E nem sempre o que elas querem ouvir, são as mais pedidas da semana. Geralmente são oferecidas para alguém, e aparece de tudo.

Os cobradores de ônibus disparam na lista dos que mais recebem recadinhos : Antonio da linha Jardim Miriam – Vila Gomes, só você não vê que estou de olho em você.

Meninas, o Lêêêêê lêlêlêlê (só você tem o meu amor) do exaltasamba continua em alta.Encantadora de gatos, Temporal sempre aparece em algum apelo apaixonado, comove até agora.

O bacana também é que a rádio se divide basicamente em duas: O pagode e o rap. O espaço rap é um espaço respeitado. A rapaziada participa, manda abraço para os amigos que estão “do outro lado da muralha”, fala da vida. Muitos desempregados, e para eles o programa anuncia empregos do PAT (posto de amparo ao trabalhador). As vagas de trabalho são aquela coisa. Muito e mal pago.

Para os empregados, como os muitos seguranças privados noturnos, serve de companhia, um cara falando umas coisas legais, um música bacana, as pessoas participando.... e claro, tem transmissões de jogos. Em dia de jogo do Curinthia, como aconteceu ontem, a galera não se aguenta.

E para mim, é como ouvir uma partinha do mundo sem parecer estar nele.


V.L. Também Ama

Trilha Sonora Do Gueto

Composição: Trilha Sonora do Gueto

É vida loka, muito amor, muito amor...
Cê tá ligado, você é o que precisa mais de amor.
O vida loka é o que vai pra guerra
Você vai pra guerra ... você é o vida loka
Então muito amor vida loka, muito amor.

Sexta a tarde, fecha o sinal
A garota para o carro,
Ao lado encosta outro carro,
Ela olha ...
É um vida loka de boné pra trás,
barba por fazer
Ele sorri para ela
Ela sorri para ele
Ele abaixa o vidro elétrico,
E ela também
Ele pede o telefone
Ela dá: 8121-5511 liga pra mim
O sinal abre, os dois partem
Logo que ela chega em casa, o telefone toca
É ele!
Ótimo papo gostam das mesmas coisas
Parece até que se conhecem a um tempão
Ele sugere que se encontrem sábado a tarde no shopping
Ela topa.
Vida loka também ama nego.


Amo de uma forma que não sei explicar
Sou revolução nego, eu vou tentar ... então
Aprendi na vida que os fraco não tem vez
Um dos vida loka vale deles tipo seis
Não vai ficá aí se lamentando se a mina não te quer
doidão, c sai andando.
Deixa ela pensá, que é pá que é modelo, que
a fantasia de princesa dura o tempo inteiro
Hoje ela tem 15 amanhã tem 16,
Passada a temporada ela vai ter 26.
Aí você vai vê nego, quá lé que é que é se ela é a guerreira
pra poder ser sua mulher

Cara é complicado essa vida
Mas aprendendo é que se ensina, ainda existe
boa gente, que vai a luta e segue sempre em frente
Tendo que enfrentar toda manhã e se preocupar com sua família.

Amar é complicado, pros fracos não tem vez
Um dos vida loka vale deles tipo seis
Só tenho que eu mereço, humildade vem do berço
Amor é só de mãe, pois de outro eu não conheço

Cara é complicado essa vida
Mas aprendendo é que se ensina, ainda existe
boa gente, que vai a luta e segue sempre em frente.
Tendo que enfrentar toda manhã e se preocupar com sua família

Amar é complicado né Jão, quem é que não gela
Olha que vem lá Boca é o Zé Ruela
Tá cá mina dele, modelo de favela
Tipo Vera Fish, oh quem ti dera
Acho que o cê só tá só com ela memu
Pq cê num trampa e num paga um veneno.
Eu queria vê se cê fosse operário
Dasse aquele trampo prá ganhá um só salário
Ela ía querer você, bem longe dela
O seu privilégio é ter um golf na favela

Eu não falo nada né Jão, fico na minha
Ele mesmo diz, essa aqui é minha mina
Mais vale um operário sem ela vai por mim
Do que um criminoso tano em cana e sozinho
Não sou mais que ninguém só quero alertar
Um dia eu também nego, passei por lá
Foi lá que eu notei, que o homem também chora
Quando a modelo de favela vai embora,
Ai só fica ele e a decepção pagando de mau mau abandonado na prisão.

