12.6.08

O aniversário da foca

Tenho lembrado muito de uma pessoa que fez parte da minha vida por muito tempo. Dias atrás, no meio da madruga, chegou um recadinho dele dizendo apenas "saudades". Engraçada essas sintonias, mas sempre acho que podemos explicá-las, em parte, pela memória compartilhada. No mês passado, nos encontramos e lembramos que faziam 11 anos que havíamos nos conhecido.
Hoje fiquei pensando em como eu gostava (ou ainda gosto) dos rituais comuns. Não toda a pieguice comercial do dia dos namorados C&A. Mas o carinho, a lembrança, os marcos de passagem e datas comemorativas. Os casais criam um mundo próprio, em que determinadas coisas passam a fazer sentido, e é claro, apenas porque é em função da outra pessoa. Não cabe em outro espaço, nem em outra relação.
Lembrei da minha foca de pelúcia. Exatamente 11 anos atrás, relacionamento começando, aquela insegurança típica de quem começa a se perceber apaixonado, sem saber muito bem o que esperar do outro. Ele então, o outro, me aparece com uma foca de presente de dias dos namorados. Dizia que ela era careca e com um fiozinhos de barba que nem ele. Era um bichinho para que eu me lembrasse sempre dele.
A partir disso e é claro que apenas por um tempo (intenso, longo, mas um tempo) firmamos um companheirismo maravilhoso. Ele é músico, a gente curtia ir em pagodes, sertanejos, karaoke, rock, o que rolasse. Enchiamos a cara juntos. Ele passou a fazer parte do meu grupo de amigos, do meu grupo de teatro. Ajudava no que desse fazendo cenário, dando pitaco em música, luz...
Eu assistia aos ensaios da banda dele. Ouvia suas composições, falava o que achava e ele ouvia. Juntamos por vezes as duas galeras, os meus e os deles, a ponto de quase sair mais um casal.
Todo ano, eu olhava para a foca e lembrava que o aniversário dela, era mais um ano que eu passava com ele.
Mais um ano de cantoria, de brigas, de amor, de conversas sobre o mundo e sobre a gente.De inventação de rituais. Nossos rituais. Mais um ano que ele me chamava de "leãozinho" (por que será hein?) e cantava para me acordar: "Gosto muito de te ver leãozinho, caminhando sob o sol..."
No primeiro aniversário da foca, sem o aniversário de namoro, eu achei que ia morrer. Mesmo. De verdade.
Nessa lógica de "mundo do casal", com o tempo a gente começa a sacar até a intenção das palavras. Às vezes eu perguntava, por conta de alguma estranheza: O que foi? E ele respondia: Nada não.
Era mentira. Tinha alguma coisa sim, e não falhava. Se a resposta era somente um "nada", aí sim podia ser encanação.
Tanto era verdade, que tempos depois, já na crise, ele fez um música. Me surpreendi de manhã descobrindo que ainda sei o final dela.
"Nao te entendo e temos tudo do avesso
de nossa geração.
Passo a passo faço nossa história
se tornar canção
Andamos juntos tão distantes
de nossa geração
Temos defeitos, tenho medo
do meu coração.
-O que foi?
- Nada não.
- O que foi?
-Nada, nada não...."
Hoje em dia ele deve odiar essa música, achar ruim para caramba, com rimas pobres. Mas eu dizia para ele que ia fazer um puta sucesso na indústria de massa para o público adolescente. Que ele ia ficar rico-famoso-drogado, me trocar por uma modelo, ficar mais deprimido e mais drogado e morrer disso.
E eu ia ficar rica leiloando entre patricinhas adolescentes histéricas, o manuscrito original da música.
Ele ria.
Eu ria.
Ele continua músico e meio hippão... Agora me chama de irmãzinha. Vai vendo...
Eu eu continuo aqui. Em tempo difíceis para se falar de amor, é bom ficar lembrando como ele existe.

5.6.08

lendo o mundo pelo rádio

Manhã de café prolongado, ouvindo um pagode, sem falar de nada. Esses pequenos prazeres são inexplicáveis. São aquelas coisas que a gente gosta, e muitas outras pessoas não vêem o menor sentido. Tipo o sujeito que gosta do seu bicho-de-pé, só para poder chegar em casa a tarde e coçá-lo. Vai saber as esquisitices de quatro paredes que existem por aí...

Mas também me impressiona como sou capaz de passar horas ouvindo rádio. A companheira do blog “histérica e feliz” adoraria ser locutora. Eu adoraria ser sua ouvinte. Mandaria recadinhos para o meu amor e tudo...

Mais especificamente, acho a 105 fm um dos jabás mais bem investidos das rádios comerciais. Claro que não tem como não lembrar do filósofo Mano Brow:

“...periferia...corpos vazios e sem ética lotam os pagodes rumo a cadeira elétrica...eu sei vc sabe o que é frustação...máquina de fazer vilão...”

Durante todo o dia, acompanhando as tarefas da rapaziada, em meio a cozinhas alheias, filhos que não são os seus, ou carros nos quais você nunca vai passear, fala-se de amor. O tempo todo. Boa parte das músicas se preocupa em pensar o amor nas suas milhões de formas cotidianas. Uma fala do casal feliz, outra fala de separação, outra fala de traição, de amizade, de saudade, da vontade de amar, de esquecer ou de ficar sozinho, “na pista”.

E as pessoas participam pedindo músicas. E nem sempre o que elas querem ouvir, são as mais pedidas da semana. Geralmente são oferecidas para alguém, e aparece de tudo.

Os cobradores de ônibus disparam na lista dos que mais recebem recadinhos : Antonio da linha Jardim Miriam – Vila Gomes, só você não vê que estou de olho em você.

Meninas, o Lêêêêê lêlêlêlê (só você tem o meu amor) do exaltasamba continua em alta.Encantadora de gatos, Temporal sempre aparece em algum apelo apaixonado, comove até agora.

O bacana também é que a rádio se divide basicamente em duas: O pagode e o rap. O espaço rap é um espaço respeitado. A rapaziada participa, manda abraço para os amigos que estão “do outro lado da muralha”, fala da vida. Muitos desempregados, e para eles o programa anuncia empregos do PAT (posto de amparo ao trabalhador). As vagas de trabalho são aquela coisa. Muito e mal pago.

Para os empregados, como os muitos seguranças privados noturnos, serve de companhia, um cara falando umas coisas legais, um música bacana, as pessoas participando.... e claro, tem transmissões de jogos. Em dia de jogo do Curinthia, como aconteceu ontem, a galera não se aguenta.

E para mim, é como ouvir uma partinha do mundo sem parecer estar nele.


V.L. Também Ama

Trilha Sonora Do Gueto

Composição: Trilha Sonora do Gueto

É vida loka, muito amor, muito amor...
Cê tá ligado, você é o que precisa mais de amor.
O vida loka é o que vai pra guerra
Você vai pra guerra ... você é o vida loka
Então muito amor vida loka, muito amor.

Sexta a tarde, fecha o sinal
A garota para o carro,
Ao lado encosta outro carro,
Ela olha ...
É um vida loka de boné pra trás,
barba por fazer
Ele sorri para ela
Ela sorri para ele
Ele abaixa o vidro elétrico,
E ela também
Ele pede o telefone
Ela dá: 8121-5511 liga pra mim
O sinal abre, os dois partem
Logo que ela chega em casa, o telefone toca
É ele!
Ótimo papo gostam das mesmas coisas
Parece até que se conhecem a um tempão
Ele sugere que se encontrem sábado a tarde no shopping
Ela topa.
Vida loka também ama nego.


Amo de uma forma que não sei explicar
Sou revolução nego, eu vou tentar ... então
Aprendi na vida que os fraco não tem vez
Um dos vida loka vale deles tipo seis
Não vai ficá aí se lamentando se a mina não te quer
doidão, c sai andando.
Deixa ela pensá, que é pá que é modelo, que
a fantasia de princesa dura o tempo inteiro
Hoje ela tem 15 amanhã tem 16,
Passada a temporada ela vai ter 26.
Aí você vai vê nego, quá lé que é que é se ela é a guerreira
pra poder ser sua mulher

Cara é complicado essa vida
Mas aprendendo é que se ensina, ainda existe
boa gente, que vai a luta e segue sempre em frente
Tendo que enfrentar toda manhã e se preocupar com sua família.

