14.1.08

Vivendo em um caixote

Impressionante como a noção de espaço foi completamente moldada pela necessidade de que muita gente more no mesmo lugar, nas rebarbas do capital, seguindo seu caminho e ritmo. Os escravos sempre acompanham...E essa doidera toda de capitalismo tosco tardio e meia boca, deixa os subdesenvolvidos a cada dia mais perdidos, fazendo mais e mais pataguadas querendo ser modernos. Enfim, coisas sem pé nem cabeça, arquitetura esquisita, e um bando de capiras morando em caixinhas empilhadas. Tipo eu na fase 1 do estágio: Como morar em apartamento.

Sinceramente, e é bem feio admitir, mas com relação a espaço, tenho um raciocínio em favor do senso aristocrático. Ora, na minha terra, o poder ainda tem relação territorial e não apenas virtual e financeiro. Gente rica mora em casas grandes com enormes quintais e pronto. Fiquei realmente espantada quando entrei em um apartamento super harahara (segundo os daqui), 1 por andar e traus. Achei pequeno. Não entendi a graça de ter dinheiro aqui, se não se pode ter uma casa gigante, isolada, piscina, escravos servindo suas mínimas vontades por todos os lados. Não é assim?
Pois bem, os ricos do dito capitalismo emergente são medíocres como todo burguês emergente. Acham o máximo morar em um apartamento no Morumbi, por exemplo. E a classe média é infeliz pra caralho tentando seguir o padrão de vida... Hoje em dia, as pessoas senso-comum-zé povinho arregalam os olhos de pavor quando te ouvem dizer que sua moradia é uma casa.
Enfim, mas aqui no estágio de apartamento, rolaram algumas engraçadas. Com a cqs e agora sem ela.
Cena 1
Eu chego. Uma lata de cerveja na mão, outras algumas na sacola. Esqueci de novo o número do apartamento. O porteiro me diz que é o 43. Quando estou entrando, ele, o porteiro protestante me intercepta:
-Olha mocinha, vou ter que pedir para você terminar essa cerveja lá fora. Não pode entrar bebendo coisas alcólicas no prédio.
Eu, como um olhar de vítima e ar de inocente, bebendo na rua em uma terça-feira lá pelas duas da tarde.
-Mas eu acabei de abrir. Está cheia, gelada.
Um porteiro protestante é incapaz de se sensibilizar com esse tipo de apelo.
-Mas não pode. A senhora termina e sobe.
-Mas daí as outras esquentam, é para a minha amiga... Olha, e se eu colocar aqui no cantinho da sacola, de pé apoiada nas outras, aberta mas escondidinha, tudo bem?
-Tuuuddooo bem.
-Certo.
A essa altura eu já estava rindo na cara do sujeito. Vai bater?

E outra hoje. Cena 2.
Esperando a Sandra, moça da faxina. Acordei mais cedo com medo de não escutar o interfone. Ele toca.
- Oi, é a Sandra, abre para mim.
-Claro, pode deixar.
Desligo, vou até a porta. Viro a chave.
Ela toca de novo.
-Então, você pode abrir para mim?
-Mas está aberta...
Ela desiste, desliga e em poucos minutos está na porta do ap., levemente inconformada.
-Viu, eu estava lá fora, era para abrir o portão porque estava sem porteiro. Fiquei um tempo lá, daí um velhinho abriu e eu entrei.
- Puts, desculpa Sandra, eu não estou acostumada com interfone.

Me senti uma anta de chapéu, claro. É isso aí. Logo, logo, mais uma caipira em um apartamento se atrapalhando. Aprender vá lá. Achar que é assim mesmo já é um pouco demais.

13.1.08

Moças e camas de casal

Domingo me parece um bom dia para devanear sobre besteiras absolutamente especulativas e sem nenhuma comprovação científica. Aproveito então para formalizar minha teoria baseada em observações de pouco alcance e no famigerado método noffs, ou seja, análises e generalizações baseadas em mim mesma. Acho que o título pode ser: " Moças sem marido com uma cama de casal. Uma faceta da mulher pós-moderna". Puts, acho que com um título desse ou algo assim, eu posso escrever qualquer merda dentro porque já venderia horrores na Livraria Cultura ou da Vila, por exemplo.

Poderia começar...

"Acordei e percebi que estava atravessada em posição diagonal sobre a minha cama, como há tempos não fazia. Naquele momento, percebi o espaço vazio que a pouco estava ocupado, e fiquei pensando o que significava aquela possibilidade, criada por mim e pelo meu tempo, de poder ocupar ou não um espaço que de qualquer forma é meu. Não me foi me dado por ninguém, muito menos por uma sombra de família e casamento que normalmente habita os quartos da sagrada e convencionada sociedade católica. Naquele quarto havia uma cama que sugeria um casal, mas que abrigava uma moça, e apenas eventualmente, um moço."



Eu me divertiria horrores. Mal saberiam os leitores da profundidade daquele momento, da cama antes ocupada e agora vazia: Fazia muitos e muitos dias que eu havia lavado uma quantidade astronômica de roupas que, depois de secas e recolhidas, passaram a habitar a metade da minha cama. Voltei a ter uma cama de solteira por puro esculacho. Mas isso foi em 2007, outra vida... Voltar a ter uma cama de casal foi o primeiro projeto já realizado em 2008.

Bom, penso que as moças sem marido e com uma cama de casal, constituem um grupo dentro do universo de mulheres diretamente beneficiado pela expansão do mercado de trabalho feminino mais ou menos qualificado e destinado ao nosso meio, a tal da classe média. Pagando suas contas, esse grupo conseguiu admitir que mulheres possuem sexualidade independente do fato de serem ou não casadas. Combatem o valor moral agregado ao tamanho da cama. Por exemplo um absurdo chamado cama de viúva, que não é nem estreita como a de solteiro e nem larga como a de casal. Ou seja, eu sei que você não é mais uma mocinha que sonha com seu amado em lençóis brancos do seu quarto que ainda preserva o ar infantil, mas também não venha me dar uma de putana e colocar um macho aí. E se colocar, tem que ser apertado, desconfortável já para não dormir. Ou alguém já viu uma cama de viúvo?

Não somos mais aquelas mocinhas que moram com os pais e ficam ansiosas para que o namorado possa, um dia desses, levá-las ao motel, a única possibilidade de transar tranquilamente, inclusive com o raro luxo de ter uma cama. E no caso de mulheres que já dividiram a cama, mas voltaram para seus latifúndios, este não representa apenas a marca de que ali já houve um casamento, nem passa a ser a cama de um dos filhos (obviamente não nos casos em que não existe outro lugar para um dos pequenos dormir, diga-se de passagem, o mais comum), e sim a cama de uma mulher que tem todo o direito de colocar seus namorados, quantos sua moralidade permitir e seu desejo chegar.

Claro que nem tudo são flores. Moças sem marido com uma cama de casal por vezes, acabam ficando um pouco egoístas e espaçosas. Um dos sintomas disso, é uma grande dificuldade em se adaptar à nova divisão do espaço propugnada obrigatoriamente por um relacionamento. Rola um inconformismo sincero quando se acorda com a cara na parede, observando os três palmos que lhe sobraram do seu latifúndio. Olha-se para o fulano ou fulana esparramado por todo o resto e só uma ternura profunda poderá ser o visto de permanência daquela pessoa que conseguiu se aboletar ali.

Entretanto a resistência para aí. Moças solteiras acostumadas com sua cama de casal também podem desacostumar, basta estarem dispostas ou não.No nosso entender a idéia de disposição, associa-se diretamente ao estar apaixonada. Entretanto, se vão querer dividir o espaço, saindo dessa forma da nossa categoria de estudo, não cabe às nossas especulações.

11.1.08

Sobrevivemos

Penso que todo mundo tem um pouco de sobrevivente da sua própria história. Nessa trajetória de acúmulos de experiências, ou seja, dores e alegrias, por mais que os momentos bons ou ruins passem, algo sempre fica com a gente. Vai nos moldando a existência e nossa forma de enxergar o mundo. O fato é que não é fácil para ninguém lidar com as próprias marcas, acho eu que, disso ninguém escapa.
O que vai sair disso, se pessoas ditas "normais" ou não, além de depender da referência do que é "normal", nem um caminho ou outro demonstra que se lidou bem com todas as informações e tragédias, seja do meio em que se nasceu, ou seja, a estrutura material e familiar, seja das escolhas proporcionadas por essa base que não foi por nós escolhida.
Portanto, parece que temos duas linhas que regem a vida: Uma que não escolhemos, que nos foi dado pela própria idéia de passar a existir em algum lugar e tempo. E outra linha regida por nós mesmos, por nossas escolhas, ainda que também profundamente condicionadas pelos pressupostos anteriores.
Bom, fiquei pensando nisso lendo "O Rio do meio" da moça que citei no post anterior. Tranquilo de verdade ninguém é. Mesmo aquele sujeito mais enquadrado, bestinha, que parece não ter cerébro a não ser um comprado em uma liquidação, também tem seus questionamentos e crises. Podem não ser as que considero mais profundas, mais isso é um critério meu, também criado a partir da minha vida.

Pois é, mas de verdade, apesar de saber que todos possuem um universo particular, me encantam os guerreiros. Acho que é porque tenho me sentido mais fraca do que de costume, mais suscetível, uma sobrevivente não tão digna, não tão esperta.
E admirando os guerreiros, tenho cada vez mais raiva de gente que anda com sua ferida exposta como se aquilo fosse o seu orgulho de existir e por isso, tivesse que ser desculpado por todos de todas as suas atitudes escrotas.
O sofrimento não é apenas o seu ser. É sua máscara. Sua justificativa para tudo.
Não sei se em todos os meios, mas tenho a impressão que no mundinho fflch, convivemos muito com gente louca para ser louca (citando a companheira Juju). Em geral são egoístas, acham que sua dor é maior do que a de todo mundo, são barriguinhas e desagrádáveis. Querem ser diferentes pelo sofrimento. E assim também se acham melhores. Pairam sobre uma humanidade, que consideram medíocre.
Por vezes também me sinto um pouco como esse tipo de gente. Mas penso nisso justamente porque não quero ser assim. A minha dor não pode me dar o direito de causar a dor no outro.
Me esforço. Tento não ser o que abomino. Aproveitar e aprender tudo o que der de situações quase surreais de tão absurdas e sem sentido.
A verdade é que desisti de entender.
Por hora, me contento em tentar não ser igual.

10.1.08

Convite

Lya Luft


Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.


E no meio das trapalhadas e desventuras da vida, cultivar os pequenos gostinhos de viver, torna-se quase um alívio frente a tantos desencontros. Encontrar outros tipos de encontro.

Dentre esses prazeres que deixam a vida menos árida, encontrar gente bacana que escreve bem é um dos que mais me contentam. Mais uma dos queridos amigos que mesmo longe estão perto. Mais uma para lembrar o quanto as pessoas são bonitas e podem nos acrescentar na existência. Assim, me contaram dessa moça de cabelos já branquinhos chamada Lya Luft, contista, poetisa, romancista e sobretudo mulher. E agora, tenho um lindo romance para me fazer companhia por mais uns dias.