Cara é complicado essa vida
Mas aprendendo é que se ensina, ainda existe
boa gente, que vai a luta e segue sempre em frente
Tendo que enfrentar toda manhã e se preocupar com sua família. Com sua família.
Cara é complicado essa vida...
Cara é complicado essa vida...
Mas aprendendo é que se ensina, ainda existe
boa gente, que vai a luta e segue sempre em frente...

Alô ... alô
Me desculpa, eu não queria que tudo acabasse assim
Me dá uma chance,
Fala comigo ...
Alô ... alô ...

As vezes a gente sente e fica pensando que tá amando.
E que encontrou tudo de bom que a vida poderia oferecer.
Até que a mulher que a gente ama vacila e põe tudo a perder...

Cara é complicado essa vida...Essa vida Essa vida....


letras acima

30.5.08

Conversa de buteco

Butecada boa é aquela em que você começa prometendo tomar só uma cervejinha... E de repente está fechando uma caixa...
E mais...
Perfeitas são aquelas nas quais, no auge da filosofia de mesa de bar, surgem las grandes sínteses teóricas sobre a humanidade. E no outro dia, apesar da dor de cabeça e do trabalho a se levar, traz no rosto dos participantes aquele sorriso de quem lembrou porque a convivência entre as pessoas é tão gostosa...

"Duas definições sobre a pós-modernidade:
Ctrl C + Ctrl V "

28.5.08

Deus ajuda quem cedo madruga?

De vez em quando, em determinadas fases, acabo dormindo pouco. Ao contrário do poeta, tenho muito sono a noite e pouco sono pela manhã.
Fiquei pensanso se estou ou se sou assim. Meio histérica pela manhã.

Em pleno domingo, depois de uma semana complicada e de uma tarde-noite de samba, cerveja e churrasco, seria o dia perfeito para dormir até o corpo doer. No entanto, antes das 6 da manhã, lá estava eu, tomando um café e vendo televisão debaixo do cobertor quentinho. Vi seriados bobos de solteiros malas. Depois passei para o tradicional "Pequenas empresas, grandes negócios". Foi aí que me lembrei que assisto esse programa, no domingo, nesse horário bizarro, desde que me conheço por gente.

Minha casa em Piedade é o elo perdido entreo camponês e o citadino. Em termos materiais, apesar de meu pai sempre ter trabalho com roça, ele era o patrão e minha mãe era funcionária pública, portanto estavamos bem distantes das condições de vida do mundo rural. Mas pensando nos costumes, meus avós foram os responsáveis por perpetuar os hábitos mais caipiras do mundo. Cultura do arroz-feijão-ovo e leitoa criado e plantado por eles mesmos.
De acordar cedo, porque a vida é assim, se trabalha do nascer até o cair do sol.

Em casa ninguém trabalhava nesse tanto, mas todo mundo sempre acordou muito cedo. Meu pai levantava para ir buscar os "camaradas" e ir para a roça. E logo cedo, lá estava minha vó fazendo café e pegando o pão que meu pai trazia para a rapaziada. Me dava um dó. Poxa, era domingo, tava frio... E o pessoal lá, na varanda de casa, vestindo um monte de trapo, um sobre o outro. As moças de saia e calça. Os moços com o boné de algum candidato ou comércio local. E eu encolhida com o meu vô, não entendendo porque eles tinham que sair de casa tão cedo... Poxa, bem na hora do Globo Rural?