Amar é complicado, pros fracos não tem vez
Um dos vida loka vale deles tipo seis
Só tenho que eu mereço, humildade vem do berço
Amor é só de mãe, pois de outro eu não conheço

Cara é complicado essa vida
Mas aprendendo é que se ensina, ainda existe
boa gente, que vai a luta e segue sempre em frente.
Tendo que enfrentar toda manhã e se preocupar com sua família

Amar é complicado né Jão, quem é que não gela
Olha que vem lá Boca é o Zé Ruela
Tá cá mina dele, modelo de favela
Tipo Vera Fish, oh quem ti dera
Acho que o cê só tá só com ela memu
Pq cê num trampa e num paga um veneno.
Eu queria vê se cê fosse operário
Dasse aquele trampo prá ganhá um só salário
Ela ía querer você, bem longe dela
O seu privilégio é ter um golf na favela

Eu não falo nada né Jão, fico na minha
Ele mesmo diz, essa aqui é minha mina
Mais vale um operário sem ela vai por mim
Do que um criminoso tano em cana e sozinho
Não sou mais que ninguém só quero alertar
Um dia eu também nego, passei por lá
Foi lá que eu notei, que o homem também chora
Quando a modelo de favela vai embora,
Ai só fica ele e a decepção pagando de mau mau abandonado na prisão.

Cara é complicado essa vida
Mas aprendendo é que se ensina, ainda existe
boa gente, que vai a luta e segue sempre em frente
Tendo que enfrentar toda manhã e se preocupar com sua família. Com sua família.
Cara é complicado essa vida...
Cara é complicado essa vida...
Mas aprendendo é que se ensina, ainda existe
boa gente, que vai a luta e segue sempre em frente...

Alô ... alô
Me desculpa, eu não queria que tudo acabasse assim
Me dá uma chance,
Fala comigo ...
Alô ... alô ...

As vezes a gente sente e fica pensando que tá amando.
E que encontrou tudo de bom que a vida poderia oferecer.
Até que a mulher que a gente ama vacila e põe tudo a perder...

Cara é complicado essa vida...Essa vida Essa vida....


letras acima

30.5.08

Conversa de buteco

Butecada boa é aquela em que você começa prometendo tomar só uma cervejinha... E de repente está fechando uma caixa...
E mais...
Perfeitas são aquelas nas quais, no auge da filosofia de mesa de bar, surgem las grandes sínteses teóricas sobre a humanidade. E no outro dia, apesar da dor de cabeça e do trabalho a se levar, traz no rosto dos participantes aquele sorriso de quem lembrou porque a convivência entre as pessoas é tão gostosa...

"Duas definições sobre a pós-modernidade:
Ctrl C + Ctrl V "

28.5.08

Deus ajuda quem cedo madruga?

De vez em quando, em determinadas fases, acabo dormindo pouco. Ao contrário do poeta, tenho muito sono a noite e pouco sono pela manhã.
Fiquei pensanso se estou ou se sou assim. Meio histérica pela manhã.

Em pleno domingo, depois de uma semana complicada e de uma tarde-noite de samba, cerveja e churrasco, seria o dia perfeito para dormir até o corpo doer. No entanto, antes das 6 da manhã, lá estava eu, tomando um café e vendo televisão debaixo do cobertor quentinho. Vi seriados bobos de solteiros malas. Depois passei para o tradicional "Pequenas empresas, grandes negócios". Foi aí que me lembrei que assisto esse programa, no domingo, nesse horário bizarro, desde que me conheço por gente.

Minha casa em Piedade é o elo perdido entreo camponês e o citadino. Em termos materiais, apesar de meu pai sempre ter trabalho com roça, ele era o patrão e minha mãe era funcionária pública, portanto estavamos bem distantes das condições de vida do mundo rural. Mas pensando nos costumes, meus avós foram os responsáveis por perpetuar os hábitos mais caipiras do mundo. Cultura do arroz-feijão-ovo e leitoa criado e plantado por eles mesmos.
De acordar cedo, porque a vida é assim, se trabalha do nascer até o cair do sol.

Em casa ninguém trabalhava nesse tanto, mas todo mundo sempre acordou muito cedo. Meu pai levantava para ir buscar os "camaradas" e ir para a roça. E logo cedo, lá estava minha vó fazendo café e pegando o pão que meu pai trazia para a rapaziada. Me dava um dó. Poxa, era domingo, tava frio... E o pessoal lá, na varanda de casa, vestindo um monte de trapo, um sobre o outro. As moças de saia e calça. Os moços com o boné de algum candidato ou comércio local. E eu encolhida com o meu vô, não entendendo porque eles tinham que sair de casa tão cedo... Poxa, bem na hora do Globo Rural?

Então minha vó fazia para nós dois, virado de farinha de milho com ovo. Chá preto para o meu avô e café para mim porque sempre adorei café, desde pequena. Meu vô me dizia que eu era pretinha por isso. Porque tomava muito café.
Daí a gente ficava lá na sala. Assistindo o Globo Rural, que era o mais legal. Depois um pedaço da missa diretamente da Aparecida do Norte, e depois vinha a Inesita. Saudades do vô, e ele já morreu faz tanto tempo... Tenho a impressão de eu seria uma pessoa diferente, talvez melhor se ele tivesse ficado vivo mais um pouco. Quando ele morreu eu tinha 7 anos de idade e parece que depois disso, tudo desandou e virou o mar de confusão que é até hoje. Pelo menos é assim que me lembro das coisas... Eu era uma até aí, e virei outra depois disso.

Engraçado o fato de que esses programas ainda existem e me trazem uma manhã nostálgica, horas para se pensar na própria história.

Após uma reportagem sobre o cultiva das oliveiras, pensei que talvez minha memória estivesse criando imagens que não existiam. Como é possível o mesmo programa existir por tanto tempo? Será que eu não assistia tudo isso um pouco mais velha?

Então o apresentador leu uma carta de um espectador. Ele dizia que estava completando 26 anos de casado, e que ele e a esposa começaram a assistir o Globo Rural juntos, na lua de mel e, desde então, não perdiam um único domingo. São vinte e seis anos, ou seja, exatamente a minha idade, fazendo exatamente a mesma coisas, juntos.

No primeiro momento, me pareceu absurdo. Depois pensei em mim. Gosto desse programa pelo menos há 21 anos... Continuo adorando as reportagens sobre como combater pragas, melhorar a alimentação do gado, ou as máquinas malucas que vira e mexe algum tiozinho inventa para extrair alguma coisa do seu cultivo. Então por que não fui ser algo mais prático, ligado a todo esse universo?

Talvez porque no fundo, ficou mais forte o não entender por que eu podia ficar em casa comendo meu virado de ovo com café, enquanto todo aquele povo subia no carro e partia para o trabalho, como marmita e filhos a tira colo. Sem poder dormir em um domingo frio. Nem muito menos, assistir quentinho o Globo Rural.

Já bem grandinha, descobri que eles eram chamados de "camaradas" pelo meu pai, mas que na verdade, era na marmita que se podia entender de fato o que eles eram: Bóias-frias. Descobri que eu só podia ficar em casa com meu avô, porque o avô de alguém estava em cima daquele carro, no frio. Que a minha mãe ia para a missa, toda bonita, porque a mãe de alguém tinha largado o filho em casa para trabalhar, ou ia passar o dia xingando os moleques para que eles não atrapalhassem "o pessoal que estava arrancando cenoura".

E que na verdade, deus esqueceu há muito tempo de quem cedo madruga.

8.5.08

Quanto mais óbvio, mas revoltante.
Um tal de Bida fazendeiro condenado por matar uma freira o que em um país católico constitui um agravante considerável. Um intermediário, Tato, foi condenado junto com esse outro aí. Quando o primeiro recorre (ou seja, o dono do dnheiro), o segundo misteriosamente muda o depoimento e inocenta o primeiro.

E tem gente que é tão, mais tão esperta, que anda desconfiando, assim de leve, que no mundão aqui é assim, que com dinheiro se compra tudo, e essa é a óbvia graça de ser rico.

7.5.08

A gente não quer só comida...

Pois é, mais uma vez enfatizando a ranzinzisse da vida, aquelas que te fazem colocar tudo dentro do mesmo balaio de gato...

Faço isso com os artistas. É impressionante como tenho dificuldade em mandar para a casa do caralho pessoas que merecem (e muito) esse destino. Quando consigo chegar no limite de realmente dizer - Olha, isso tudo é uma merda e você também - é porque já estou naquele momento de raiva profunda. Mas, mesmo com a raiva, sou capaz de voltar atrás em 5 minutos. Não por que mudei de idéia, mas porque fiquei com muita pena, e não consigo me sentir bem com a desgraça alheia. Não me sinto melhor quando o outro está pior.

Mas com artistas costumo ser mais cruel. Não gosto de conviver, não tolero tomar cerveja como pessoas que precisam de duas cadeiras.

-Ah, dá licença, posso puxar essa cadeira? É porque meu ego gosta de sentar perto de mim.