9.1.08

Aptidão

Segundo o dicionário, ter aptidão é ter disposição natural ou adquirida sobre qualquer coisa. Portanto, aptidão natural pode ser aquilo que mesmo sem estar manifestado, já existe naquela pessoa que a possui. Na verdade, não sei se acredito que existem coisas naturalmente incutidas nos seres, como se fosse um dom. Mas se existe, acho que por mais que nos esforcemos, podemos aprender, adquirir determinadas aptidões, mas talvez nunca sejamos tão bom naquilo da forma como o "naturalmente" apto é.
Não sei mesmo se existe a aptidão natural. A palavra me incomoda. Naturalmente, entre seres humanos, me lembra darwinismo social. Mas achar que todos temos a mesma facilidade com tudo, é homogeneizar o ser humano, desprezar talentos.

Fiquei pensando nisso porque conheci uma pessoa que me encantou profundamente. O encanto me tomou justamente porque perto dela, eu parecia uma amadora, uma pessoa sem aptidão para amar o outro e que, por mais que eu me esforçasse, por mais que adquira a aptidão, nunca terei aquela tranquilidade e desenvoltura de quem sabe que nasceu para amar, que não poderia ser de outro jeito.

Ela ama como quem respira. Ela abraça, beija, fala de amor com a mesma facilidade e docilidade de qualquer tarefa muito simples e elementar. Eu a observo e me deslumbro. Tenho vontade de chorar na sua frente porque sei que ela me consolaria com a mesma aptidão, me colocaria no colo e aninharia meus cabelos. Ela perceberia na mesma hora que isso me acalma. E não preciso ensiná-la. Ela sabe.


Esse ser que sabe amar lê o que escrevo por cima do meu ombro. Diz que escrevo bem. Seus elogios são tão sinceros que coro. Ela diz que já me conhecia antes de me conhecer, por outros meios, mas que tudo o que sabia era nada perto do que eu sou. Mas eu, tenho tanta angústia, saudade, tristeza e álcool dentro de mim, que só sei olhar para ela feito uma boba. Não digo nada. Não aspiro nada naquele momento.
Só me vem uma dor, uma pontada no peito de me saber incompetente. De saber que estou longe de tudo o que ela sabe e não ter certeza se sou capaz de aprender.


"Essa ferida, meu bem
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã."
C.D.A

3.1.08

Mais um ano...

Particularmente não gosto tanto assim de rituais de passagem. Nesse ano, quando chegou o dia 31, fiquei ouvindo todo mundo fazendo pedidos, falando que ano que vem tudo será diferente... Como acabo sendo sem querer aquele tipinho de gente que leva tudo ao pé da letra e não entende piada, esses comentários me soavam quase como ofensas ao bom senso.
Não, as coisas não vão ser diferentes, o mundo não vai mudar muito, e normalmente o que muda é pra pior. E provavelmente as coisas mais emocionantes do ano serão as eleições municipais.
Admito que estava rolando um mal humor. Comunidade caiçara que quer ser capitalista e não consegue, muita gente acampando, menstruação fora de hora em um lugar que vende apenas o básico do básico para a sobrevivência, tipo gelo e repelente... E tinha acabado o gelo.
Enfim, a chatice toda era por não entrar no clima de euforia que reinava na praia afastada, porém lotada. Fico sem graça, me sentindo meio estúpida pedindo coisas para o sobrenatural, até porque pensei, pensei e não consegui pensar em listinhas para Iemanjá. A paz mundial e o fim da fome me parece absurdo demais para uma entidade só...

Bom, no meio de tudo isso, um garoto se afogou na praia. Nunca tinha visto alguém morrendo na minha frente. Ainda mais um menino que não devia nem ter 20 anos, e de um jeito absolutamente do além, com o mar calmo e os amigos todos em volta. Mas ele sumiu e quando o acharam, o mar já tinha vencido.

Na hora das sete ondinhas, só pensava nas pessoas que o amavam. Ele já não me importava mais porque simplesmente não havia o que fazer. Mas naquela festa toda, eu tinha visto a cena que acabou com as expectativas de um ano feliz para uma mãe, um pai, uma namorada, e sei lá mais quem aquele menino podia ter na vida.

Bom, depois da bebedeira, da saudade imensa de algumas pessoas que me tomou no meio de toda a comoção de terminar a noite sentada na praia olhando para o mar, consegui finalmente pensar que tudo o que eu quero para esse ano, é não perder nenhuma das pessoas que eu amo e continuar a viver com elas, do jeito que todos nós somos.

O resto a gente ajeita. Só não se arruma o que o mar leva, ou no coração se parte. Enfim, só não tem mais jeito, se o amor não der... hehe

25.12.07

Lembrancas de Natal...

Meio que sem querer, vem sempre na cabeca...




papai noel velho batuta

garotos podres


Papai Noel filho da puta
Rejeita os miseráveis
Eu quero mata-lo
Aquele porco capitalista
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Papai Noel filho da puta
Rejeita os miseráveis
Eu quero mata-lo
Aquele porco capitalista
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres

Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Pobres
Pobres

Mas nos vamos sequestrá lo
E vamos mata-lo
Por que?

Aqui não existe natal
Aqui não existe natal
Aqui não existe natal
Aqui não existe natal

Por que?

Papai noel filho da puta
Rejeita os miseráveis
Eu quero mata-lo
Aquele porco capitalista
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Presenteia os ricos

20.12.07

" - Como é que nunca viemos a esse lugar?
-É que não prestamos a devida atenção.
- Em nada.
- É verdade."

18.12.07

Para, pelo menos de vez em quando, lembrar de esquecer...

- Está tudo estranho...
- Não... Está tudo igual ao que sempre foi.
- É.

17.12.07

Sobre a melancolia...

"Quando eu penso em escrever, logo me vem algo ligado ao plano da melancolia. Então, pensei por um momento se isso seria vitimização. Se o culto a melancolia seria apenas fonte de inspiração íntima, ou se a melancolia é mesmo algo que me constitui. Afinal, o que é a melancolia senão uma brecha dentro de nós preenchida por um nada que de tão significativo não sabemos o real sentido. Eu não sou melancólico, eu acho. Mas eu trago a melancolia em mim. Dentro de algum lugar, tenho uma brecha preenchida por uma lava branca e inexplicável e que, volta e meia, emerge e me transborda. Na verdade, acho que todos temos. Mas o exercício de investigá-la, na tentativa de entender sobre ela o que representa em nós, ainda que saibamos nunca ser possível atingir tão complexo nível de auto-conhecimeto, nos faz um pouco tristes e maduros. Permitir-se à melancolia é saber reconhecer que ela existe, nos constitui, e é inevitável. A maturidade é pouco isso. Saber dosar parcelas saudáveis de dor sem que elas possam nos tomar por completo o tempo todo. É a busca por saber medir o quanto cada coisa pode e deve nos render de efeito. Mas a maturidade, ainda assim, não pode nos fazer absortos na racionalidade, e esse será mais um limite a ser administrado. Isso está ligado ao lance de que a maturidade não pode nos embrutecer diante dos fenômenos que nos cercam, pois, afinal, poucas são as verdades universais. O amor, por exemplo, é algo que maturidade alguma poderá suprir por completo. Ela poderá até criar um mecanismo de preenchimento sintético para aquela brecha, que temos, destinada ao amor, mas a artificialidade não suprirá a complexidade orgânica. E a falta da prática amorosa nos fará completamente melancólicos, e, logo, pouco maduros. Tenho amores tão grandiosos em mim. E eles ora me fazem mais melancólico, ora me distraem dela." P. Salvetti in: palavra do olhar.

Querido,,, O tempo passa e continuo me lendo em você.

Do cuidar e ser cuidada

"Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem com que homens se comunicam.)"
C.D.A

Às vezes, se passa tanto tempo sozinha, só cuidando da própria vida, que a gente esquece as delicadezas e cuidados com o outro. E como é bom recebê-las também. A gente se acostuma a grosseirice e solidão da existência de tal forma, que cuidado pode parecer uma invasão, um dedão metido na sua privacidade e individualidade.
Então um dia, alguém, depois de muito tempo, te faz um café, forte e amargo como a vida, só que dessa vez para dividir com um chocolate.
Linda vida... De só amarga e forte, para agora, meio amarga, meio doce...

Daí você se lembra... Meu Deus, há quanto tempo ninguém me faz um café...

De vez em quando minha mãe me acorda com um beijinho dizendo...
- Neguinha, acorda, vem tomar café com a mãe.
E reclama depois porque fez o café muito mais forte do que ela gosta, porque é como eu gosto. E diz que meu estômago não vai aguentar muito tempo e que tenho que parar de fumar. E me lembra que ela é minha mãe.
Não um companheiro.

Triste coisa essa de esquecer o carinho. De ficar tão chucra com tudo, de esquecer como se lida com as pessoas, a ponto de ficar com uma vontade enorme de só viver com cavalos. Triste ser ingrata e rude por inabilidade.
Triste chorar por não saber mais falar o que sente. Quando choro é recurso de linguagem.
Por nao conseguir agradecer o café e a companhia.
Por ter tanto medo do outro, pavor de se acostumar com o carinho e, quando perdê-lo, tudo ficar muito pior do que antes.

A ponto de, sinceramente,desejar a solidão, velha conhecida.

Acho que na verdade, eu não desaprendi nada.
Eu nunca soube a linguagem com que os homens se comunicam.


Apesar do esforço....

11.12.07

Primeiro dia em que me senti de férias... Normalmente, semanalmente, a terça- feira é um dia em que falo feito uma radialista louca no breve período entre 9 da manhã e 7 da noite. Saio rouca, mal humorada, não consigo ler... E quanto mais trabalho, mais dá vontade de beber no fim do dia. Nunca consigo ir para casa na terça - feira...
Hoje não... acordei tarde, tomei um café meio esfumaçado demorado, fui até a feira comprar peixe ( e voltei correndo... gosto, mas me atordoa), dormi um pouquinho, li um texto e depois me joguei em um romance que está há um tempo me olhando da prateleira.
"A Dor"- Marguerite Duras. Adoro romances de fundo histórico militante, e esse é biográfico. Principalmente aqueles da série que tem amores entre companheiros comunistas. Esse é outro. Sobre a resistência francesa.
No entanto, depois que a moça sofre metade do livro esperando a volta do seu companheiro preso em um campo de concentração, toda a agonia pós desocupação da França pelos exércitos nazistas, todo o desespero de não saber se o moço está vivo ou não... O que mais me impressionou, foi a segunda parte.
A mocinha quase fofa do começo, tortura violentamente um delator colaborador da Gestapo. Impressionante. Parece outra pessoa. Brava. Sem pena.Com ódio. Dura. Faz o que tem que ser feito e acabou.

Parei na última parte, quando ela começa a se relacionar com outro companheiro. Não consegui.