Então minha vó fazia para nós dois, virado de farinha de milho com ovo. Chá preto para o meu avô e café para mim porque sempre adorei café, desde pequena. Meu vô me dizia que eu era pretinha por isso. Porque tomava muito café.
Daí a gente ficava lá na sala. Assistindo o Globo Rural, que era o mais legal. Depois um pedaço da missa diretamente da Aparecida do Norte, e depois vinha a Inesita. Saudades do vô, e ele já morreu faz tanto tempo... Tenho a impressão de eu seria uma pessoa diferente, talvez melhor se ele tivesse ficado vivo mais um pouco. Quando ele morreu eu tinha 7 anos de idade e parece que depois disso, tudo desandou e virou o mar de confusão que é até hoje. Pelo menos é assim que me lembro das coisas... Eu era uma até aí, e virei outra depois disso.

Engraçado o fato de que esses programas ainda existem e me trazem uma manhã nostálgica, horas para se pensar na própria história.

Após uma reportagem sobre o cultiva das oliveiras, pensei que talvez minha memória estivesse criando imagens que não existiam. Como é possível o mesmo programa existir por tanto tempo? Será que eu não assistia tudo isso um pouco mais velha?

Então o apresentador leu uma carta de um espectador. Ele dizia que estava completando 26 anos de casado, e que ele e a esposa começaram a assistir o Globo Rural juntos, na lua de mel e, desde então, não perdiam um único domingo. São vinte e seis anos, ou seja, exatamente a minha idade, fazendo exatamente a mesma coisas, juntos.

No primeiro momento, me pareceu absurdo. Depois pensei em mim. Gosto desse programa pelo menos há 21 anos... Continuo adorando as reportagens sobre como combater pragas, melhorar a alimentação do gado, ou as máquinas malucas que vira e mexe algum tiozinho inventa para extrair alguma coisa do seu cultivo. Então por que não fui ser algo mais prático, ligado a todo esse universo?

Talvez porque no fundo, ficou mais forte o não entender por que eu podia ficar em casa comendo meu virado de ovo com café, enquanto todo aquele povo subia no carro e partia para o trabalho, como marmita e filhos a tira colo. Sem poder dormir em um domingo frio. Nem muito menos, assistir quentinho o Globo Rural.

Já bem grandinha, descobri que eles eram chamados de "camaradas" pelo meu pai, mas que na verdade, era na marmita que se podia entender de fato o que eles eram: Bóias-frias. Descobri que eu só podia ficar em casa com meu avô, porque o avô de alguém estava em cima daquele carro, no frio. Que a minha mãe ia para a missa, toda bonita, porque a mãe de alguém tinha largado o filho em casa para trabalhar, ou ia passar o dia xingando os moleques para que eles não atrapalhassem "o pessoal que estava arrancando cenoura".

E que na verdade, deus esqueceu há muito tempo de quem cedo madruga.

8.5.08

Quanto mais óbvio, mas revoltante.
Um tal de Bida fazendeiro condenado por matar uma freira o que em um país católico constitui um agravante considerável. Um intermediário, Tato, foi condenado junto com esse outro aí. Quando o primeiro recorre (ou seja, o dono do dnheiro), o segundo misteriosamente muda o depoimento e inocenta o primeiro.

E tem gente que é tão, mais tão esperta, que anda desconfiando, assim de leve, que no mundão aqui é assim, que com dinheiro se compra tudo, e essa é a óbvia graça de ser rico.

7.5.08

A gente não quer só comida...

Pois é, mais uma vez enfatizando a ranzinzisse da vida, aquelas que te fazem colocar tudo dentro do mesmo balaio de gato...

Faço isso com os artistas. É impressionante como tenho dificuldade em mandar para a casa do caralho pessoas que merecem (e muito) esse destino. Quando consigo chegar no limite de realmente dizer - Olha, isso tudo é uma merda e você também - é porque já estou naquele momento de raiva profunda. Mas, mesmo com a raiva, sou capaz de voltar atrás em 5 minutos. Não por que mudei de idéia, mas porque fiquei com muita pena, e não consigo me sentir bem com a desgraça alheia. Não me sinto melhor quando o outro está pior.