Na verdade, toda implicância vem da sensação de que a maioria do que se intitula arte, é muito vazio. Não diz nada sobre o mundo, sobre ninguém. O artista, na maioria das vezes, cria e quer que se foda se você entendeu ou não. O importante é a estética pela estética, e não sua possível função de trasmitir idéias, sensações, novas formas de percepção do mundo.
É tudo só por boniteza. E se não entendemos, não sentimos nada e bocejamos durante o espetáculo ou coisa assim, é porque somos burros.

-Ai querida o espetáculo foi bárbaro, pena que o público é fraquinho... Sabe como é no Brasil né?Não dá para falar de arte em um país de ignorantes. E o governo não faz nada. Me revolta viu!

Esse tipo de artista, normalmente acha que para ser profundo, precisa ser difícil, imcompreensível, quase impossível. Sabe aquela história de que o Rei está nu? Pois é, tenho a impressão de que a maioria das pessoas sai desses "espaços" de arte, dizendo que a roupa do Rei era maravilhosa....
Ah, e tem que ter gente gostosa e pelada. E diga-se de passagem, isso é um clichê que não perturba mais nem o povo de Piedade, quanto mais, o público espaço Unibanco que frequenta esses espetáculos.
Esse tipo de gente babaca, que acha Gerald Thomas o M-Á-X-I-M-O, é a rapaziada que está muito mais preocupada em ser artista do que gente, do que cidadão. Que está cagando para o mundo e sonha com um convite da globo, nem que seja para fazer Malhação. Mais preocupado em resolver seu lado e ter um rosto e um corpinho bonito, do que com a tal "cultura" da qual se dizem representantes.

Enfim, posso escrever um tanto execrando os franceses que frequentam a região oeste e centro de São Paulo.

Mas bom mesmo foi pensar nisso justamente vendo um exemplo contrário. Pessoas que podem me ouvir falando isso de um artista e dizer: Você está falando merda, nós não somos assim!

Artistas mesmo. De espírito e não meramente da vontade de ser alguém nesse mundo que massacra as individualidades e transforma tudo e todos em massa. Um povo alegre. Não blasé. Que canta, dança, recita e celebra a vida, sem ser estúpido ou alienado.

Ser alegre não é medíocre. Medíocre é a vaidade que envolve o umbigo daqueles que acham que o problema é a falta de cultura, principalmente do público juruna, do "povo tatu".
E bonitos são aqueles que, ao invés de ficarem cagando na ignorância do povo, se dispõem a contribuir com o fim da miséria de sonhos e beleza que envolve a maioria da população.

A gente não quer só comida, mas também tá de saco cheio de estética e gente vazia, que consome um romance, uma música, como quem compra uma bolsa nova roxa de bolinhas verdes.

Assim, registro aqui uma letra de música ,devidamente copiado do blog ombudsmans de botequim (ombudsmansnoboteco.blogspot.com) . Engraçado quando algo incomoda, e naquele momento encontramos ecos pelo mundo.

Eu sou bom de cama, sei fazer café
E ninguém reclama do meu cafuné
Mas... artista é o caralho, é o caralho!

Eu sou bom de bola, jogo com calor
Canto na viola sempre com amor
Mas... artista é o caralho, é o caralho!

Canto no banheiro sem vacilação
Já ganhei dinheiro na televisão
Mas... artista é o caralho, é o caralho!

Gosto de cinema, gosto de dançar
De fazer poemas em papel de bar
Mas... artista é o caralho, é o caralho!

Já entrei na lista de uma tal mulher
Que é capoeirista e tem samba no pé
Mas... artista é o caralho, é o caralho!

28.4.08

Virada atravessada

A virada agora aconteceu... De verdade. Vi coisas, gente, ri pra caramba, chorei também. Enfim, sentindo tudo demais, de cabeça e cara cheia .
Bom, mas apesar de ter visto muita coisa, gostei mesmo foi da Inezita Barroso. Chorei mesmo. Por tudo o que ela me trouxe.
A Inezita é uma personagem que permaneceu presente em toda a minha vida. Praticamente lembro dela desde que eu me lembro de mim. Meu avô, a figura masculina da minha vida adorava o programa dela. Assistíamos juntos ao "Viola Minha viola". Lembrei também dos primeiros dias aqui em São Paulo. Como me trazia tristeza ver a Inezita e pensar o quanto tudo tinha mudado. E, em tempo, o quanto eu não tinha a menor idéia se estava ou não fazendo a coisa certa.
E por fim, chorei mesmo quando pensei nas minhas manhãs de domingo. Pensei no amor que nunca foi meu, mas que me fazia companhia, que tantas vezes assistia a moça comigo. Mais uma coisa que se foi. Mais uma falta.

Nessa hora tive que ir embora. Não dava mais.Fiquei boba, sentimental demais, chorona. Sentindo falta de tudo. Achando tudo ruim.

A canseira e a ressaca da noite anterior ganharam. Tentei mas perdi pra tristeza, pra saudade.

Restou mesmo foi me arrastar mais um tempinho e chegar pelo menos até o show do Ultraje.
Melhor arrastar um bode podendo mandar tudo pro inferno.
Dançar e espalhar palavrões com uma praça lotada melhorou um pouco as coisas.
Ah, e mandar o Kassab tomar no cú. Fechou. Descem as cortinas.
Agora só no ano que vem.

23.4.08

Homenagem aos guerreiros do mundão. Viva São Jorge!


Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer mal. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar.

14.4.08

La Mano de Dios




Já que mão na bola, ou qualquer outra irregularidade do mundo só é problema quando não beneficia seu time, aqui vai um salve para o lindo do Adriano.
Aliás, gosto dele porque além de bonito, ele é humilde...
Nada como ter o companheiro Maradona de exemplo a ser seguido...
Só falta ele começar a liderar marchas contra o Bush...
Aí eu me apaixono hehe...

7.4.08

Daruma X Mad Max




Fiquei pensando nesses dias todos na falta que faz a esperança.. No mundo não falta a utilização da palavra em nomes de falsas promessas ou legitimando canalhices... Criança esperança, esperança na educação que trará a redenção (e regeneração) da pátria, esperança no desenvolvimento, esperança de que um dia seremos de 1º mundo... Enfim, a esperança existe na medida em que ela é reivindicada como alimento para o conformismo. É como se a sua única função, fosse acalmar as pessoas que não tem nenhum motivo concreto para ter esperança.

Enfim, esperança sempre me soou como sinônimo de otimismo. E como já diz a máxima: Otimista é o pessimista mal informado. Logo não sou otimista. Logo, não tenho esperança.

Essa premissa é verdadeira, mas não constante e muito menos imutável.

Eu quero ter esperança. Eu juro. No sentido pleno, bonito, sem fatalismos.
Do ponto de vista histórico, não ter esperança, é acreditar no fim da história. É acreditar que o capitalismo é a forma social e econômica final. Que daqui para a frente, só o futuro Mad Max nos espera. Fudeu. A predação e selvageria venceu. O racionalismo estúpido triunfou. Socorro, não vou ter filhos nesse mundo desesperador...

Muito bem. Quem quer um mundo diferente tem que ter esperança. Por isso sinto tanta falta dela em mim.

Busco a esperança sempre. Mesmo que eu não consiga todo o tempo. E mesmo que ao conseguir, em determinados momentos, isso me dê um ar de boba alegre.

Dias atrás comprei um daruma.É um bichinho japonês que vende em toda a esquina no bairro da Liberdade. O bichinho tem dois olhinhos brancos. A idéia é a seguinte: Fazemos um pedido, pintamos um olhinho e deixamos o bicho de gesso inerte exposto em algum lugar bem visível. Quando o pedido se realiza, pintamos o outro olho como forma de agradecimento.

O Daruma é o símbolo da esperança e da perseverança. A lógica é bem simples. Se guardarmos o dito cujo na gaveta, ele perde sua função que é lembrar o desejo. Lembrando, fica mais fácil não esquecer o que a gente quer, do que a gente gosta.

É mais ou menos esse o exercício diário de quem quer ter um pouco de esperança: Não esquecer que ainda existem gostos, desejos e beleza. Se elas forem para o fundo da gaveta, se não ficarem expostas, são esquecidas e não se realizam. Em nenhum momento.

Dessa forma, sei que, na maioria das vezes, são restritas as chances de se pintar os dois olhinhos do Daruma.
Todo o sistema maldito pautado no fim do sonho e na supremacia do mercado sobre o homem, exige todo dia que não pintemos mais nehuma esperança, nenhum olhinho.

Afinal, o que é um desejo, a beleza, as boas coisas que ainda existem, perto da desgraça anunciada que é a permanência do capitalismo?

É um olhinho do Daruma. É só pra gente não esquecer o quer e do que gosta.
É só para gente não perder a esperança de que a história não acabou.