Não consegui parar de pensar se eu seria capaz de torturar alguém. Mesmo que esse alguém seja um filha da puta. Achava até agora a pouco que tinha uma listinha de pessoas que eu mataria com requintes de crueldade por questões pessoais e políticas sem pestanejar. Já não sei mais.

Se acho tão certo que algumas pessoas não merecem viver (e eu acho), então teoricamente, deveria também ser capaz de executar tal função, com os meios que precisar.
Mas hoje, pensei que nem com todo minha raiva acumulada, eu seria capaz de algo tão violento. Talvez fosse capaz de matar com arsênico, tiro na nuca ou coisa assim. Mas tortura é outra pegada.

Me senti covarde. Não é porque não temos agentes da Gestapo pelas ruas, que vivemos em um mundo muito melhor.
E se o caos chegar? E se eu precisasse pegar em uma arma? Ou pior: ter nas mãos alguém que sabe e precisa falar.
Por agora, tudo bobagem da minha cabecinha que vive um pouco no mundo de agora, um pouco no mundo da literatura .

Mas e se fosse uma guerrilha? Será que eu pediria para ficar só na ala da enfermagem?

2.12.07

Muito bem... Agora foi...
Corinthians na segundona... Justamente durante o jogo, muita gente a minha volta sofrendo e outros comemorando. Isso porque o Timão não admite meio termo, ele é meio como o Maluf. Ou se vota sempre, ou não se vota nem para síndico.
Enfim, vi até o Rubão, um puta negão gigante, chorandinho de canto. Bom, nessa, eu e um companheiro resolvemos criar algumas justificativas para aqueles chatos, principalmente são paulinos e palmeirenses que vão passar o ano enchendo o saco...

- Vai ser muito legal dar rolê pelo interior... Jogar contra times tradicionais e injustamente pouco reconhecidos como o Ipatinga, o Ponte Preta, o Ituano. Quer dizer, o Ituano não porque ele foi para a terceira.
- Se continuarmos assim, logo, logo, poderemos ir fazer um churrasco em Piedade e assistir o Corinthians jogar contra o glorioso Caveira dos Anjos.
- Primeira divisão é pra burguês que gosta de espetáculo. Legal é time de várzea, segundona... Tipo o grande "Bem Bolado" do Parque Edu Chaves...
- Os pais que torcem para times diferentes, tipo pai corinthiano e mãe santista, agora não precisam mais disputar: Torce para um de primeira divisão, e um de segunda, ué!
- A Globo não tem mais o público da Gaviões garantido. Se quiser, agora vai ter que transmitir de Marília.
- Os ingressos são mais baratos.
- O futebol da série B, por serem times considerados de menor importância, são menos visados pela máfia da Cartolagem.

E principalmente: Agora eu quero ver quem é quem. Na hora da merda é que dá pra ver quem é corinthiano mesmo.
Gostar do que está em alta é fácil... Quero ver ser leal nas dificuldades e fudidas. Esses geralmente são os momentos mais fortemente registrados na trajetória...
E como será que vamos lembrar disso?

29.11.07


Fui muito educada pela dor. Pelo menos é assim que minha memória coloca as coisas. Realmente nunca achei a alegria muito pedagógica. Nem nunca gostei muito de gente muito feliz. Achava-as medíocres. Como podiam parecer tão alegres em um mundo tão ruim? Será que só a minha vida era uma merda?
Minha alegrias momentâneas sempre foram os resultados da dor, seus produtos. Tentar ser artista quando ainda era jovem, escrever, ler, beber, ter relações confusas que acabavam em reencontros calorosos... Tudo muito. Tudo intenso. Não tinha medo não. Não tava nem vendo porque tudo valia a pena.

Sempre preferi a dor ao tédio. Sempre achei que podia ser mais forte do que ela porque a sensação de superação, deixava um ar de heroísmo. Era como se o tempo todo eu dissesse: Pode vir, mas vem com toda a força porque não é qualquer merdinha que me derruba. E não derrubava. Podia me jogar na lona por uns dias, mas dali a pouco, lá estava eu caçando confusão. Andando com gente errada. Brigando até as lágrimas. Provocando deuses e pessoas.

Mas acho que cansei. Não da tristeza, porque ela é minha e sempre vai ser. Nunca vou saber viver sem ela. Nunca vou ser alegre. Não seria eu, seria outra que faria outras coisas, de outra forma. Mas cansei de tentar ser maior do que ela. Depois de anos de árduas batalhas, perdi e não quero mais brincar. Quero que ela saiba que perdi e assim me deixe em paz, fique quieta, ali no cantinho dos que existem, mas nem sempre são lembrados.

Ontem ouvi uma voz da sapiência que me perguntou: Por que você se castiga?
E hoje li um texto de alguém que me faz muita falta que falava de medo. Medo da morte.
No fim, o medo explica muita coisa.
Sempre tive muito medo da morte em vida. Daquela morte lenta que se constrói todo dia. De ficar anestesiada, transparente no mundo, burocrata com a emoção.


Talvez a felicidade me passe essa idéia. De que estar feliz é estar morrendo para todo o resto. É acomodar-se e definhar no desejo satisfeito. Parar de buscar saídas, coisas novas, alegrias intensas momentâneas e que trazem a ressaca da dor que ensina.

Meu amor da pequena Londres... Como estou errada e cansada disso tudo. Como eu queria agora estar frágil, fraca e feliz no teu colo. Sem superar nada...

Queria só que nosso sal compartilhado, redimisse nossa tristeza e nos desse a mediocridade dos que riem feitos bobos para o mundo. Só isso. Besta assim.

23.11.07

Como a noite descesse...


Como a noite descesse e eu me sentisse só, só e desesperado diante dos horizontes que se fechavam
gritei alto, bem alto: ó doce e incorruptível Aurora! e vi logo
só as estrelas é que me entenderiam.

Era preciso esperar que o próprio passado desaparecesse,
ou então voltar à infância.
Onde, entretanto, quem me dissesse
ao coração trêmulo:
- É por aqui!

Onde, entretanto, quem me dissesse
ao espírito cego:
- Renasceste: liberta-te!

Se eu estava só, só e desesperado,
por que gritar tão alto?
Por que não dizer baixinho, como quem reza:
- Ó doce e incorruptível Aurora...

se só as estrelas é que me entenderiam?

Sobe
Emilio Moura

21.11.07

O Rio continua lindo...

Pois é... O Rio, além de lindo dá dessas... 500,00 paus e você sai limpo da delegacia, de onde você também ligou para pedir o resgate. Reprimir classe média (principalmente a alta) nos termos da lei não dá e não compensa: Se matar, o pai e mãe fazem passeata pela paz, pela redução da menoridade penal, a favor da pena de morte e o escambau.

Se levar para a delegacia, em meia hora tem um advogado, "dotô", que vai lá, humilha, faz um escarceu e solta o menino porque filho de pobre é viciado e ladrão, portanto tem que ir preso. Já filho de classe média e rica vai para a clínica de recuperação.

E nessa a galera, quer dizer, os puliça, resolvem aplicar sua própria punição que além de dar menos trabalho e dor de cabeça, ainda rende o complemento do orçamento. E desconfio que, em termos de "eficiência" pedagógica, até funcione melhor.
Cada um correndo como dá... Uns pagando pra não ter preocupação. Outros recebendo pelo mesmo motivo... E ainda ficando momentaneamente menos pobre ...
Até aqui nenhuma novidade... Mas é que escutar uma história assim, em primeira pessoa vivida e experimentada, num churrasco de amigos, sempre faz pensar de que lado que a gente tá mesmo no mundo... Goste ou não.
E quando ferver, não vai adiantar levantar bandeirinha de socialista não ....
O que é o que é??

Clara e salgada,
cabe em um olho e pesa uma tonelada,
tem sabor de mar,
pode ser discreta,
inquilina da dor,
morada predileta.,
na calada ela vem,
refém da vingança,
irmã do desespero,
rival da esperança,
pode ser causada por vermes e mundanas
ou pelo espinho da flor,
cruel que vc ama,
amante do drama,
vem pra minha cama,
por querer, sem me perguntar me fez sofrer,
e eu que me julguei forte,
e eu que me senti,
serei um fraco,
quando outras delas vir,
se o barato é louco e o processo é lento,
no momento,
deixa eu caminhar contra o vento,
do que adianta eu ser durão e o coração ser vulnerável,
o vento não, ele é suave, mas é frio e implacável,
(é quente) borrou a letra triste do poeta,
(só) correu no rosto pardo do profeta.
Verme sai da reta,
a lágrima de um homem vai cair,
esse é o seu B.O. pra eternidade,
diz que homem não chora,
ta bom, falou ou vai pra grupo irmão ai
Jesus chorou !

O post é repetido... como a minha vida.

19.11.07


O Silêncio

Na sombra cúmplice do quarto,
Ao contacto das minhas mãos lentas
A substância da tua carne
Era a mesma que a do silêncio.
Do silêncio musical, cheio
De sentido místico e grave,
Ferindo a alma de um enleio
Mortalmente agudo e suave.
Ah, tão suave e tão agudo!
Parecia que a morte vinha…
Era o silêncio que diz tudo
O que a intuição mal advinha.
É o silêncio da tua carne.
da tua carne de âmbar, nua,
Quase a espiritualizar-se
Na aspiração de mais ternura.


Dá-lhe grande amigo Bandeira...

Fiquei encanada com esse quadro (O Beijo- Gustav Klimt)... Aparece no filme "El passado". Bem bonito o quadro e o filme. O quadro inspira aquela vontade de viver tudo, loucamente. Mas o filme te deixa com a sensação de que o presente tem um custo: Ele se torna seu passado. E quando fizer parte do seu passado, não tem mais jeito porque, mesmo que só na memória, não nos livramos mais dele... Uma hora ou outra, o passado se faz presente.


15.11.07

Então é natal...


Pois é... chegou de novo. Adoro as renas e a neve que domina a região da Paulista... Dá assim um ar civilizado, meio primeiro mundo pra gente. Só povinho subdesenvolvido mesmo para passar o natal no calor, tomando cerveja e fazendo churrasco.
Além disso, legal é a quantidade de coisas inúteis que todo mundo compra no Natal... Aquela festa de 13º salários se apertando na 25 de março, pessoas disputando a tapa bonecas que fazem xixi ... E o companheiro agente inflitrado do socialismo de mercado chinês, Law King Chong enchendo as burras de grana.

Bacana também no natal, é um certo surto de bondade e solidariedade nas pessoas... A polícia Federal por exemplo fica muito solidária e louca para distribuir renda, principalmente a de chineses que garantem o abastecimento das pechinchas e alegrias do natal.
Os caras prendem o chinês, apreendem uma caralhada de coisas fundamentais para o espírito natalino como bolsas chanel falsificadas e carrinhos de controle remoto que sobem paredes. Aí eles já fazem o Natal da mulher e das crianças da casa deles.
E o que sobra, o Estado doa para ong's, de forma que elas possam organizar bazares, e as pessoas mais pobres possam comprar, comprar, comprar.... E serem felizes também. Assim, o capitalismo se transforma um pouquinho mais em para todos. No natal as promessas se realizam. O nascimento do menino jesus e as roupas novas, redimem qualquer merda de ano.