Mas com artistas costumo ser mais cruel. Não gosto de conviver, não tolero tomar cerveja como pessoas que precisam de duas cadeiras.

-Ah, dá licença, posso puxar essa cadeira? É porque meu ego gosta de sentar perto de mim.

Na verdade, toda implicância vem da sensação de que a maioria do que se intitula arte, é muito vazio. Não diz nada sobre o mundo, sobre ninguém. O artista, na maioria das vezes, cria e quer que se foda se você entendeu ou não. O importante é a estética pela estética, e não sua possível função de trasmitir idéias, sensações, novas formas de percepção do mundo.
É tudo só por boniteza. E se não entendemos, não sentimos nada e bocejamos durante o espetáculo ou coisa assim, é porque somos burros.

-Ai querida o espetáculo foi bárbaro, pena que o público é fraquinho... Sabe como é no Brasil né?Não dá para falar de arte em um país de ignorantes. E o governo não faz nada. Me revolta viu!

Esse tipo de artista, normalmente acha que para ser profundo, precisa ser difícil, imcompreensível, quase impossível. Sabe aquela história de que o Rei está nu? Pois é, tenho a impressão de que a maioria das pessoas sai desses "espaços" de arte, dizendo que a roupa do Rei era maravilhosa....
Ah, e tem que ter gente gostosa e pelada. E diga-se de passagem, isso é um clichê que não perturba mais nem o povo de Piedade, quanto mais, o público espaço Unibanco que frequenta esses espetáculos.
Esse tipo de gente babaca, que acha Gerald Thomas o M-Á-X-I-M-O, é a rapaziada que está muito mais preocupada em ser artista do que gente, do que cidadão. Que está cagando para o mundo e sonha com um convite da globo, nem que seja para fazer Malhação. Mais preocupado em resolver seu lado e ter um rosto e um corpinho bonito, do que com a tal "cultura" da qual se dizem representantes.

Enfim, posso escrever um tanto execrando os franceses que frequentam a região oeste e centro de São Paulo.

Mas bom mesmo foi pensar nisso justamente vendo um exemplo contrário. Pessoas que podem me ouvir falando isso de um artista e dizer: Você está falando merda, nós não somos assim!

Artistas mesmo. De espírito e não meramente da vontade de ser alguém nesse mundo que massacra as individualidades e transforma tudo e todos em massa. Um povo alegre. Não blasé. Que canta, dança, recita e celebra a vida, sem ser estúpido ou alienado.

Ser alegre não é medíocre. Medíocre é a vaidade que envolve o umbigo daqueles que acham que o problema é a falta de cultura, principalmente do público juruna, do "povo tatu".
E bonitos são aqueles que, ao invés de ficarem cagando na ignorância do povo, se dispõem a contribuir com o fim da miséria de sonhos e beleza que envolve a maioria da população.

A gente não quer só comida, mas também tá de saco cheio de estética e gente vazia, que consome um romance, uma música, como quem compra uma bolsa nova roxa de bolinhas verdes.

Assim, registro aqui uma letra de música ,devidamente copiado do blog ombudsmans de botequim (ombudsmansnoboteco.blogspot.com) . Engraçado quando algo incomoda, e naquele momento encontramos ecos pelo mundo.

Eu sou bom de cama, sei fazer café
E ninguém reclama do meu cafuné
Mas... artista é o caralho, é o caralho!

Eu sou bom de bola, jogo com calor
Canto na viola sempre com amor
Mas... artista é o caralho, é o caralho!

Canto no banheiro sem vacilação
Já ganhei dinheiro na televisão
Mas... artista é o caralho, é o caralho!

Gosto de cinema, gosto de dançar
De fazer poemas em papel de bar
Mas... artista é o caralho, é o caralho!

Já entrei na lista de uma tal mulher
Que é capoeirista e tem samba no pé
Mas... artista é o caralho, é o caralho!