28.3.08

Ai, a latinidade...

Hoje de manhã, andando pelas redondezas do lar, meio cabisbaixa... E eis que me surge essa beleza emocionante da mais pura essência da breguice envolta na passionalidade latina. Lindo...
Quando o Almodóvar transformar em trilha sonora de um de seus filmes então... ai ai


Corazón Partío

Composição: Alejandro Sanz

Tiritas pa este corazón partío.
Tiritas pa este corazón partío,

Ya lo ves, que no hay dos sin tres,
Que la vida va y viene y que no se detiene...
Y, qué sé yo
Pero miénteme aunque sea dime que algo queda
Entre nosotros dos, que en tu habitación
Nunca sale el sol, no existe el tiempo ni el dolor.
Llévame si quieres a perder, a ningún destino, sin ningún por qué.
Ya lo sé, que corazón que no ve,
Es corazón que no siente,
El corazón que te miente amor.
Pero, sabes que en lo más profundo de mi alma,
Sigue aquel dolor por creer en ti,
¿qué fue de la ilusión y de lo bello que es vivir?
Para qué me curaste cuando estaba herío,
Si hoy me dejas de nuevo con el corazón partío.

¿Quién me va a entregar sus emociones?
¿Quién me va a pedir que nunca le abandone?
¿Quién me tapará esta noche si hace frío?
¿Quién me va a curar el corazón partío?
¿Quién llenará de primaveras este enero,

Y bajará la luna para que juguemos?
Dime, si tú te vas, dime cariño mío,
¿Quién me va a curar el corazón partío?

Tiritas pa este corazón partío.
Tiritas pa este corazón partío.

Dar solamente aquello que te sobra,
Nunca fue compartir, sino dar limosna, amor.
Si no lo sabes tú, te lo digo yo.
Después de la tormenta siempre llega la calma,
Pero, sé que después de ti,
Después de ti no hay nada.
Para qué me curaste cuando estaba herío,
Si hoy me dejas de nuevo con el corazón partío.

¿Quién me va a entregar sus emociones?
¿Quién me va a pedir que nunca le abandone?
¿Quién me tapará esta noche si hace frío?
¿Quién me va a curar el corazón partío?
¿Quién llenará de primaveras este enero,

Y bajará la luna para que juguemos?
Dime, si tú te vas, dime cariño mío,
¿Quién me va a curar el corazón partío?
¿Quién me va a entregar...

26.3.08

Sabedoria de domínio público...

Tem coisas que a gente não sabe de onde vem, e muito menos entende por que vem. Como a saudade...
Como as lindas quadrinhas populares que andam pelo mundo... E chegam do nada para comover nosso dia...

Quem sofre o mal da saudade
Não acha livre um momento,
Pois tem perto a enfermidade
E longe o medicamento

25.3.08

Canção excêntrica

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre meu passo,
é distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço,
- do que faço, arrependida.


Cecília Meireles

24.3.08

Viva a modernidade!

A segunda -feira é um bom dia para se pensar como o mundo deu errado, como o projeto faliu. A sensação é de que para resolver isso aqui, só fechando e começando de novo. O capital, a racionalidade, a aceleração do tempo, enfim, a modernidade que deveria civilizar o homem, criou a bestialidade mal humorada tão bem expressa pelo chute inicial da semana. A bola começa a rolar, a felicidade do domingo vai embora. Mas no mundão, o jogo não tem regras claras, apenas indicadas.

Nessa perspectiva de que o projeto racionalista, bestializou ainda mais as pessoas, temos aqueles figuras que "metodologicamente" tentam mapear a miséria humana. E então, como se algo, os fatos, mudassem sendo quantificados, eis que entramos no mundo da estatística. Sempre somos estatística. Alguma. Qualquer.

Se tomamos café em casa, utilizamos o transporte público e trabalhamos 8 horas por dia, alimentamos determinada análise.
Se, ao contrário, comemos na rua, nos locomovemos de carro, e ganhamos dinheiro em 3 horas por dia, somos outra.

Enfim, o fato é que dificilmente conseguimos perceber que os números, tentam reproduzir nossa vida, nosso comportamento social. Nunca achamos que é com a gente. A estatística é sempre o outro. A desgraça sempre está ao lado.

Mas hoje não... Tudo está tão cinzamente segundona pós -ressaca e preguiça do feriado, que me ocorreu o quanto sou tão todo mundo, quanto todo mundo. Quanto qualquer nicho de mercado. Quanto qualquer consumidora. Quanto qualquer estatística.

E claro que eu já sabia. Mas ainda mantinha aquela impressão de que, pretensiosamente, ao menos tentava ser diferente.

Pois bem... não sou.

E por mais que isso pareça uma besteira de desabafo bloguístico, é mais sério, é bem mais sério.

Agora, eu realmente me vejo como uma estatística. Eu me identifico com uma delas e isso faz com que eu veja também as outras. O quanto sou todas elas.

A memória precisa do esquecimento para se construir. E decididamente, não vou esquecer o dia em que percebi/virei só uma estatística.

17.3.08

De volta...

Muito bem... Devido às constantes cobranças dos seis fiéis leitores desse blog, resolvi justificar minha ausência, que, em parte, se relaciona ao mesmo questionamento da companheira de vida e de blog, a famigerada Encantadora de gatos. Ou seja: viver ou escrever?
Entretanto, o que dificulta tudo ainda mais, não é necessariamente o fato de que minha vida anda suppeerrr animada (em paz sim, animada nem tanto, tumultuada e boa, talvez), mas o parco acesso à tecnologia. Em suma, não tenho mais internet em casa. Quando chego perto dessa beleza da pós-modernidade, geralmente preciso resolver questões pontuais. E no trabalho então, faço o que tenho que fazer e saio correndo. Não dá vontade de tomar mais uma e escrever no blog.
E por fim, acho difícil escrever em casa e publicar depois. O meu blog, normalmente, tem a velocidade dos sentimentos e eles mudam sempre, muito rápido. Muitas vezes eu relia uma publicação do dia anterior e já não era a mesma coisa. Uma tristeza, ou um emputecimento (como o de agora, já que acabei de sair da sala de aula), não é o de ontem e não será o de amanhã.
Com exceção dos momentos de "coisas e valores para a vida", ou seja, os mais inspirados e portanto, mais raros, todos as outras escrivinhadas são fugazes como os momentos que as propiciam.

Enfim, tudo isso para dizer que não abandonei esse espaço e que continuo gostando muito das trocas que eles me propiciam.
E enquanto não escrevo, permaneço lendo os amigos, a parte realmente interessante disso tudo aqui.

22.2.08

Vida no centrão...

Sai da província e acelerei o tempo da vida. Nós caipiras somos como crianças em alguns espaços, ainda nós impressionamos com as coisas, não temos aquele ar blasé metropolitanto zona oeste, de quem já viu tudo, ou quer parecer que já viu.
Agora mesmo, só de sentar em uma lan house e resolver minha vidinha medíocre, a moça do lado me fez ouvir a conversa dela com o namorado. Primeiro resisti, tentei pensar em outra coisa. Depois ficou bonitinho, me envolveu e não pude mais ignorá-la. A moça deve se chamar Antonio no registro oficial. Mas de que importa isso no espaço do anonimato e dos nomes não oficiais?
A moça me entreteu enquanto eu resolvia meus probleminhas bestas com o sistema Fênix. A moça trocou hoje os euros e está indo ser mais um traveco brasileiro na Europa. E sabe extamente onde está se metendo.
A moça então deu uma trepadinha por telefone. E disse que ele era especial, que dessa vez estava gostando de verdade dele, que queria ser fiel e tudo. Depois disse eu te amo, mandou milhões de beijos beijando um celular, declarou a saudade e avisou que estava chegando.

Me emocionei um pouco. E depois lembrei que provavelemente nunca mais veria aquela rosto na vida. Não saberia o que seria daquelas pessoas, daquele amor.

E sabendo detalhes bem íntimos daqueles desconhecidos, simplesmente levantei, falei boa tarde e sai.

11.2.08

Resta rir

Acho que muitos dos seis fiéis leitores desse blog já conhecem esse texto. Tenho lembrado muito dele...
De qualquer forma, é divertido reler. Então tá aí:


Bar ruim é lindo, bicho


Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de 150 anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de 150 anos, mas tudo bem). No bar ruim que ando freqüentando nas últimas semanas o proletariado é o Betão, garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas acreditando resolver aí 500 anos de história. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura. “Ô Betão, traz mais uma pra gente”, eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte do Brasil. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte do Brasil, por isso vamos a bares ruins,que tem mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gateau e não tem frango à passarinho ou carne de sol com macaxeira que são os pratos tradicionais de nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gateau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda. A gente gosta do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne de sol, a gente bate uma punheta ali mesmo.