É por isso que eu adoooorrroooo o natal... é quando mais de verdade se vê que quando os ricos gastam mais, os pobres sofrem menos.
O medo é que enclausura as pessoas. É ele que faz todo mundo viver nisso aqui e achar que tudo bem. Ele delimita até onde podemos ir. Dos nossos termomêtros, ou faro, é um dos que mais costumam ser respeitados.
O medo me lembra também uma animalidade incrível. Gente com medo faz besteira, fica arisco que nem bicho acuado. Medo dá frio no estomâgo, dá vontade de chorar e sair correndo para que aquela tortura acabe. Ele é a tortura em si.
Medo pode ser promovido por um fator coletivo, mas ele só pode se realizar individualmente. Só eu tenho aquele medo específico, sentindo-o do meu modo e provocado pelas minha trajetória, minhas histórias e marcas. Muitas pessoas compartilham medos genericamente, tipo medo de barata. Mas só eu sei qual é o tamanho da minha barata. A minha existência condiciona meu medo.
Sempre temos algumas sensações de infância que voltam... A minha pior sensação dessa epóca da vida, é o medo.
Depois que o medo foi passando na exata proporção em que a idade foi aumentando, fiquei folgada. Sabe quando você acha que já passou o pior medo da sua vida e que se sobreviveu, então não há mais nada que possa realmente te assustar?

Pois é, mais uma que eu me enganei.

Tipo achar com 4 anos que com 10 anos você vai ser super grande.
Que com 20 anos você vai ser mais tranquila, quando se tem 14.
E que achar que sentimento cria imunização, tipo rubeóla, aos 25.

12.11.07

Contenção

Sempre fico meio triste quando acabo um romance... É besteira, mas durante um tempo, eles viram meus amigos, meus companheiros de vida e busão. Começo a viajar como tal figura se sairia em x situação. Aprecio alguns valores dos personagens e detesto outros, prometendo sempre não fazer igual. Enfim, por meio do mundo criado pela narrativa do romance, acabo por entender um pouco mais minha própria narrativa...

Hoje o Martin Eden me abandonou. Fazia exatamente um mês que divídiamos angústias. Tentei economizar as últimas páginas, reduzi o ritmo de leitura, me afastei durante uma fase de leituras obrigatórias, li um outro romance mais curto no meio... Mas não deu. Hoje fiquei ansiosa para saber como ele solucionaria a vida que ele se esforçou tanto, todo o livro para conseguir.

E foi uma tristeza só ...

Tudo o que ele queria não passavam de coisas vazias. O amor que ele achava que sentia, na verdade era a idealização criada sobre uma mulher "pálida e burguesa", egoísta e que o abandonou quando ele mais precisava. Quando a fama chegou, quando ele se tornou "rico, bonito, famoso e solteiro", a imbecil voltou, confirmando a menina idiota e mimada que sempre foi e a idéia de que a pessoa amada por ele, na verdade, nunca existiu.

Sempre admirei e respeitei bastante os suicidas. Principalmente os suicidas ditos "vitoriosos". Eles escolheram, não tem porque não ser um decisão digna como as outras...

No outro romance que intercalou as aventuras do rapaz em questão, existia o Miguel que ficou comigo só alguns dias... Ele era quase um suícida. Passou a vida sofrendo por achar que amava e se casou com uma mulher que sempre gostou de outro. Preparou a partida para uma segunda - feira, e só então se deu conta de que a data foi escolhida porque era depois do futebol de domingo... E então desistiu.

Miguel não era um suicida. Era só um infeliz incapaz de lidar com o amor. No fim, se descobre que sua mulher o amava muito. Ele é que só era capaz de acreditar no que lhe alimentasse o pessismo.

Mas o Martin Eden não buscava motivos para ser infeliz. Ao contrário. Lutava com todas as patinhas por coisas que acreditava que lhe fariam feliz. Era pobre, fudido e queria ser escritor e ganhar dinheiro só para poder casar com a imbecil que não foi capaz de nada para lhe retribuir todo o amor que ele lhe destinava. Dizia que o amava, mas não bancou o universo diferente e mal visto ao qual ele pertencia. E, não aceitar o universo do outro e pior, tentar mudá-lo, é gostar de alguém que não existe.
Enfim, o vazio foi maior do que o gosto nas coisas que possuía a sua volta: dinheiro, fama, mulherada pra todo o lado...

Mas esse mundo não é feito de Martin Edens e sim de Migueis.

E a pergunta que me ficou na cabeça: Até quando o futebol de domingo vai continuar segurando essa vida?

Respeito realmente os suicidas. Acho sinceramente bem fácil entender os que se vão... Interessante realmente é entender como, nesse mundo, tantos ficam ...

Qual é o futebol de domingo de cada um?

9.11.07

Viva a butecada!

Butecada que é butecada tem que ser no bar de algum Seu João ou seu Zé. Geralmente um tiozinho figura que faz parte do cenário do buteco, junto com as conservas de queijo no óleo, e os pacotinhos de torcida.

Dar uma butecada só com mulheres tem suas especificidades. Butecada feminina tem sempre o fator exótico que deixa tudo meio bizarrão. Uma mesa só de mulher nunca passa impune no buteco.
Butecada de mulher, principante depois da oitava garrafa quando todo mundo começa a falar alto, chama a atenção daqueles figuras que vão todo santo dia no Seu João, portanto nós, e não o buteco, somos a quebra da rotina. Daí os figuras querem pagar cerveja, recitam poema no meio da rua, vira uma festa...
A gente já tá falando alto de sexo, silicone, crianças, universidade pública e vai embora...
Butecada que é butecada termina com as mocinhas saindo, visivelmente embriagadas, empolgadas com a discussão sobre a privatização do mundo e soltando aquela fascistada etílica, xingando os estudantes da FFLCH de vagabundos, só pra finalizar a conversa.

Esbarra em um samba.

E faz a gente acordar de ressaca achando que era mesmo o melhor a se fazer naquele fim de tarde.
Tenho achado bonitinho tanta coisa que eu não achava...
Será que estou ficando mais velha?
Ou mais tolerante?
Ou mais bundona?
Ou tudo, no fim, quer dizer a mesma coisa?

7.11.07

Tchuva cai, o porco mete, dá uma tristeza na gente...

Sempre se leva pessoas pela vida... aquelas que apesar de distantes, sempre te trazem lembranças, coisas boas, vontade de ver.
A Dani Doms é uma delas. Esse era o nome artístico de uma das minas mais do caralho que eu conheci. Forte, bonita, sensível.
A Dani me protegia na escola quando eu arranjava encrenca. Vai lá pro ginasião pra ver se o bicho não pega...ainda mais pra mim que era, digamos, um pouco odiada. Depois melhorou, mas quando eu fui pra lá, a fofinha que vinha da escola particular de volta para o Estado... hum... problemas de classe mesmo.

Os fudidos X classe média limbo.

Jogaram minha carteira na privada do banheiro masculino imundo na primeira oportunidade. A vida é essa bosta assim. As coisas tomam esse rumo. Eu virei universitária. As moças viraram caixas de supermercado.
Mas quando a Dani veio para me fazer companhia fiquei folgada. Arranjava tretinha, pagava de muita louca, porque sabia que ela trincava comigo. Sempre. Nós duas.
Todo dia eu andava um dez minutos a mais só para passar na casa dela. Casa de fumantes onde tinha o café da tia Vilma e, na falta de recursos, um delicioso Continental roubado do digníssimo Vardão, ou como é mais conhecido, o Vardão da Sabesp.

A vida andou, eles ficaram mais juntos, eu tomei um rumo diferente.

E hoje, quando li o blog da companheira (http://insipidoeinodoro.blogspot.com/), me deu uma saudade grande de tudo. De quando a gente enchia a cara na pastelaria pra não morrer de tédio. Li essa frase do título e me veio toda a nostalgia do que é morar em Piedade. Da melancolia. Do não ter o que fazer. Do ser meio roça meio cidade.

Dani, bom saber que você está mais perto. E valeu por ainda lembrar dessa peróla do tempo que a gente se enxergava um no outro.

5.11.07

Nossa catchola, como você é ranzinza.... passou, passou... não faz drama vai, também não é assim...

Era isso o que eu queria escutar... esquizofrênica que sou, falo para mim mesma....
Vixê.... São 5 horas da manhã, de uma segunda -feira, e já estou sentada na frente do computador. Daqui há 3 horas horas entrego um trabalho e faço prova.

Sou absolutamente incapaz de fazer qualquer coisa útil e racional depois das 10 horas da noite... E mais incapaz ainda de recusar uma cervejinha com amigos depois de uma tarde infernal e 2 horas de discussão inútil sobre a historiografia da Guerra do Paraguai.

É isso. Agora bota na minha conta. Eu pago. Essa tem sido minha filosofia de vida já faz um tempinho. Estou fazendo merda? Foda-se, bota na minha conta. Se eu não aguentar, parcelo num super crediário estilo Casas Bahia... Demora, pago uns juros, mas tudo bem. Ninguém morre por essas. Talvez aprofunde o alcolismo, mas morrer não morre não.

Bom, no fim, não sei o que é mais imbecil: Eu, o ser sem disciplina. A Licenciatura que é inútil. A Guerra do Paraguai sem imperialismo britânico segundo revisionistas mal intencionados.

Enfim... leve raiva de tudo.

Mais ainda da cafeteira que passou dois dias ligada (porque eu esqueci), torrando o restinho de café do fundo, o que virou uma crosta que simplesmente a inutiliza.


Olá Mundo.... boa semana para você também...

2.11.07

Dia dos mortos...

Hoje é feriado de Finados. Feriados só me dizem respeito quando posso pensar sobre o que fazer deles. Hoje trabalhei. Portanto não foi feriado... Apenas os ônibus demoraram mais para passar.

Depois de me sentir um tanto quanto desgraçada pela manhã, fiquei lembrando da conversa levemente pesada que tive ontem com a minha mãe. É o primeiro dia de finados em que ela se preocupa em arrumar o túmulo da mãe... Uma mãe da qual ela nunca se separou. Quando casou, fez um puxadinho no quintal. Quando construiu uma casa, fez na extensão do terreno. E quando construiu uma maior e mais distante 10 minutos a pé, fez uma casa nos fundos e levou os pais que já estavam mais velhos e desfeitos do bar em que trabalharam durante anos.
Enfim, ela estava especialmente sofrida. Pegou a foto e as flores para decorar o lugar onde minha vozinha está enterrada, e passou o dia de ontem, mais provavelmente o dia de hoje sofrendo por ter que lidar com a materialidade da morte.

Mas então por quê?

Hoje é um dia para, por meio da lembrança e da ida ao cemitério, mantermos presente os que se foram. Como se eles fossem ficar infelizes caso não fossem lembrados. Ou mesmo, viessem puxar o pé de alguém...