28.4.08

Virada atravessada

A virada agora aconteceu... De verdade. Vi coisas, gente, ri pra caramba, chorei também. Enfim, sentindo tudo demais, de cabeça e cara cheia .
Bom, mas apesar de ter visto muita coisa, gostei mesmo foi da Inezita Barroso. Chorei mesmo. Por tudo o que ela me trouxe.
A Inezita é uma personagem que permaneceu presente em toda a minha vida. Praticamente lembro dela desde que eu me lembro de mim. Meu avô, a figura masculina da minha vida adorava o programa dela. Assistíamos juntos ao "Viola Minha viola". Lembrei também dos primeiros dias aqui em São Paulo. Como me trazia tristeza ver a Inezita e pensar o quanto tudo tinha mudado. E, em tempo, o quanto eu não tinha a menor idéia se estava ou não fazendo a coisa certa.
E por fim, chorei mesmo quando pensei nas minhas manhãs de domingo. Pensei no amor que nunca foi meu, mas que me fazia companhia, que tantas vezes assistia a moça comigo. Mais uma coisa que se foi. Mais uma falta.

Nessa hora tive que ir embora. Não dava mais.Fiquei boba, sentimental demais, chorona. Sentindo falta de tudo. Achando tudo ruim.

A canseira e a ressaca da noite anterior ganharam. Tentei mas perdi pra tristeza, pra saudade.

Restou mesmo foi me arrastar mais um tempinho e chegar pelo menos até o show do Ultraje.
Melhor arrastar um bode podendo mandar tudo pro inferno.
Dançar e espalhar palavrões com uma praça lotada melhorou um pouco as coisas.
Ah, e mandar o Kassab tomar no cú. Fechou. Descem as cortinas.
Agora só no ano que vem.

23.4.08

Homenagem aos guerreiros do mundão. Viva São Jorge!


Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer mal. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar.

14.4.08

La Mano de Dios




Já que mão na bola, ou qualquer outra irregularidade do mundo só é problema quando não beneficia seu time, aqui vai um salve para o lindo do Adriano.
Aliás, gosto dele porque além de bonito, ele é humilde...
Nada como ter o companheiro Maradona de exemplo a ser seguido...
Só falta ele começar a liderar marchas contra o Bush...
Aí eu me apaixono hehe...

7.4.08

Daruma X Mad Max




Fiquei pensando nesses dias todos na falta que faz a esperança.. No mundo não falta a utilização da palavra em nomes de falsas promessas ou legitimando canalhices... Criança esperança, esperança na educação que trará a redenção (e regeneração) da pátria, esperança no desenvolvimento, esperança de que um dia seremos de 1º mundo... Enfim, a esperança existe na medida em que ela é reivindicada como alimento para o conformismo. É como se a sua única função, fosse acalmar as pessoas que não tem nenhum motivo concreto para ter esperança.

Enfim, esperança sempre me soou como sinônimo de otimismo. E como já diz a máxima: Otimista é o pessimista mal informado. Logo não sou otimista. Logo, não tenho esperança.

Essa premissa é verdadeira, mas não constante e muito menos imutável.

Eu quero ter esperança. Eu juro. No sentido pleno, bonito, sem fatalismos.
Do ponto de vista histórico, não ter esperança, é acreditar no fim da história. É acreditar que o capitalismo é a forma social e econômica final. Que daqui para a frente, só o futuro Mad Max nos espera. Fudeu. A predação e selvageria venceu. O racionalismo estúpido triunfou. Socorro, não vou ter filhos nesse mundo desesperador...

Muito bem. Quem quer um mundo diferente tem que ter esperança. Por isso sinto tanta falta dela em mim.

Busco a esperança sempre. Mesmo que eu não consiga todo o tempo. E mesmo que ao conseguir, em determinados momentos, isso me dê um ar de boba alegre.

Dias atrás comprei um daruma.É um bichinho japonês que vende em toda a esquina no bairro da Liberdade. O bichinho tem dois olhinhos brancos. A idéia é a seguinte: Fazemos um pedido, pintamos um olhinho e deixamos o bicho de gesso inerte exposto em algum lugar bem visível. Quando o pedido se realiza, pintamos o outro olho como forma de agradecimento.