Quando um de nós, meio intelectuais, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectual, meio de esquerda freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim. Porque a gente acha que o bar ruim é autêntico e o bar bom não é, como eu já disse. O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e nesse ponto a gente já se sente incomodado e quando chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual, nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e universitários, a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevete e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.

Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantém o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam em 50% o preço de tudo. Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato. Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se fodem, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão brasileira, tão raiz.

Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda, no Brasil! Ainda mais porque a cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que agente gosta, os pobres estão todos de chinelo Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gateau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda, como eu que, por questões ideológicas, preferem frango a passarinho e carne de sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca mas é como se diz lá no nordeste e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o nordeste é muito mais autêntico que o sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é mais assim Câmara Cascudo, saca?).

-- Ô Betão, vê um cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?


8.2.08

E a vida andando...


Claro que tudo sempre está em constante mudança. Sempre o movimento que dá o contorno do momento vivido. Mas em alguns momentos, tenho a impressão de as mudanças são mais bruscas. Outra fase. Um momento muito diferente ao anterior.


O que me deu certa sensação de continuidade por um tempo, foi o ser adulta. Mesmo sendo uma adulta meio com um pé na adolescência prolongada pela universidade.

Mas agora, tenho a impressão de estar começando a ver coisas novas velhas. Coisas que eu me lembro da infância. Coisas que aconteceram com meus pais. E Eles me pareciam tão aburdamente adultos, tão gente grande.


E não me parece que essas mudanças são externas, alheias a mim, que apenas circundam meu mundo, mas não entram nele. Eu também mudei bastante. Comecei a gostar mais de umas coisas do que de outras. De algumas desgostei, mas de outras, apenas gosto menos, mais de vez em quando. Uma peneira construída por um pouco mais de experiência, de construção de critérios. Testar a tolerância de forma a repensar sempre.

Se pensando no mundo. E de preferência, nesse mundo.

6.2.08

Depois da forfé....


Citando o moço sem graça colunista da folha, mas que de vez em quando dá uma dentro:

"Começou o intervalo insuportável entre o carnaval e o ano novo."

28.1.08

Mais uma...



Além da Terra e do Infinito
Eu procurava o céu e o inferno
Mas uma voz solene disse-me:
- "Procura-os dentro de ti mesmo"




Rubaiyat-
Omar Khayyam

22.1.08

Barbárie!

"O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado o terreno lembrou-se de dizer “isto é meu” e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: “evitai ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém”.

J.-J. Rousseau e o Discurso sobre a origem e
os fundamentos da desigualdade entre os homens.

21.1.08

Mulher moderna é o caralho!

Essa história de mulher moderna é realmente a coisa mais opressora que já inventaram em termos de categorização de comportamentos. Eu e minha lasanha congelada andamos conversando e discordando um pouco dessas idéinhas...
Ficamos realmente sem saber o que pensar: Ninguém tem saudade de quando tínhamos a possibilidade de, no máximo, ser uma boa esposa e mãe. Entretanto louvar as maravilhas de poder ser explorada pelo capitalismo é demais. Existe conquista na medida em que posso me prover como ser humano, mas essas conquistas são questionáveis quando penso em tudo o que perdi enquanto ser humano.

Se o padrão de mulher era aquela fofa, frágil e sentimental, hoje o padrão de mulher ideal, aquela que vai para a capa da Marie Claire (porque chique é ser inteligente) são as mulheres completas: Ou seja, na mesma edição temos moda, sexo, comportamento, trabalho e filhos. Folheando uma dessas, percebi que tenho bem poucos assuntos que me interessam naquela merda toda. Talvez a parte de sexo porque trazia um artigo sobre casas de swing... Ser liberal, pra frentex e frequentar putarias também tem que estar na lista da super mulher.

Portanto, essas revistas geralmente trazem moças bem vestidas, gostosas porém discretas, com filhos pendurados de um lado, uma maleta com ar de escritório do outro e na sua frente, um lindo automóvel com o porta malas aberto e cheio de compras... Uhuhuhuhu... Bela libertação.

E não sofrem por amor. Isso é coisa de mulher fraca. A moderna de verdade, compra uma roupa bonita e vai para a balada. Bem sucedida, linda e pagando sua conta. Chorar por homens é coisa de mulherzinha fracassada procurando renda para se encostar.
Bom, mas pelo menos agora podemos ter tesão e orgasmos. Toda vez. Sempre. Nada de estar cansada. Ou triste. E coitada daquela que não conseguir. A mulher moderna também TEM QUE TER PRAZER e ser um vulcão de sensualidade, colocar uma cinta liga e um disfarçador de olheiras pra tirar o ar de cansada. Senão querida, procura um analista ou vai perder o marido...

Bom, tudo isso foi uma onda de raiva que me veio junto com a lasanha congelada. Não sei fazer uma de verdade e não tenho muita vontade, para ser sincera.

Quando me vem o que deveria ser o meu mundo se eu fosse a mulher antenada que minha condição de classe permite, me dá uma preguiça da porra. Não quero ser tudo isso, obrigada.
Mas quando vejo as moças que não tem a minha condição de classe, trabalham pra cacete sem salário, vivem absolutamente imersas na dicotomia esposa- amante, e que até para tomar uma cerveja tem que pedir ordem e dinheiro para os maridos, que por sua vez, as deixam trancadas em casa e vão dar em cima de moças como eu no samba, me dá uma tristeza.

É o limbo de não ser nem uma nem outra. E se não te categorizam, ninguém acredita que você também é desse planeta.

Sei que a mulher moderna com conta bancária estaria em algum lugar descolado, sozinha (na ausência das amigas) e fazendo um ar de bem resolvida.
Mas hoje, eu e a lasanha estamos bem em casa, vendo novela. De mulherzinha.
Me obrigar a ser mais que isso, seria uma violência para com a minha canseira disso tudo.

Eu seria uma mulher moderna demais pra mim.

20.1.08

Sambando na jaca


Tendência


Dona Ivone Lara


 Fundo de Quintal & Doan Ivone Lara
Tom: C
Introdução: F7+ / F#° / A / A7 / D7 / G7 / A / G7 /


C Am7 D7
Não......pra que lamentar
Fm G7 C A7
Se o que aconteceu......era de esperar
Dm G7 Em A7
Se eu lhe dei a mão.....foi por me enganar
D7 Fm G7 C Am7
Foi sem entender, que o amor não pode ha.....ver
D7 Fm G7 C A7
Sem compreensão,a desunião......tende aparecer
Dm G7 Em A7
E aí está......o aconteceu
Dm G7 C
Você destruiu......o que era seu
G7
Veja só !
C
Você entreu na minha vida
E7
Usou e abusou, fez o que quis
A7 D7 C7
E agora se desespera, dizendo que é infeliz
F F#° C A#7 A7
Não foi surpresa pra mim, você começou pelo fim
D7 Fm G7
Não me comove o pranto de quem é ruim, e assim
C
Quem sabe essa mágoa passando
E7
Você venha se redimir
A7
Dos erros que tanto insistiu por prazer
D7 C7
Pra vingar-se de mim
F F#°
Diz que é carente de amor
C A#7 A7
Então você tem que mudar
D7 G7 A7
Se precisar, pode me procurar, procurar !
D7 G7 C
Se precisar, pode me procurar


Dias de cabeça funcionando pouco, estudos burocráticos, fígado
muito requisitado e saudades... Dias de cansar o corpo no samba,
sentir dor no pé na hora e na cabeça no outro dia. Não podemos sentir
duas dores ao mesmo tempo. Então a do coração se disfarça.

18.1.08

Minuto de sabedoria persa

Brincadeiras bestas... Abrir aleatoriamente um livro de sabedorias. Hoje não foi o Bandeira, mas os pensamentos de Omar Khayyam...

Nenhum poder sobre o destino
Te foi dado, sabes
Que adianta a ansiedade em que ficas
Pela incerteza do amanhã?

Então, se és um sábio, procura
Tirar do momento presente
O maior proveito possível.
O futuro o que te trará?

Rubaiyat

Salve, salve...
E depois a gente vê.

16.1.08

O sol voltou....



Os Pingo Da Chuva
- Os Novos Baianos

Quando o céu estiver preto e das nuvens até as sombras assombram. (bis)

É só o reflexo do que está acontecendo. Só está faltando fósforo. Me dê aí!

Não esqueça que nesse momento o vento sacode as árvores e o clima que fica e o ar agitado.

Dizendo tudo o que pode acontecer. Não escureça nem esquente a cabeça. Eu sei que você tem argumentos de querer.