Entendo o sofrimento e o ritual da dor. Depois que a gente vem para a universidade virar intectuário e alcólatra, o simples foda-se qualquer, religião, jesus cristo ou o caralho, não contemplam mais. A gente quer tocar foda-se, mas também quer entender.

E eu não tenho mais nem idade para falar isso para a minha mãe. Não tenho mais 15 anos e nem vontade de ficar fazendo outro tipo de pregação, no caso, convertê-la ao ateísmo.

Mas sem querer, num surto de indignação, acabei voltando a ser, para a minha mãe, a adolescente passa mal... acho que eu nunca deixei de ser na verdade.

Ela me falando e chorando... relatando como era difícil, que era foda e traus, que foi ruim ir pegar flores e lálálá...

- Mas então porque você faz? Se é tão sofrido, arruma as paradas em outra hora, tem que ser agora, só para todo mundo ver que você não é uma filha relapsa para com o túmulo da sua mãe, o que aliás é uma puta besteira porque você sabe que a vó não tá lá e nem nunca esteve... que o que foi para lá é só um corpinho que a essa altura já não diz muita coisa sobre a pessoa também... Desencana, vai para a praia, larga essas porra aí que estão te fazendo sofrer.

Eu poderia ter dito isso a um amigo. Não para a minha mãe.

Para a minha mãe, quando você não sofre, não chafurda, você não sente. Só existe amor no sofrimento. E o sofrimento por tabela vira termomêtro quantitativo do amor...

Por essa lógica, se eu me recuso a tortura do Dia de Finados, quer dizer que não amava minha vó. A vozinha cuja lembrança me água os olhos quando como um pastel murchinho parecido com os que ela deixava frito dentro do forno do fogão. Ela que me emociona cada vez que vou até a Vila Élvio e penso que ela era uma das mocinhas operárias começando a vida. A velhinha que me criou...

Mas na sociedade cristã tudo é sofrimento e dor. Não existe espaço para simpesmente sentir a ausência, sem que isso ganhe uma conotação negativa.

Não se pode amar a lembrança. Só sofrê-la.

29.10.07

O engano que é acerto.

Algumas pessoas me chamam de intolerante. Admito, tenho dois pesos e duas medidas: Sou extremamente dura com algumas pessoas e absolutamente maleável com outras. Mas não se trata obviamente de algo aleatório. Trata-se dos meus critérios. Do meu termomêtro do que dá para engolir, e do que só resta meter o pé... Mas também venho tentando, depois de algumas puxadas de orelha, a aprender enxergar um sentido além do que está óbvio nas impressões superficiais. O problema é que muitas vezes, quando estou quase caindo numas de tentar achar todo mundo legal a princípio, acontece alguma coisa que mostra que a gente também não se engana tanto assim...
E também os equívocos não são inocentes, talvez seja uma espécie de perseverança... sei lá.

O fato é quando me engano, quando sou intolerante e faço mal juízo de determinadas pessoas e situações e, do além, elas me mostram o contrário e que fui profundamente simplista e linear, enfim, mudar de uma idéia ruim para uma sensação boa, costuma me agradar muito.
Mostra que eu me enganei. Nesse caso, é muito gostoso estar errado. Errar a idéia sobre a expectativa individual, renova um pouco a crença no ser humano. Tenho a sensação de que estou aprendendo um pouco mais da existência louca e ramificada de cada um.

Ontem, depois de um ano e traus, meus livros do Focault reapareceram. Eles que eu achei que estavam perdidos por aí, não apenas criaram a expectativa da volta, como renderam uma linda discussão sobre o amor e as relações de poder e expectativa que o cercam. Ou seja, voltaram lidos e de uma forma muito melhor do que a minha. De uma forma bem mais prática. De muita água que rolou...

Eu, que me pensava esquecida por algum motivo, não estava não. Minha lembrança só estava em um cantinho. Eu e os livros não éramos um nada.

E num domingo a noite chatinho, foi bom ouvir um simples e sincero : Poxa, sonhei com você. Sei lá , mas queria te ligar, te ver.... Saber se você está bem, como está sua vida....

Tem vezes que é assim mesmo... ninguém está errado, ninguém foi filha-da-puta. É só mesmo assim que é a vida, a gente também não queria mas também está por aí magoando meio mundo.

Bom me enganar... Me faz bem perdoar um pouco mais o mundo.

25.10.07

Olha nossa grande educadora Xuxa, formadora de uma geração e que continua dando das suas... Agora ela gosta do MST? Será que ela virou comunista depois dos 40?
E o mundo cada vez mais estranho....


http://video.globo.com/Videos/Player/Entretenimento/0,,GIM738734-7822-VOCE+SABE+QUEM+SAO+OS+SEM+TERRA,00.html

22.10.07

Depois de uma noite mal dormida (no sentido literal) em que todos os seus monstros resolvem te visitar. Uma manhã com uma aula de Freud pra iniciantes em que fica todo mundo tentando fazer auto análise e se encaixar em categorias como neuróticos, psicóticos e paranóicos (talvez eu fique entre os últimos). E uma tarde com adolescentes te sugando...
Bom, o que resta para um dia desses senão pegar um dos livro de cabeceira, as obras completas do Bandeira (de novo!) e abrir aleatoriamente, no melhor estilo "Minuto de sabedoria".
Eis o que me cai.... Encantadora de gatos, lembrei de você....

Arte de Amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

21.10.07

O que significam coisas simples se justamente elas é que são as mais complicadas de serem atingidas?

Quando penso no que gosto de ter na vida, tudo parece tão elementar e óbvio, que não tê-las me dói como se me faltasse conhecer a lua...

Parece que quanto mais besta o desejo, mais difícil é chegar na plenitude.

Como as poesias do Manuel Bandeira. De tão simples, dão é uma bruta vontade de chorar...
Por mim e pelo mundo.



Assim eu quereria o meu último poema.

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais

Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas

Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume

A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos

A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

18.10.07

Hoje foi aniversário do meu pai. Liguei para falar parabéns mesmo sabendo que ele talvez não faça idéia de qual o dia exato do meu aniversário, e que, em decorrência do afastamento, eu também tenha esquecido o dia dele. Me lembraram e então eu liguei. Nos falamos por exatos 35 segundos. E foi o máximo que conseguimos conversar nos últimos meses....
Entretanto, esses 35 segundos me comoveram tanto, que me lembraram o quanto eu já gostei, gosto e admiro esse sujeito. Um cara bronco, um ogro que mal me conhece. Mas que, mesmo distanciado, opaco, me ensinou coisas como ombridade, dignidade e vergonha na cara.
Eu poderia muito bem odiar nossa história e dizer o quanto ele me faltou nas coisas básicas como carinho, compreensão, ou simplesmente, o quanto muitas vezes esqueceu o dia do meu aniversário.... Mesmo assim sou incapaz de tal acusação porque mesmo com todo o rancor, o amor existe para mim de forma tão clara que, para outros, isso só poderia ser explicado do ponto de vista daquele amor imbecil, incondicional, que somente a família é capaz de manter.
E não é isso.
Não é tão simples.

O ogro me inspira raiva, mas também um respeito e amor tão grande (respeito por carinho, e não pelo patriardo), que simplesmente não pode ser explicado.
Me comoveu perceber que ele se comoveu com a minha voz. Só isso me basta.
Eu também não sei quem ele é. Como sente determinadas coisas e o quanto o meu jeito de ser também o agride.
Mas não consigo simplificar e reificar a situação dizendo que ele é uma merda de sujeito e de pai.
Talvez chamá-lo de insensível o enquadrasse em uma categoria que me permitisse racionalizar todo o resto.... ( dá até pra justificar uns poblema por conta disso).

Só que ele não é só insensível, nem só quadrado, nem só ogro, nem só digno, nem só engraçado, nem só ausente, nem só nada....

Ele não é nada disso e é também tudo isso.

Ele é.

Nós somos.

E é isso que me parece tão díficil, na maioria das vezes, de entender.

As pessoas são bem mais e a gente não faz idéia do que é a existência do outro....

8.10.07

Angústia....

O que se faz, quando não se pode fazer nada?




7.10.07

Imagina o que a gente nem desconfia...

Influenciada por um companheiro parmerense sobre as possiveís consequências caso o Corinthiase caia para a segundona e de assistir de novo o já famigerado Tropa de Elite, fiquei imaginando uma conversa que poderia ter acontecido antes do jogo, no meio daquelas relações espúrias de que a gente tanto desconfia...

Secretário de segurança pública: - Puta merda, se o corinthians rebaixar vai ser foda. Imagina aquela massa de preto, pobre, maconheiro e ex presidiário, putos da vida tendo que passar a humilhação de ir para Sorocaba assistir Corinthians e São Bento? Fudeu Governador, vai dá merda! Pobre já tem pouco, não pode tirar esse restinho, essa merdinha de futebol no domingo e na quarta que os cara grita.

Governador: Tudo bem, tudo bem... vou ligar pro pessoal lá do Morumbi que eles ajeitam... Já praticamente ganharam o Campeonato mesmo, né? Que custa contribuir um pouquinho com a ordem decente das coisas?

28.9.07

O espírito caipira

Estava olhando umas letras de música caipira, daquelas que cresci ouvindo, mas que por me acompanharem sempre, nunca me importaram tanto. Na adolescência, eu sempre dizia que gostava, que achava bacana e traus... Na onda "os mocinho da Casa da Cultura", pegava bem gostar dessas coisas de raiz, povo ... cultura popular, manja?

E é claro que não gostava de verdade. Respeitava. Era legal gostar, racionalmente, sabia que aquilo era interessante. Mas o que me tocava mesmo, o que me fazia companhia no meu quarto de angústias de jovenzinha meio perdida, eram outras músicas, outras temáticas, outras crises que em absolutamente nada tinham a ver com épicos caipiras tristes, com amores perdidos, criancinhas mortas por um boi, pés de ipês junto a cela, e muitas saudades do interior, do sertão...

Ora, o meu amor não estava perdido (mas dava um trabalho...), as criancinhas me sensibilizavam abstratamente ( como índices de fome no mundo), nunca tinha sido presa, e tudo o que mais queria era sair daquele sertão....

Mas quando, ao chegar do interior, inocente, pura e besta, me vi perdida mesmo, em uma cidade maluca, como pessoas estupidamente blasés que pareciam não se importar com aquele absurdo todo, um sistema de transportes confuso, e mais o anonimato que eu tanto queria com muita, muita solidão.... Ai sim, me peguei chorandinho, sofrendo, ouvindo num buteco da Santa Cecília (de Piedade para o Minhocão, tranquilo...), uma música bem manjada, mas que ainda me emudece, me mareja os olhos...

"De que me adianta, viver na cidade, se a felicidade não me acompanhar, adeus paulistinha do meu coração, lá pro meu sertão eu quero voltar..."

(hehehe... foda, mas juro que chorei com isso, com uma música que ouvi trilhões de vezes...)