O Daruma é o símbolo da esperança e da perseverança. A lógica é bem simples. Se guardarmos o dito cujo na gaveta, ele perde sua função que é lembrar o desejo. Lembrando, fica mais fácil não esquecer o que a gente quer, do que a gente gosta.

É mais ou menos esse o exercício diário de quem quer ter um pouco de esperança: Não esquecer que ainda existem gostos, desejos e beleza. Se elas forem para o fundo da gaveta, se não ficarem expostas, são esquecidas e não se realizam. Em nenhum momento.

Dessa forma, sei que, na maioria das vezes, são restritas as chances de se pintar os dois olhinhos do Daruma.
Todo o sistema maldito pautado no fim do sonho e na supremacia do mercado sobre o homem, exige todo dia que não pintemos mais nehuma esperança, nenhum olhinho.

Afinal, o que é um desejo, a beleza, as boas coisas que ainda existem, perto da desgraça anunciada que é a permanência do capitalismo?

É um olhinho do Daruma. É só pra gente não esquecer o quer e do que gosta.
É só para gente não perder a esperança de que a história não acabou.

28.3.08

Ai, a latinidade...

Hoje de manhã, andando pelas redondezas do lar, meio cabisbaixa... E eis que me surge essa beleza emocionante da mais pura essência da breguice envolta na passionalidade latina. Lindo...
Quando o Almodóvar transformar em trilha sonora de um de seus filmes então... ai ai


Corazón Partío

Composição: Alejandro Sanz

Tiritas pa este corazón partío.
Tiritas pa este corazón partío,

Ya lo ves, que no hay dos sin tres,
Que la vida va y viene y que no se detiene...
Y, qué sé yo
Pero miénteme aunque sea dime que algo queda
Entre nosotros dos, que en tu habitación
Nunca sale el sol, no existe el tiempo ni el dolor.
Llévame si quieres a perder, a ningún destino, sin ningún por qué.
Ya lo sé, que corazón que no ve,
Es corazón que no siente,
El corazón que te miente amor.
Pero, sabes que en lo más profundo de mi alma,
Sigue aquel dolor por creer en ti,
¿qué fue de la ilusión y de lo bello que es vivir?
Para qué me curaste cuando estaba herío,
Si hoy me dejas de nuevo con el corazón partío.

¿Quién me va a entregar sus emociones?
¿Quién me va a pedir que nunca le abandone?
¿Quién me tapará esta noche si hace frío?
¿Quién me va a curar el corazón partío?
¿Quién llenará de primaveras este enero,

Y bajará la luna para que juguemos?
Dime, si tú te vas, dime cariño mío,
¿Quién me va a curar el corazón partío?

Tiritas pa este corazón partío.
Tiritas pa este corazón partío.

Dar solamente aquello que te sobra,
Nunca fue compartir, sino dar limosna, amor.
Si no lo sabes tú, te lo digo yo.
Después de la tormenta siempre llega la calma,
Pero, sé que después de ti,
Después de ti no hay nada.
Para qué me curaste cuando estaba herío,
Si hoy me dejas de nuevo con el corazón partío.

¿Quién me va a entregar sus emociones?
¿Quién me va a pedir que nunca le abandone?
¿Quién me tapará esta noche si hace frío?
¿Quién me va a curar el corazón partío?
¿Quién llenará de primaveras este enero,

Y bajará la luna para que juguemos?
Dime, si tú te vas, dime cariño mío,
¿Quién me va a curar el corazón partío?
¿Quién me va a entregar...

26.3.08

Sabedoria de domínio público...

Tem coisas que a gente não sabe de onde vem, e muito menos entende por que vem. Como a saudade...
Como as lindas quadrinhas populares que andam pelo mundo... E chegam do nada para comover nosso dia...

Quem sofre o mal da saudade
Não acha livre um momento,
Pois tem perto a enfermidade
E longe o medicamento

25.3.08

Canção excêntrica

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre meu passo,
é distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço,
- do que faço, arrependida.