O sol pra pegar sua praia, pra bater sua bola. E a lua pra ver sua mina, ou só pra ir ali na esquina.

Sem rima, sem rima!

Faça como eu que vou como estou, porque só o que pode acontecer...

É os pingo da chuva me molha, é os pingo da chuva me molha!
É os pingo da chuva me molha, é os pingo da chuva me molha!


15.1.08


Será que o amor é sempre um fardo? Bonito, mas sempre um fardo?
Fiquei um tempo olhando a imagem, enlouquecendo sozinha e pensando que talvez , mais fácil mesmo é assumir a solidão.
Só então olhei direito, e pude reparar que atrás do fardo, existe uma mão que ajuda a moça do primeiro plano a carregar o peso que paira sob suas costas.
Pensei então que o amor deveria ser isso: O companheirismo que deixa a vida menos pesada e dolorida.

14.1.08

Vivendo em um caixote

Impressionante como a noção de espaço foi completamente moldada pela necessidade de que muita gente more no mesmo lugar, nas rebarbas do capital, seguindo seu caminho e ritmo. Os escravos sempre acompanham...E essa doidera toda de capitalismo tosco tardio e meia boca, deixa os subdesenvolvidos a cada dia mais perdidos, fazendo mais e mais pataguadas querendo ser modernos. Enfim, coisas sem pé nem cabeça, arquitetura esquisita, e um bando de capiras morando em caixinhas empilhadas. Tipo eu na fase 1 do estágio: Como morar em apartamento.

Sinceramente, e é bem feio admitir, mas com relação a espaço, tenho um raciocínio em favor do senso aristocrático. Ora, na minha terra, o poder ainda tem relação territorial e não apenas virtual e financeiro. Gente rica mora em casas grandes com enormes quintais e pronto. Fiquei realmente espantada quando entrei em um apartamento super harahara (segundo os daqui), 1 por andar e traus. Achei pequeno. Não entendi a graça de ter dinheiro aqui, se não se pode ter uma casa gigante, isolada, piscina, escravos servindo suas mínimas vontades por todos os lados. Não é assim?
Pois bem, os ricos do dito capitalismo emergente são medíocres como todo burguês emergente. Acham o máximo morar em um apartamento no Morumbi, por exemplo. E a classe média é infeliz pra caralho tentando seguir o padrão de vida... Hoje em dia, as pessoas senso-comum-zé povinho arregalam os olhos de pavor quando te ouvem dizer que sua moradia é uma casa.
Enfim, mas aqui no estágio de apartamento, rolaram algumas engraçadas. Com a cqs e agora sem ela.
Cena 1
Eu chego. Uma lata de cerveja na mão, outras algumas na sacola. Esqueci de novo o número do apartamento. O porteiro me diz que é o 43. Quando estou entrando, ele, o porteiro protestante me intercepta:
-Olha mocinha, vou ter que pedir para você terminar essa cerveja lá fora. Não pode entrar bebendo coisas alcólicas no prédio.
Eu, como um olhar de vítima e ar de inocente, bebendo na rua em uma terça-feira lá pelas duas da tarde.
-Mas eu acabei de abrir. Está cheia, gelada.
Um porteiro protestante é incapaz de se sensibilizar com esse tipo de apelo.
-Mas não pode. A senhora termina e sobe.
-Mas daí as outras esquentam, é para a minha amiga... Olha, e se eu colocar aqui no cantinho da sacola, de pé apoiada nas outras, aberta mas escondidinha, tudo bem?
-Tuuuddooo bem.
-Certo.
A essa altura eu já estava rindo na cara do sujeito. Vai bater?

E outra hoje. Cena 2.
Esperando a Sandra, moça da faxina. Acordei mais cedo com medo de não escutar o interfone. Ele toca.
- Oi, é a Sandra, abre para mim.
-Claro, pode deixar.
Desligo, vou até a porta. Viro a chave.
Ela toca de novo.
-Então, você pode abrir para mim?
-Mas está aberta...
Ela desiste, desliga e em poucos minutos está na porta do ap., levemente inconformada.
-Viu, eu estava lá fora, era para abrir o portão porque estava sem porteiro. Fiquei um tempo lá, daí um velhinho abriu e eu entrei.
- Puts, desculpa Sandra, eu não estou acostumada com interfone.

Me senti uma anta de chapéu, claro. É isso aí. Logo, logo, mais uma caipira em um apartamento se atrapalhando. Aprender vá lá. Achar que é assim mesmo já é um pouco demais.

13.1.08

Moças e camas de casal

Domingo me parece um bom dia para devanear sobre besteiras absolutamente especulativas e sem nenhuma comprovação científica. Aproveito então para formalizar minha teoria baseada em observações de pouco alcance e no famigerado método noffs, ou seja, análises e generalizações baseadas em mim mesma. Acho que o título pode ser: " Moças sem marido com uma cama de casal. Uma faceta da mulher pós-moderna". Puts, acho que com um título desse ou algo assim, eu posso escrever qualquer merda dentro porque já venderia horrores na Livraria Cultura ou da Vila, por exemplo.

Poderia começar...

"Acordei e percebi que estava atravessada em posição diagonal sobre a minha cama, como há tempos não fazia. Naquele momento, percebi o espaço vazio que a pouco estava ocupado, e fiquei pensando o que significava aquela possibilidade, criada por mim e pelo meu tempo, de poder ocupar ou não um espaço que de qualquer forma é meu. Não me foi me dado por ninguém, muito menos por uma sombra de família e casamento que normalmente habita os quartos da sagrada e convencionada sociedade católica. Naquele quarto havia uma cama que sugeria um casal, mas que abrigava uma moça, e apenas eventualmente, um moço."



Eu me divertiria horrores. Mal saberiam os leitores da profundidade daquele momento, da cama antes ocupada e agora vazia: Fazia muitos e muitos dias que eu havia lavado uma quantidade astronômica de roupas que, depois de secas e recolhidas, passaram a habitar a metade da minha cama. Voltei a ter uma cama de solteira por puro esculacho. Mas isso foi em 2007, outra vida... Voltar a ter uma cama de casal foi o primeiro projeto já realizado em 2008.

Bom, penso que as moças sem marido e com uma cama de casal, constituem um grupo dentro do universo de mulheres diretamente beneficiado pela expansão do mercado de trabalho feminino mais ou menos qualificado e destinado ao nosso meio, a tal da classe média. Pagando suas contas, esse grupo conseguiu admitir que mulheres possuem sexualidade independente do fato de serem ou não casadas. Combatem o valor moral agregado ao tamanho da cama. Por exemplo um absurdo chamado cama de viúva, que não é nem estreita como a de solteiro e nem larga como a de casal. Ou seja, eu sei que você não é mais uma mocinha que sonha com seu amado em lençóis brancos do seu quarto que ainda preserva o ar infantil, mas também não venha me dar uma de putana e colocar um macho aí. E se colocar, tem que ser apertado, desconfortável já para não dormir. Ou alguém já viu uma cama de viúvo?

Não somos mais aquelas mocinhas que moram com os pais e ficam ansiosas para que o namorado possa, um dia desses, levá-las ao motel, a única possibilidade de transar tranquilamente, inclusive com o raro luxo de ter uma cama. E no caso de mulheres que já dividiram a cama, mas voltaram para seus latifúndios, este não representa apenas a marca de que ali já houve um casamento, nem passa a ser a cama de um dos filhos (obviamente não nos casos em que não existe outro lugar para um dos pequenos dormir, diga-se de passagem, o mais comum), e sim a cama de uma mulher que tem todo o direito de colocar seus namorados, quantos sua moralidade permitir e seu desejo chegar.

Claro que nem tudo são flores. Moças sem marido com uma cama de casal por vezes, acabam ficando um pouco egoístas e espaçosas. Um dos sintomas disso, é uma grande dificuldade em se adaptar à nova divisão do espaço propugnada obrigatoriamente por um relacionamento. Rola um inconformismo sincero quando se acorda com a cara na parede, observando os três palmos que lhe sobraram do seu latifúndio. Olha-se para o fulano ou fulana esparramado por todo o resto e só uma ternura profunda poderá ser o visto de permanência daquela pessoa que conseguiu se aboletar ali.

Entretanto a resistência para aí. Moças solteiras acostumadas com sua cama de casal também podem desacostumar, basta estarem dispostas ou não.No nosso entender a idéia de disposição, associa-se diretamente ao estar apaixonada. Entretanto, se vão querer dividir o espaço, saindo dessa forma da nossa categoria de estudo, não cabe às nossas especulações.