Foi aí que entendi porque a viola caipira, na maior parte das músicas, fala do que perdeu... Da vidinha tradicional, do amor que foi embora, do respeito e valores que mudaram. Enfim, dessas modernidade que o capitalismo trouxe...
E senti de verdade o que eles estavam dizendo. Eu estrangeira, forasteira, desenraizada.
Numa cidade cuja maior qualidade e o pior defeito é justamente o não se importar com os outros.

Ai meu sertão...

Sofria por falta de uma identidade. Mas também não queria ir na Vila Madalena comprar uma nova.

- A senhorita deseja ser do pessoal do samba, das rodas de capoeira ou prefere algo mais adaptado a cidade, mais modernozo? Nesse caso, sugiro que vá a Augusta....

Mas só ali percebi que a que eu tinha, só agora, longe dela, é que me doia. Doia porque não cabia nesse mundo em que agora eu estava. E que eu teria que inventar um jeito de não me perder, de não virar nada...

Eu que estava, naquela hora, detestando tudo isso aqui. Mas que também, não queria como a música dizia, voltar para o meu sertão.

Nessa vaguei um bom tempo pela capitar... pelo monstro que me atraia muito, mas que me comia um pouco mais cada vez que eu me aproximava...

E assim por um bom tempo, eu chegava na segunda, sofria até quinta aqui. Voltava para Piedade, e sofria até segunda lá...


26.9.07




Momento utilidade pública ...

25.9.07

Na praça da república, ainda cedo, muita gente já caminha....
Muita gente com roupa de quem vai a uma festa e expressões de quem vai a um velório.
Literalmente abaixo deles, esparramados ou encolhidos sob o chão, o horror do ser humano degradado, sujo. Muitas outras gentes para quem não existe lugar no mundo.

Na democracia liberal, o controle e a manutenção da escrota ordem da coisas, não vem só de cima.
Vem de baixo, dos que sobraram.
São eles que ajudam a garantir um mundo de gente infeliz e obediente. Morrendo de medo de ser o entulho de gente, o tropeço, o obstáculo na praça.


Gente triste que come com medo de ser aquela gente triste que não come.

Mano Brow no roda viva

Finalizando, depois de soltar algumas numa entrevista cheia de dedos. Falando de igualdade de oportunidades para competição ao mesmo tempo em que defendia a sua gente lembrando o óbvio, ou seja, que eles também são gente....

Paulo Markun, o imbecil: Na minha época, a onda era ser paz e amor. Você se considera paz e amor?

Mano Brow, o Jacobino : Não. Eu quero paz e amor, mas vida não é assim não.

24.9.07

Bem vinda menina Alice!

A Alice nasceu... e é linda!
Hoje, do alto da minha destreza e utilizando todo meu instinto maternal inerente e natural à toda mulher (pode parar de rir agora...), eu peguei a pequenina no colo... tudo bem que no começo foi sentada, meio como se coloca bebês no colo de crianças... mas tudo bem... tô pegando o jeitão.
Mais alguém que vem para descobrir os horrores e as delícias de ser mulher nesse mundo....

Olha que coisa mais fofinha...

http://www.youtube.com/watch?v=Osh1i8Z6-Dw



21.9.07

Hoje sonhei com você. Sei que é piegas começar qualquer frase assim... Parece música do João Bosco na fase sem a Elis Regina. Mas é assim que por vezes acontece. Durmo pensando em qualquer coisa e então você aparece, sem ser convidado, bagunça meu sono, e me deixa sem querer acordar.

Então, quando a manhã vem, os olhos se abrem e a primeira reação é olhar para o lado da cama.
Sei que você não está lá. Mas quase que num reflexo fantasiado, olho.

Não, você não está lá com aquele barulhão de quem não respira pelo nariz.
Mas o seu cheiro domina os meus sentidos. A memória que mareja os olhos.

Levanto, bebo o meu café que eu mesmo faço. Sempre.
E então começo a retomar a aventura noturna. A lembrar. Meio olho chora, meia boca sorri.
O café esfria e ninguém me pergunta nada. Não tem ninguém por perto. Estou mais sozinha do que quando dormia.

Quando a vida a ser levada me arranca violentamente dos meu próprios pensamentos, me despeço dos meus devaneios.
Há muitos anos te namoro assim, nos meus sonhos.

E continuo tudo, como todo dia, como máquina que cumpre sua função. Vazia


20.9.07

Os olhos dos pobres

Quer saber por que a odeio hoje? Sem dúvida lhe será menos fácil compreendê-lo do que a mim explicá-lo; pois acho que você é o mais belo exemplo da impermeabilidade feminina que se possa encontrar.

Tínhamos passado juntos um longo dia, que a mim me pareceu curto. Tínhamos nos prometido que todos os nossos pensamentos seriam comuns, que nossas almas, daqui por diante, seriam uma só; sonho que nada tem de original, no fim das contas, salvo o fato de que, se os homens o sonharam, nenhum o realizou.

De noite, um pouco cansada, você quis se sentar num café novo na esquina de um bulevar novo, todo sujo ainda de entulho e já mostrando gloriosamente seus esplendores inacabados. O café resplandecia. O próprio gás disseminava ali todo o ardor de uma estréia e iluminava com todas as suas forças as paredes ofuscantes de brancura, as superfícies faiscantes dos espelhos, os ouros das madeiras e cornijas, os pajens de caras rechonchudas puxados por coleiras de cães, as damas rindo para o falcão em suas mãos, as ninfas e deusas portando frutos na cabeça, os patês e a caça, as Hebes e os Ganimedes estendendo a pequena ânfora de bavarezas, o obelisco bicolor dos sorvetes matizados; toda a história e toda a mitologia a serviço da comilança.

Plantado diante de nós, na calçada, um bravo homem dos seus quarenta anos, de rosto cansado, barba grisalha, trazia pela mão um menino e no outro braço um pequeno ser ainda muito frágil para andar. Ele desempenhava o ofício de empregada e levava as crianças para tomarem o ar da tarde. Todos em farrapos. Estes três rostos eram extraordinariamente sérios e os seis olhos contemplavam fixamente o novo café com idêntica admiração, mas diversamente nuançada pela idade.

Os olhos do pai diziam: "Como é bonito! Como é bonito! Parece que todo o ouro do pobre mundo veio parar nessas paredes." Os olhos do menino: "Como é bonito, como é bonito, mas é uma casa onde só entra gente que não é como nós." Quanto aos olhos do menor, estavam fascinados demais para exprimir outra coisa que não uma alegria estúpida e profunda.

Dizem os cancionistas que o prazer torna a alma boa e amolece o coração. Não somente essa família de olhos me enternecia, mas ainda me sentia um tanto envergonhado de nossas garrafas e copos, maiores que nossa sede. Voltei os olhos para os seus, querido amor, para ler neles meu pensamento; mergulhava em seus olhos tão belos e tão estranhamente doces, nos seus olhos verdes habitados pelo Capricho e inspirados pela Lua, quando você me disse: "Essa gente é insuportável, com seus olhos abertos como portas de cocheira! Não poderia pedir ao maître para os tirar daqui?"

Como é difícil nos entendermos, querido anjo, e o quanto o pensamento é incomunicável, mesmo entre pessoas que se amam!

Baudelaire


E é então que percebo minhas próprias barreiras para amar o diferente...

17.9.07

Bombom de formatura

Hoje me lembrei, tentando comprar uma roupa para um casamento, de quando eu tinha vergonha e muita raiva de ser mulher.
Dos peitos que apareciam
e não cabiam

da vontade de sumir quando alguém me olhava

do ódio profundo do mundo e de mim quando me vi vestido como um bombom numa festa de formatura

e de como na festa, fiquei bêbada de vergonha, não de alegria

e de que a formatura era a minha!

e que chorei em muitos provadores de lojas

até comprar qualquer coisa para aquela tortura acabar.

Assim virei um bombom preto, de cabelo esticado e cara pintada.

Tudo para tentar ser igual porque não aguentava mais me sentir diferente
para passar desabercebida, para ser mais uma

Antes ridícula do que o destaque da escola de samba

Hoje quando vesti coisas feias, que todo mundo diz ser bonito, tive a mesma sensação de ridiculeza.
de feiura
de violência
de opressão estética
de canseira de um mundo tosco que te mede por esses valores...

e decidi que uma calça e uma blusa bonita e discreta são uma saída sóbrea no meio daquela aberração estética e fugaz, coloridez cafona, e decotes que não cabem nem um dos meus seios.

E sapato sem salto, claro.

E dessa vez, encher a cara com velhos amigos, contente, sendo só eu.

16.9.07

Gosto e não gosto...

Tem algumas coisas que a gente ama e odeia. Assim, ao mesmo tempo mesmo. Eu (como, penso eu, todo mundo)tenho algumas coisas assim na minha vida: Por exemplo São Paulo. Ela tanto me fascina quanto me irrita. Coisa de caipira talvez...

Outras:

O individualismo da metrópole: É tão desesperador quanto protetor. Como é bom não precisar falar sempre com todo mundo a nossa volta... E por vezes como é triste não
poder conversar com todo mundo a nossa volta.

Experiência de morar sozinha: Nossa que legal, tudo está exatamente como eu deixei!
Ou: Que bosta, tudo está exatamente como eu deixei!

Solidão: Tem dias que dá uma tristeza imaginar que, se eu sumir, apenas se darão conta disso depois de alguns dias. E provavelmente vai ser do trabalho... Agora, como é bom poder sumir por alguns quantos dias eu quiser...menos no trampo, claro!

Bom... tem uma lista... Agora, de todas, provavelmente a menstruação é o fenômeno mais contraditório que existe. É uma bosta, mas é bom pra caramba. É horrível passar dias dolorida e sangrando... mas é muito pior passar muitos outros dias inchada, triste, mal humorada, acima do peso e agoniada. Quando ela vem, traz desconforto. Quando não vem, dá uma agonia da porra! Só de pensar em ficar 9 meses sem ela, já me dá arrepios...

Então, ruim com ela, muito pior sem... E viva os ciclos! Nós mulheres não funcionamos de forma linear, somos biologicamente cíclicas e todo o mês ele se renova.

A vantagem é que, pelo menos a gente tem certeza absoluta de que uma hora, vai passar...
Mas também só por um tempo...

Os personagens eternos também morrem...


Poxa, eu sei que não é para tanto.... Mas fiquei realmente triste. Pedro de Lara foi uma figura importante da minha vida. Eu cresci como boa parte dos brasileiros educados pela Xuxa e pela moral do Silvio Santos, acompanhando essas porcarias todo domingo...
E eu só fiquei sabendo hoje...
Tá aí, vale o post... com foto e tudo... só pela palhaçada da mediocridade dominical.

Ainda que tardia....