Cecília Meireles

24.3.08

Viva a modernidade!

A segunda -feira é um bom dia para se pensar como o mundo deu errado, como o projeto faliu. A sensação é de que para resolver isso aqui, só fechando e começando de novo. O capital, a racionalidade, a aceleração do tempo, enfim, a modernidade que deveria civilizar o homem, criou a bestialidade mal humorada tão bem expressa pelo chute inicial da semana. A bola começa a rolar, a felicidade do domingo vai embora. Mas no mundão, o jogo não tem regras claras, apenas indicadas.

Nessa perspectiva de que o projeto racionalista, bestializou ainda mais as pessoas, temos aqueles figuras que "metodologicamente" tentam mapear a miséria humana. E então, como se algo, os fatos, mudassem sendo quantificados, eis que entramos no mundo da estatística. Sempre somos estatística. Alguma. Qualquer.

Se tomamos café em casa, utilizamos o transporte público e trabalhamos 8 horas por dia, alimentamos determinada análise.
Se, ao contrário, comemos na rua, nos locomovemos de carro, e ganhamos dinheiro em 3 horas por dia, somos outra.

Enfim, o fato é que dificilmente conseguimos perceber que os números, tentam reproduzir nossa vida, nosso comportamento social. Nunca achamos que é com a gente. A estatística é sempre o outro. A desgraça sempre está ao lado.

Mas hoje não... Tudo está tão cinzamente segundona pós -ressaca e preguiça do feriado, que me ocorreu o quanto sou tão todo mundo, quanto todo mundo. Quanto qualquer nicho de mercado. Quanto qualquer consumidora. Quanto qualquer estatística.

E claro que eu já sabia. Mas ainda mantinha aquela impressão de que, pretensiosamente, ao menos tentava ser diferente.

Pois bem... não sou.

E por mais que isso pareça uma besteira de desabafo bloguístico, é mais sério, é bem mais sério.

Agora, eu realmente me vejo como uma estatística. Eu me identifico com uma delas e isso faz com que eu veja também as outras. O quanto sou todas elas.

A memória precisa do esquecimento para se construir. E decididamente, não vou esquecer o dia em que percebi/virei só uma estatística.

17.3.08

De volta...

Muito bem... Devido às constantes cobranças dos seis fiéis leitores desse blog, resolvi justificar minha ausência, que, em parte, se relaciona ao mesmo questionamento da companheira de vida e de blog, a famigerada Encantadora de gatos. Ou seja: viver ou escrever?
Entretanto, o que dificulta tudo ainda mais, não é necessariamente o fato de que minha vida anda suppeerrr animada (em paz sim, animada nem tanto, tumultuada e boa, talvez), mas o parco acesso à tecnologia. Em suma, não tenho mais internet em casa. Quando chego perto dessa beleza da pós-modernidade, geralmente preciso resolver questões pontuais. E no trabalho então, faço o que tenho que fazer e saio correndo. Não dá vontade de tomar mais uma e escrever no blog.
E por fim, acho difícil escrever em casa e publicar depois. O meu blog, normalmente, tem a velocidade dos sentimentos e eles mudam sempre, muito rápido. Muitas vezes eu relia uma publicação do dia anterior e já não era a mesma coisa. Uma tristeza, ou um emputecimento (como o de agora, já que acabei de sair da sala de aula), não é o de ontem e não será o de amanhã.
Com exceção dos momentos de "coisas e valores para a vida", ou seja, os mais inspirados e portanto, mais raros, todos as outras escrivinhadas são fugazes como os momentos que as propiciam.

Enfim, tudo isso para dizer que não abandonei esse espaço e que continuo gostando muito das trocas que eles me propiciam.
E enquanto não escrevo, permaneço lendo os amigos, a parte realmente interessante disso tudo aqui.

22.2.08

Vida no centrão...