11.1.08

Sobrevivemos

Penso que todo mundo tem um pouco de sobrevivente da sua própria história. Nessa trajetória de acúmulos de experiências, ou seja, dores e alegrias, por mais que os momentos bons ou ruins passem, algo sempre fica com a gente. Vai nos moldando a existência e nossa forma de enxergar o mundo. O fato é que não é fácil para ninguém lidar com as próprias marcas, acho eu que, disso ninguém escapa.
O que vai sair disso, se pessoas ditas "normais" ou não, além de depender da referência do que é "normal", nem um caminho ou outro demonstra que se lidou bem com todas as informações e tragédias, seja do meio em que se nasceu, ou seja, a estrutura material e familiar, seja das escolhas proporcionadas por essa base que não foi por nós escolhida.
Portanto, parece que temos duas linhas que regem a vida: Uma que não escolhemos, que nos foi dado pela própria idéia de passar a existir em algum lugar e tempo. E outra linha regida por nós mesmos, por nossas escolhas, ainda que também profundamente condicionadas pelos pressupostos anteriores.
Bom, fiquei pensando nisso lendo "O Rio do meio" da moça que citei no post anterior. Tranquilo de verdade ninguém é. Mesmo aquele sujeito mais enquadrado, bestinha, que parece não ter cerébro a não ser um comprado em uma liquidação, também tem seus questionamentos e crises. Podem não ser as que considero mais profundas, mais isso é um critério meu, também criado a partir da minha vida.

Pois é, mas de verdade, apesar de saber que todos possuem um universo particular, me encantam os guerreiros. Acho que é porque tenho me sentido mais fraca do que de costume, mais suscetível, uma sobrevivente não tão digna, não tão esperta.
E admirando os guerreiros, tenho cada vez mais raiva de gente que anda com sua ferida exposta como se aquilo fosse o seu orgulho de existir e por isso, tivesse que ser desculpado por todos de todas as suas atitudes escrotas.
O sofrimento não é apenas o seu ser. É sua máscara. Sua justificativa para tudo.
Não sei se em todos os meios, mas tenho a impressão que no mundinho fflch, convivemos muito com gente louca para ser louca (citando a companheira Juju). Em geral são egoístas, acham que sua dor é maior do que a de todo mundo, são barriguinhas e desagrádáveis. Querem ser diferentes pelo sofrimento. E assim também se acham melhores. Pairam sobre uma humanidade, que consideram medíocre.
Por vezes também me sinto um pouco como esse tipo de gente. Mas penso nisso justamente porque não quero ser assim. A minha dor não pode me dar o direito de causar a dor no outro.
Me esforço. Tento não ser o que abomino. Aproveitar e aprender tudo o que der de situações quase surreais de tão absurdas e sem sentido.
A verdade é que desisti de entender.
Por hora, me contento em tentar não ser igual.

10.1.08

Convite

Lya Luft


Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.


E no meio das trapalhadas e desventuras da vida, cultivar os pequenos gostinhos de viver, torna-se quase um alívio frente a tantos desencontros. Encontrar outros tipos de encontro.

Dentre esses prazeres que deixam a vida menos árida, encontrar gente bacana que escreve bem é um dos que mais me contentam. Mais uma dos queridos amigos que mesmo longe estão perto. Mais uma para lembrar o quanto as pessoas são bonitas e podem nos acrescentar na existência. Assim, me contaram dessa moça de cabelos já branquinhos chamada Lya Luft, contista, poetisa, romancista e sobretudo mulher. E agora, tenho um lindo romance para me fazer companhia por mais uns dias.


9.1.08

Aptidão

Segundo o dicionário, ter aptidão é ter disposição natural ou adquirida sobre qualquer coisa. Portanto, aptidão natural pode ser aquilo que mesmo sem estar manifestado, já existe naquela pessoa que a possui. Na verdade, não sei se acredito que existem coisas naturalmente incutidas nos seres, como se fosse um dom. Mas se existe, acho que por mais que nos esforcemos, podemos aprender, adquirir determinadas aptidões, mas talvez nunca sejamos tão bom naquilo da forma como o "naturalmente" apto é.
Não sei mesmo se existe a aptidão natural. A palavra me incomoda. Naturalmente, entre seres humanos, me lembra darwinismo social. Mas achar que todos temos a mesma facilidade com tudo, é homogeneizar o ser humano, desprezar talentos.

Fiquei pensando nisso porque conheci uma pessoa que me encantou profundamente. O encanto me tomou justamente porque perto dela, eu parecia uma amadora, uma pessoa sem aptidão para amar o outro e que, por mais que eu me esforçasse, por mais que adquira a aptidão, nunca terei aquela tranquilidade e desenvoltura de quem sabe que nasceu para amar, que não poderia ser de outro jeito.

Ela ama como quem respira. Ela abraça, beija, fala de amor com a mesma facilidade e docilidade de qualquer tarefa muito simples e elementar. Eu a observo e me deslumbro. Tenho vontade de chorar na sua frente porque sei que ela me consolaria com a mesma aptidão, me colocaria no colo e aninharia meus cabelos. Ela perceberia na mesma hora que isso me acalma. E não preciso ensiná-la. Ela sabe.


Esse ser que sabe amar lê o que escrevo por cima do meu ombro. Diz que escrevo bem. Seus elogios são tão sinceros que coro. Ela diz que já me conhecia antes de me conhecer, por outros meios, mas que tudo o que sabia era nada perto do que eu sou. Mas eu, tenho tanta angústia, saudade, tristeza e álcool dentro de mim, que só sei olhar para ela feito uma boba. Não digo nada. Não aspiro nada naquele momento.
Só me vem uma dor, uma pontada no peito de me saber incompetente. De saber que estou longe de tudo o que ela sabe e não ter certeza se sou capaz de aprender.


"Essa ferida, meu bem
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã."
C.D.A

3.1.08

Mais um ano...

Particularmente não gosto tanto assim de rituais de passagem. Nesse ano, quando chegou o dia 31, fiquei ouvindo todo mundo fazendo pedidos, falando que ano que vem tudo será diferente... Como acabo sendo sem querer aquele tipinho de gente que leva tudo ao pé da letra e não entende piada, esses comentários me soavam quase como ofensas ao bom senso.
Não, as coisas não vão ser diferentes, o mundo não vai mudar muito, e normalmente o que muda é pra pior. E provavelmente as coisas mais emocionantes do ano serão as eleições municipais.
Admito que estava rolando um mal humor. Comunidade caiçara que quer ser capitalista e não consegue, muita gente acampando, menstruação fora de hora em um lugar que vende apenas o básico do básico para a sobrevivência, tipo gelo e repelente... E tinha acabado o gelo.
Enfim, a chatice toda era por não entrar no clima de euforia que reinava na praia afastada, porém lotada. Fico sem graça, me sentindo meio estúpida pedindo coisas para o sobrenatural, até porque pensei, pensei e não consegui pensar em listinhas para Iemanjá. A paz mundial e o fim da fome me parece absurdo demais para uma entidade só...

Bom, no meio de tudo isso, um garoto se afogou na praia. Nunca tinha visto alguém morrendo na minha frente. Ainda mais um menino que não devia nem ter 20 anos, e de um jeito absolutamente do além, com o mar calmo e os amigos todos em volta. Mas ele sumiu e quando o acharam, o mar já tinha vencido.

Na hora das sete ondinhas, só pensava nas pessoas que o amavam. Ele já não me importava mais porque simplesmente não havia o que fazer. Mas naquela festa toda, eu tinha visto a cena que acabou com as expectativas de um ano feliz para uma mãe, um pai, uma namorada, e sei lá mais quem aquele menino podia ter na vida.

Bom, depois da bebedeira, da saudade imensa de algumas pessoas que me tomou no meio de toda a comoção de terminar a noite sentada na praia olhando para o mar, consegui finalmente pensar que tudo o que eu quero para esse ano, é não perder nenhuma das pessoas que eu amo e continuar a viver com elas, do jeito que todos nós somos.

O resto a gente ajeita. Só não se arruma o que o mar leva, ou no coração se parte. Enfim, só não tem mais jeito, se o amor não der... hehe

25.12.07

Lembrancas de Natal...

Meio que sem querer, vem sempre na cabeca...




papai noel velho batuta

garotos podres


Papai Noel filho da puta
Rejeita os miseráveis
Eu quero mata-lo
Aquele porco capitalista
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Papai Noel filho da puta
Rejeita os miseráveis
Eu quero mata-lo
Aquele porco capitalista
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres

Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Pobres
Pobres

Mas nos vamos sequestrá lo
E vamos mata-lo
Por que?

Aqui não existe natal
Aqui não existe natal
Aqui não existe natal
Aqui não existe natal

Por que?

Papai noel filho da puta
Rejeita os miseráveis
Eu quero mata-lo
Aquele porco capitalista
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Presenteia os ricos

20.12.07

" - Como é que nunca viemos a esse lugar?
-É que não prestamos a devida atenção.
- Em nada.
- É verdade."