A palavra liberdade, a idéia de liberdade, a busca por liberdade, ou mais, o que é afinal liberdade? No nosso mundo, esse que a gente já pegou meio novo, meio pronto e meio acabado, num ritmo tudo ao mesmo tempo agora. E que evoca o tempo todo em propagandas, em modelos de vida, em questões filosóficas, enfim, em grande parte da nossa vida nos deparamos com milhões de idéias sobre o que se concebe como liberdade.
Enfim, o apelo pode ser desde desejos muito bonitos até propagandas escrotas que colocam liberdade como um subproduto consequente do consumo. O indíviduo livre é aquele que consome.Ponto.

Muito bem, e nisso, a liberdade sugere uma opressão fudida para aqueles que não se encaixam por algum motivo.

Mas e no amor? Por que muito da liberdade hoje propagada, e que se afirma no indivíduo, simplesmente desaparece quando se trata de relacionamentos, a não ser aqueles ditos superficiais e que também se colocam como parte do consumo?

Por que "em nome do amor", convertido em relacionamento "sério", tirânica e sadicamente, pessoas se dão ao trabalho de limitar a liberdade de outra pessoa, que não é ela? Liberdade e relacionamentos são palavras opostas (já dizia o pagode... "o que é que eu fazer com essa tal liberdade, se estou na solidão pensando em você?" hehehe) Não acho obviamente que o amor não seja sincero, nem que as intenções sejam ruins. Mas parece que se quer conhecer o outro tão profundamente que passa ser impossível cogitar que ele faça, ou mesmo pense, coisas não reveladas, no limite, que ele tenha "pedaços" de vida do qual o parceiro não faz parte.
Aí me ocorre a pergunta: E quando é que nessa vida podemos conhecer alguém por inteiro?
Ou melhor, quando podemos deixar de ser indivíduos, para nos tornarmos um casal, como se existisse um fenômeno psíquico e biológico que permitisse tal união plena? Como assim, agora dois são um? Ahn?

Só pensando... falar de fora é sempre fácil. Pensar sobre relacionamentos sem se estar vivendo plenamente um, são apenas confabulações sem aplicação prática...

Mas daí caiu um livrinho de muito tempo atrás na minha mão. Sobre o amor. Quando minha cabeça está assim, normalmente quem socorre e ilumina algumas idéias é a poesia. Mas não hoje... Hoje a poesia não dá conta. A cabeça está fritando demais...

"Há um meio, um desesperado meio, de conhecer o segredo: é o do completo poder sobre a outra pessoa; poder que a obrigue a fazer o que quisermos, pensar o que quisermos, que a transforme numa coisa, nossa coisa, posse são nossa." p. 42

Credo.... horror... assim eu também não quero...

Mas, adiante:

"O outro caminho de conhecer o "segredo" é amar. O amor é a penetração ativa na outra pessoa, em que meu desejo de conhecer é distilado pela união. No ato da fusão, eu te conheço, eu me conheço,conheço a todos - e nada "conheço".

(...)O amor é o único meio de conhecimento que, no ato da união, responde a minha pergunta. No ato de amar, de dar-me, no ato de penetrar a outra pessoa, encontro-me, descubro-me, descubro-nos a ambos, descubro o homem", p.44

Erich Fromm - A arte de amar.


Pois é... talvez essa conversa não deveria ter começado por liberdade. Começar por respeito me parece um caminho mais concreto para a partir daí poder pensar o que é liberdade. Respeito aos sentimentos, à auteridade, ao ser humano, aos desejos... enfim, respeito para com tantas coisas que estão em baixa.

12.9.07

Uma pausa maestro



Às vezes o corpo está satisfeito e o coração vazio...
Às vezes o coração está cheio e a cabeça confusa...
Às vezes eles não se entendem de jeito nenhum
Às vezes, chega a hora de fechar para balanço...

E pensar direito sobre o que se anda fazendo com o corpo, a cabeça e o coração.

10.9.07

Essa eu copiei.... mas é tão bonito...

Para amar alguém esse alguém deve ter a medida certa. Um pouco menos é insuficiente, um pouco mais põe tudo a perder. Isso acontece porque amar é uma arte do mesmo tipo que comer: um prato que não está no ponto de acalmar o apetite mas não satisfaz o paladar. Tem gente que come para encher o bucho e estes podem viver sem amor mas não se companhia. Outros morreriam de fome antes de aceitar uma coisa mal preparada. Estes últimos serão eternos solitários a menos que encontrem a medida certa. Quando se pensa no amor as idéias não têm consistência e talvez por isso os grandes filósofos evitaram o tema, mas embora seja indigesto é óbvio que nossa pequena vida gira em torno de alguém que nos transformou em idiotas felizes ou sábios ressentidos.

(Efraim Medina Reyes em Era uma vez o amor mas tive que matá-lo)

4.9.07

Tem coisas que não dá pra saber, outras só não vê quem não quer

Tem dias que as coisas boas vem de onde a gente menos espera... daquela balada sem graça sai uma noite mal dormida (essenciais para manter aquele sorrizinho besta...),daquela pessoa que nem falava com você sai uma amiga ou amante, daquela comida esquisita sai um novo gosto na vida. Enfim, é por causa da esperança de encontar coisas que nos dispomos a continuar vivendo mesmo diante de tudo o que nos indigna, diante da vontade de, às vezes, mandar tudo para o inferno mesmo!
Só que as coisas boas nos surpreendem na maioria das vezes. É quase um tapa na cara, vem sei lá de onde e não adianta tentar encontrar muita razão. Acontece, pronto, agora vive... e aproveita.

Em compensação as ruins, com um pouquinho de desconfiomêtro e leiturinhas de mundo, dá para pelo menos ficar esperto. Não se trata de esteriótipos, nem de julgar sem conhecer, mas as pessoas se contam nas pequenas coisas e atitudes diante do mundo e dos outros.

Um amigo biólogo me dizia o seguinte:

Percebemos facilmente o grau de filha da putagem de um ser humano, percebendo como sua capacidade de se preocupar com os grandes problemas do mundo (fome, tédio, vazio, guerras, injustiças, desesperança...)é inversamente proporcional a de se preocupar com os pequenos problemas da vida alheia (homossexualismo, drogas, putarias, e animaizinhos de estimação do vizinho). Ou seja, quanto mais ele se importa com o mínimo que não lhe diz respeito, menos ele se importa com o que realmente importa (importante é o que importa, já diria o filósofo Barba).

Muito bem, diante disso, velhinhas fascistas tropeçam em crianças zoadas na sua calçada, mas se incomodam mesmo é com dois homens se beijando na boca (bem na sua frente? Ora, que pouca vergonha). Se incomodam mais em saber com quem você dormiu, do que em saber se está feliz ou não.

Não se incomodam com a sujeira de São Paulo, a poluição, o barulho, a secura do ar... e vão na sua porta dizer que vão envenenar seu gatinho porque ele fez cocô na sua garagem.


Morram fascistas!

Que se vayam todos!

E que fique registrado... briga comprada. Se alguém encostar nos meus gatinhos, vão descobrir a delícia de acordar com um carro pichado e riscado com prego.

Já que é só com isso que essa gente se importa. Já que é só essa linguagem que esses putos entendem...

28.8.07

Essa eu ouvi hoje dos meus queridos lá do Henfil... em tom de galhofa, claro...

- É, aqui no Henfil, quando a gente conhece os professores de humanas, você pensa: Olha, que legal, professores jovens e que não são chatos.

Aí um dia, você sai mandar um com as figuras e pensa: Nossa, que legal, fumar um com o (a) professor (a)doidona ... que dá hora!

Daí na segunda vez você fala: Nossa, que legal, essa galera é doidona mesmo.

Daí na terceira você já fica só no "legal"....

Depois de um tempo você já dá uma intimada: Que palhaçada é essa? Quando se vai apresentar um, hein?

Hehehe...fiquei imaginando eles na porta do cursinho...

- E ai, vamo aí?
-Vamo... mas vamo na míuda porque senão o professor cola, ele é cabeçudo, daí é foda, já estamos em cinco cabeças e tal...

23.8.07

E lá vamos nós....


"Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.


Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante,
vai ser diferente. "


Carlos Drummond de Andrade

Eita porra !!!



Uma verdade dita

Uma verdade ouvida

O coração de novo doído

a pontada que parece mesmo uma faca

a rê bordosa

O alívio....

Doer, dói

mas que liberta, liberta!

21.8.07

O povo quer saber...

Muito bem... esses dias atrás, alguém, numa mesa de bar, com aquele ar de "eu tenho informações quentes", e em meio as notícias chavistas de que o camarada está para aprovar a reeleição eterna, me solta a pérola:

-Tem gente lá em Brasília articulando o terceiro mandato do Lula...


Até sonhei com isso...fiquei pensando o que poderia acontecer. No outro dia, me aparece aquele horror que foi a tal da passeata dondocas-fazendo-beicinho auto proclamada "Cansei".

Talvez seja por aí...
Talvez seja pior...

E ai, amigos queridos... vocês, os seis fiéis leitores desse blog poderiam me ajudar a fazer uma previsão política à la João Bidu....

O que vocês acham que vai acontecer nesse país se o camarada Lula ousar tentar tal façanha anti-democrática (tudo bem, pode parar de rir agora...)?
Será o tal do centralismo democrático? hehehe

19.8.07

Só pensando...

É impressionante como somos "enformados" na universidade de um jeito que passamos a só considerar determinadas coisas e desprezar todo o resto. No auge da imaturidade e do deslumbre com o conhecimento, achamos que encontramos algum tipo de verdade lógica na vida. E dá-lhe vomitar Marx... ele e todos os materialistas históricos que nos sobra tempo para ler entre uma cerveja e outra que rega as acalouradas discussões em torno do tal do povo brasileiro, o agente histórico da revolução....

Primeira questão:

Quem é o tal do povo brasileiro?

É o operário? Não, esse ai, quando tem um registro em carteira e um plano de saúde treme na base... já tem o que perder, lembrando o fim do manifesto comunista...

É o camelô? Não, esse não tem consciência revolucionária. Pode eventualmente se organizar (uma falsa consciência, como diria Luckás), mas seus interesses são por demais individualizados...precisam ainda de muita auto-crítica revolucionária para abandonar esses vestígios de ideologia pequena burguesa.

O estudante?
Háhahahahahaha.... por favor, não me venha com churumelas.... a estudantada ainda tá gritando abaixo a repressão. Isso com um mandato de reintegração de posse da reitoria já expedido e não cumprido. Bater em moleque criado a leite A e sucrilhos é foda. Sem contar que ali todo o mundo é alternativo. Como o nome já diz, ele tem alternativa...se der errado eu volto para o chuveiro quente e para a canja que só minha mãe sabe fazer...

É a Angela, a moça que está ajudando na faxina lá em casa, já que estamos às vésperas de receber mais um pequerrucho nesse mundo doido? Não, acho que ela tá mais preocupada em trocar o celular por um que tira fotos, canta, dança e sapateia. E ainda te diz que você está bonita naqueles dias de carência...

Enfim, ando bem cansada dessas discussões chatas. Cansada de falar. Cansada de ouvir pessoas citando Marx, como os padres citam a Bíblia. Marx, capitulo 3, versículo 2... E disse Marx: Deixai vir a mim os operários porque deles é o Estado!