Sai da província e acelerei o tempo da vida. Nós caipiras somos como crianças em alguns espaços, ainda nós impressionamos com as coisas, não temos aquele ar blasé metropolitanto zona oeste, de quem já viu tudo, ou quer parecer que já viu.
Agora mesmo, só de sentar em uma lan house e resolver minha vidinha medíocre, a moça do lado me fez ouvir a conversa dela com o namorado. Primeiro resisti, tentei pensar em outra coisa. Depois ficou bonitinho, me envolveu e não pude mais ignorá-la. A moça deve se chamar Antonio no registro oficial. Mas de que importa isso no espaço do anonimato e dos nomes não oficiais?
A moça me entreteu enquanto eu resolvia meus probleminhas bestas com o sistema Fênix. A moça trocou hoje os euros e está indo ser mais um traveco brasileiro na Europa. E sabe extamente onde está se metendo.
A moça então deu uma trepadinha por telefone. E disse que ele era especial, que dessa vez estava gostando de verdade dele, que queria ser fiel e tudo. Depois disse eu te amo, mandou milhões de beijos beijando um celular, declarou a saudade e avisou que estava chegando.

Me emocionei um pouco. E depois lembrei que provavelemente nunca mais veria aquela rosto na vida. Não saberia o que seria daquelas pessoas, daquele amor.

E sabendo detalhes bem íntimos daqueles desconhecidos, simplesmente levantei, falei boa tarde e sai.

11.2.08

Resta rir

Acho que muitos dos seis fiéis leitores desse blog já conhecem esse texto. Tenho lembrado muito dele...
De qualquer forma, é divertido reler. Então tá aí:


Bar ruim é lindo, bicho


Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de 150 anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de 150 anos, mas tudo bem). No bar ruim que ando freqüentando nas últimas semanas o proletariado é o Betão, garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas acreditando resolver aí 500 anos de história. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura. “Ô Betão, traz mais uma pra gente”, eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte do Brasil. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte do Brasil, por isso vamos a bares ruins,que tem mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gateau e não tem frango à passarinho ou carne de sol com macaxeira que são os pratos tradicionais de nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gateau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda. A gente gosta do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne de sol, a gente bate uma punheta ali mesmo.

Quando um de nós, meio intelectuais, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectual, meio de esquerda freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim. Porque a gente acha que o bar ruim é autêntico e o bar bom não é, como eu já disse. O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e nesse ponto a gente já se sente incomodado e quando chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual, nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e universitários, a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevete e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.

Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantém o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam em 50% o preço de tudo. Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato. Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se fodem, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão brasileira, tão raiz.

Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda, no Brasil! Ainda mais porque a cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que agente gosta, os pobres estão todos de chinelo Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gateau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda, como eu que, por questões ideológicas, preferem frango a passarinho e carne de sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca mas é como se diz lá no nordeste e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o nordeste é muito mais autêntico que o sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é mais assim Câmara Cascudo, saca?).

-- Ô Betão, vê um cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?


8.2.08

E a vida andando...


Claro que tudo sempre está em constante mudança. Sempre o movimento que dá o contorno do momento vivido. Mas em alguns momentos, tenho a impressão de as mudanças são mais bruscas. Outra fase. Um momento muito diferente ao anterior.


O que me deu certa sensação de continuidade por um tempo, foi o ser adulta. Mesmo sendo uma adulta meio com um pé na adolescência prolongada pela universidade.

Mas agora, tenho a impressão de estar começando a ver coisas novas velhas. Coisas que eu me lembro da infância. Coisas que aconteceram com meus pais. E Eles me pareciam tão aburdamente adultos, tão gente grande.


E não me parece que essas mudanças são externas, alheias a mim, que apenas circundam meu mundo, mas não entram nele. Eu também mudei bastante. Comecei a gostar mais de umas coisas do que de outras. De algumas desgostei, mas de outras, apenas gosto menos, mais de vez em quando. Uma peneira construída por um pouco mais de experiência, de construção de critérios. Testar a tolerância de forma a repensar sempre.

Se pensando no mundo. E de preferência, nesse mundo.