Enfim... para mim deu.

Ando gostando é de pensar as pessoas a partir de sua subjetividade, seus sonhos, tudo aquilo que a academia despreza porque supostamente não tem objetividade científica. E então me pergunto... Toda essa ladainha surreal, desses jogos partidários de merda, dessa molecada que acha que o materialismo histórico é o elo perdido entre a astrologia e a arte de jogar búzios...O que tem de efetivamente objetivo nisso tudo? Já tá tudo lá, o futuro, o presente e o passado... a gente só precisa aprender a ler nas entrelinhas... Marx e seus amiguinhos do século XIX já previram tudo... a gente é que é burro e não entendeu.

Não quero com isso dizer que nego radicalmente tudo isso. Nem de longe. O que não consigo conceber é como a gente não se liga que muita coisa mudou, que essas diretrizes revolucionárias não servem mais para explicar um tempo em que a velocidade de transformação é bizarra. As tais forças produtivas se desenvolveram de forma bizarra. A tecnologia configura o mundo à sua imagem e semelhança, de forma rápida e rasteira. Fenômenos acontecem e acabam em poucos anos....

A lógica do capital continua sendo sua reprodução. Agora como isso acontece, e o quanto essa lógica já está naturalizada é que é questão. O consumo (seja o de luxo, ou a cópia piorada que os pobres consomem) unificou a todos. As classes se separam, mas o nike fajuto do moleque da favela é esteticamente o mesmo que o original do moleque dos jardins. O catador de papelão que tá entre os carrões no meio da paulista, para todo o trânsito para atender um super celular. A novela diz o mesmo discurso para todos...

Enfim... amargurinhas acadêmicas à parte, o que estou tentando é ler o mundo com outros olhos que não sejam tão condicionados. Tentando ser menos ranzinza, enxergar a realidade a partir da poesia de cada ser humano, e não simplesmente classifica-los em categorias.
Afinal, acho que quem quer humanizar o mundo, tem que começar humanizando o cara que está do seu lado no busão....

14.8.07

E dizem que isso é a comunicação

As novas formas que surgem dia a dia para a manutenção do moedor de carne movido a consumo, cada dia mais eficientes e precisas, ainda conseguem me assustar. Não pela sua maneira de ser em si. A doideira já é tanta que elas somente se somam.. Quem pensava que existiriam muitas pessoas que passariam boa parte de sua vida presente com um telefone, daqueles que até pouco tempo atrás eram exclusividade da Madona? E pior, atendendo outras muitas pessoas que estão pouco a pouco aprendendo a também fazer tudo pelo telefone e pelo computador, de forma que o contato humano, se houver algum, seja necessariamente mediado por uma máquina. Uhuulll.... chegou galera, é o futuro...
Bom, além de colaborar para a consolidação de uma classe média gorda, enclausurada no seu apezinho financiado pela caixa e escrota, o fabuloso mundo do telemarketing, emprega mocinhas e mocinhos sem experiência no mercado, afinal operar uma daquelas máquinas e decorar sete falas exige uma super qualificação. Daí a função social da empresa que gentilmente oferece uma primeira oportunidade e a chance de que esses jovens aprendam uma profissão, como se fosse um estágio. Isso justifica que sua remuneração seja em torno de 400,00 para uma jornada de seis horas diárias, seis dias por semana. É quase um investimento no futuro.
Agora pense só o universo que se cria entre todas essas pessoas que se encontram todo dia e se sentam lado a lado para persuasivamente dizer:
-A senhora acabou de ganhar um cartão de crédito adicional para qualquer pessoa de sua família!!!
- Eu não tenho família. Inclusive vou cancelar o cartão porque ele só era usado para comprar remédios para o meu pai que faleceu esta manhã.
- Muito bem, nesse caso a senhora pode dar de presente para um amigo.
-Eu não tenho amigos.
-Namorado!
- Então me arranja um namorado.

E desata a chorar dizendo que vai se matar. Imagine a cara da mocinha do outro lado lembrando que no curso haviam lhe dito para ser insistente, que a maioria das vendas antes de se realizarem, haviam passado por negativas do cliente. Mas ninguém tinha lhe ensinado a lidar com suicidas....

Ou então pense um sábado de manhã. Sem ressaca, mas devidamente compensada por uma gripe. Não tenho telefone fixo na minha casa, mas não estava lá. Por ocasião da vida, esses dias atrás me lembrei de umas das coisas que eu mais detesto em telefone fixo: aquelas pessoas chatas que ligam e desligam na sua cara sabe deus por que... Para celular é caro, agora no fixo não pega nada ficar te atormentando.... e dá para ligar de orelhão, já que o intuito não é comunicar, mas sim te fazer espumar...
Bom, eu, não na minha casa, ainda meio dormindo e com o telefone tocando. Atendo. Escuta meio segundo a voz e desliga na minha cara. Faz isso por mais 5 vezes seguidas.
Eu já espumando, toca de novo. Atendo de novo, mas dessa vez quero sangue....
- Escuta, vai se foder, para de ligar aqui. Se você quer falar com alguém fala logo ou então...
- Bom dia senhora, aqui é Luciana da Net Virtua...
-Ai, desculpa moça, é que estavam ligando aqui e...
-A senhora entrou em contato com nosso serviço de atendimento e...
-Eu? Eu não.... mas eu não moro aqui também... peraí vou passar o telefone.
-Net Virtua agradece senhora.

Nossa, ela nem alterou o tom de voz com a confusão que eu fiz. Fiquei pensando com quantas malucas como eu, que atendem o telefone daquela forma, esses trabalhadores se deparam por dia. Eles se relacionam com máquinas e como máquinas se portam. Não sabem o contexto do que está acontecendo do outro lado da linha, mas nem se surpreendem. Nem quando recebem um foda-se já de cara.
E aposto que eu não fui nem comentada no horário de lanche, porque alguma outra moça deve ter recebido uma ligação de um passa mal que queria aumentar os canais pornôs de sua assinatura, e parecia se masturbar enquanto falava, perguntando como eram os programas que ele estava comprando e....
Parece bizarro?
Bizarro é o mundo. Isso aí é só uma suposta ilustração.

8.8.07

A mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo

Sequindo os conselhos da companheira Raquel...
Quando a vida gira mais rápido do que nossa cabeça acompanha, o melhor é parar, respirar, tomar uma cerveja, e tentar ver claramente tudo o que está acontecendo.
Perguntar algumas vezes para nós mesmas:

-Mas que porra é essa agora?

Depois de constatado que é apenas sua vida, tentar não dar tanta importância assim...
Depois repetir algumas vezes o mantra:

- Ainda vou rir disso, ainda vou rir disso, ainda vou rir disso....

E ainda, se for o caso, consulte uma seleção musical apropriada para ajudar a pensar...

Vai lá Tom Zé...só sua confusão me redime.


HAPPY END

(TOM ZÉ - ANTONIO PÁDUA)

Você fala que sim,
que me compreende;
você fala que não,
que não me entrega
que não me vende
que não me deixa
que não me larga.

Mas você deixa tudo
deixou
você deixa mágoa
deixou
você deixa frio
deixou
e me deixa na rua
deixou.

Você jura, jura,
jurou,
você me despreza
prezou,
você vira a esquina
esquinou
e me deixa à toa
tô, tô, to.

Você passa mal
toma Sonrisal
se engana, mas vai em frente
pra mim não tem jeito
não tem beijo final
e não vai ter happy end
e não vai ter happy end
e não vai ter happy.

1.8.07

E se ?

Quando eu era criança, lembro que minha mais frequente viagem era me pensar sendo outra pessoa... qualquer outra. Pirava muito com isso. E se eu fosse ela, como eu pensaria, como eu veria o mundo, se seria mais feliz tendo outra vida que não a minha. Como seria ser aquela menina bonita, que o pai era um funcionário da CESP, chegava do trabalho e brincava com ela, morava em uma casa pequena, tinha vestidos bonitos que a mãe dela fazia? Ou ser uma prima que morava em um sítio e cuidava dos cavalos todo dia... Ou ser menino, isso sim parecia encantador, mais livre e com a quadra para eles na educação física. Nunca gostei de jogar vôlei na grama... Nunca gostei de vôlei na verdade...

Depois de grande, do alto dos 10 ou 11 anos, a piração virou outra. Gostava de inventar outra história para a minha vida. Já que eu nunca saberia o que é ser outra pessoa, sentir e viver como um outro, resolvi sentir diferente sendo eu mesma. Passava horas tentando pensar como eu poderia ser se minha história fosse outra. Quais seriam meus sonhos durante a madrugada. Meus medos. Minhas reações... Batia a cabeça tentando esquecer tudo e começar de novo. Outra história, outra vida.

Claro que nunca consegui. Nem se eu esquecesse do antes, do já passado, ainda existiria sempre o presente, o cotidiano, a vida a ser levada para lembrar. As amarras não se desfaziam, parecia que eu nunca ia me livrar de nada. As noites seriam sempre ruins, os pesadelos sempre os mesmos.

Então um dia eu me apaixonei por História. Comecei a achar fabuloso que as coisas tivessem acontecido de um jeito e agora acontecessem de outro. Lembro até da matéria manjada: Ditadura militar. Meu professor doidão contava da luta contra o governo, de como eles não se conformavam com a situação.E dizia que agora eramos uma democracia na qual o povo votava e tudo, mas que antigamente as pessoas viviam com medo de tudo, não pensavam que um dia ia ser diferente. E assim a história passou a me consolar.

Se eu não podia mudar como tudo tinha sido até então, decidi que iria mudar dali para frente.

Cresci e sai de Piedade. Como eu sempre quis. Achei que assim deixaria para trás coisas ruins, que eu não queria mais lembrar. Seria uma chance de tentar começar de novo. Outra vida, outras pessoas, ninguém me conhecia, eu não era a filha de fulano de tal. Eu não era ninguém! Pela primeira vez achei que tinha conseguido não ser ninguém.

Mais um engano.

Não podemos prescindir de nossa memória sem deixar de ser o que somos. Nossa história é a forma como o passado invade o nosso presente por meio da lembrança, e que nos constitui como ser. Ele nos formou. Nunca poderiamos tirar um pedaço de nossa vida, sem nos tornarmos outra pessoa.

Ou seja, por mais que eu fuja, os sonhos de noite ainda são os mesmos. Não dá pra fugir da gente. Nem passar a vida tentando ser o que não se é.

Talvez tentar ser melhor. Mas essa construção já tem uma base, uma fundação.

E essa não afunda, não some. Nem com um maremoto. Nem estando longe. Nem sabendo que agora, porque eu quis, a vida mudou. Mas lá no fundo, quem eu era me espreita, me observa, me lembra de tudo mesmo se eu não quiser lembrar. Ela não desapareceu, nem vai desaparecer.

Mas agora, eu já aprendi um pouco mais a lidar com ela.

E não acordo mais chorando...

Só de vez em quando.