18.12.07

Para, pelo menos de vez em quando, lembrar de esquecer...

- Está tudo estranho...
- Não... Está tudo igual ao que sempre foi.
- É.

17.12.07

Sobre a melancolia...

"Quando eu penso em escrever, logo me vem algo ligado ao plano da melancolia. Então, pensei por um momento se isso seria vitimização. Se o culto a melancolia seria apenas fonte de inspiração íntima, ou se a melancolia é mesmo algo que me constitui. Afinal, o que é a melancolia senão uma brecha dentro de nós preenchida por um nada que de tão significativo não sabemos o real sentido. Eu não sou melancólico, eu acho. Mas eu trago a melancolia em mim. Dentro de algum lugar, tenho uma brecha preenchida por uma lava branca e inexplicável e que, volta e meia, emerge e me transborda. Na verdade, acho que todos temos. Mas o exercício de investigá-la, na tentativa de entender sobre ela o que representa em nós, ainda que saibamos nunca ser possível atingir tão complexo nível de auto-conhecimeto, nos faz um pouco tristes e maduros. Permitir-se à melancolia é saber reconhecer que ela existe, nos constitui, e é inevitável. A maturidade é pouco isso. Saber dosar parcelas saudáveis de dor sem que elas possam nos tomar por completo o tempo todo. É a busca por saber medir o quanto cada coisa pode e deve nos render de efeito. Mas a maturidade, ainda assim, não pode nos fazer absortos na racionalidade, e esse será mais um limite a ser administrado. Isso está ligado ao lance de que a maturidade não pode nos embrutecer diante dos fenômenos que nos cercam, pois, afinal, poucas são as verdades universais. O amor, por exemplo, é algo que maturidade alguma poderá suprir por completo. Ela poderá até criar um mecanismo de preenchimento sintético para aquela brecha, que temos, destinada ao amor, mas a artificialidade não suprirá a complexidade orgânica. E a falta da prática amorosa nos fará completamente melancólicos, e, logo, pouco maduros. Tenho amores tão grandiosos em mim. E eles ora me fazem mais melancólico, ora me distraem dela." P. Salvetti in: palavra do olhar.

Querido,,, O tempo passa e continuo me lendo em você.

Do cuidar e ser cuidada

"Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem com que homens se comunicam.)"
C.D.A

Às vezes, se passa tanto tempo sozinha, só cuidando da própria vida, que a gente esquece as delicadezas e cuidados com o outro. E como é bom recebê-las também. A gente se acostuma a grosseirice e solidão da existência de tal forma, que cuidado pode parecer uma invasão, um dedão metido na sua privacidade e individualidade.
Então um dia, alguém, depois de muito tempo, te faz um café, forte e amargo como a vida, só que dessa vez para dividir com um chocolate.
Linda vida... De só amarga e forte, para agora, meio amarga, meio doce...

Daí você se lembra... Meu Deus, há quanto tempo ninguém me faz um café...

De vez em quando minha mãe me acorda com um beijinho dizendo...
- Neguinha, acorda, vem tomar café com a mãe.
E reclama depois porque fez o café muito mais forte do que ela gosta, porque é como eu gosto. E diz que meu estômago não vai aguentar muito tempo e que tenho que parar de fumar. E me lembra que ela é minha mãe.
Não um companheiro.

Triste coisa essa de esquecer o carinho. De ficar tão chucra com tudo, de esquecer como se lida com as pessoas, a ponto de ficar com uma vontade enorme de só viver com cavalos. Triste ser ingrata e rude por inabilidade.
Triste chorar por não saber mais falar o que sente. Quando choro é recurso de linguagem.
Por nao conseguir agradecer o café e a companhia.
Por ter tanto medo do outro, pavor de se acostumar com o carinho e, quando perdê-lo, tudo ficar muito pior do que antes.

A ponto de, sinceramente,desejar a solidão, velha conhecida.

Acho que na verdade, eu não desaprendi nada.
Eu nunca soube a linguagem com que os homens se comunicam.


Apesar do esforço....

11.12.07

Primeiro dia em que me senti de férias... Normalmente, semanalmente, a terça- feira é um dia em que falo feito uma radialista louca no breve período entre 9 da manhã e 7 da noite. Saio rouca, mal humorada, não consigo ler... E quanto mais trabalho, mais dá vontade de beber no fim do dia. Nunca consigo ir para casa na terça - feira...
Hoje não... acordei tarde, tomei um café meio esfumaçado demorado, fui até a feira comprar peixe ( e voltei correndo... gosto, mas me atordoa), dormi um pouquinho, li um texto e depois me joguei em um romance que está há um tempo me olhando da prateleira.
"A Dor"- Marguerite Duras. Adoro romances de fundo histórico militante, e esse é biográfico. Principalmente aqueles da série que tem amores entre companheiros comunistas. Esse é outro. Sobre a resistência francesa.
No entanto, depois que a moça sofre metade do livro esperando a volta do seu companheiro preso em um campo de concentração, toda a agonia pós desocupação da França pelos exércitos nazistas, todo o desespero de não saber se o moço está vivo ou não... O que mais me impressionou, foi a segunda parte.
A mocinha quase fofa do começo, tortura violentamente um delator colaborador da Gestapo. Impressionante. Parece outra pessoa. Brava. Sem pena.Com ódio. Dura. Faz o que tem que ser feito e acabou.

Parei na última parte, quando ela começa a se relacionar com outro companheiro. Não consegui.

Não consegui parar de pensar se eu seria capaz de torturar alguém. Mesmo que esse alguém seja um filha da puta. Achava até agora a pouco que tinha uma listinha de pessoas que eu mataria com requintes de crueldade por questões pessoais e políticas sem pestanejar. Já não sei mais.

Se acho tão certo que algumas pessoas não merecem viver (e eu acho), então teoricamente, deveria também ser capaz de executar tal função, com os meios que precisar.
Mas hoje, pensei que nem com todo minha raiva acumulada, eu seria capaz de algo tão violento. Talvez fosse capaz de matar com arsênico, tiro na nuca ou coisa assim. Mas tortura é outra pegada.

Me senti covarde. Não é porque não temos agentes da Gestapo pelas ruas, que vivemos em um mundo muito melhor.
E se o caos chegar? E se eu precisasse pegar em uma arma? Ou pior: ter nas mãos alguém que sabe e precisa falar.
Por agora, tudo bobagem da minha cabecinha que vive um pouco no mundo de agora, um pouco no mundo da literatura .

Mas e se fosse uma guerrilha? Será que eu pediria para ficar só na ala da enfermagem?

2.12.07

Muito bem... Agora foi...
Corinthians na segundona... Justamente durante o jogo, muita gente a minha volta sofrendo e outros comemorando. Isso porque o Timão não admite meio termo, ele é meio como o Maluf. Ou se vota sempre, ou não se vota nem para síndico.
Enfim, vi até o Rubão, um puta negão gigante, chorandinho de canto. Bom, nessa, eu e um companheiro resolvemos criar algumas justificativas para aqueles chatos, principalmente são paulinos e palmeirenses que vão passar o ano enchendo o saco...

- Vai ser muito legal dar rolê pelo interior... Jogar contra times tradicionais e injustamente pouco reconhecidos como o Ipatinga, o Ponte Preta, o Ituano. Quer dizer, o Ituano não porque ele foi para a terceira.
- Se continuarmos assim, logo, logo, poderemos ir fazer um churrasco em Piedade e assistir o Corinthians jogar contra o glorioso Caveira dos Anjos.
- Primeira divisão é pra burguês que gosta de espetáculo. Legal é time de várzea, segundona... Tipo o grande "Bem Bolado" do Parque Edu Chaves...
- Os pais que torcem para times diferentes, tipo pai corinthiano e mãe santista, agora não precisam mais disputar: Torce para um de primeira divisão, e um de segunda, ué!
- A Globo não tem mais o público da Gaviões garantido. Se quiser, agora vai ter que transmitir de Marília.
- Os ingressos são mais baratos.
- O futebol da série B, por serem times considerados de menor importância, são menos visados pela máfia da Cartolagem.

E principalmente: Agora eu quero ver quem é quem. Na hora da merda é que dá pra ver quem é corinthiano mesmo.
Gostar do que está em alta é fácil... Quero ver ser leal nas dificuldades e fudidas. Esses geralmente são os momentos mais fortemente registrados na trajetória...
E como será que vamos lembrar disso?

29.11.07


Fui muito educada pela dor. Pelo menos é assim que minha memória coloca as coisas. Realmente nunca achei a alegria muito pedagógica. Nem nunca gostei muito de gente muito feliz. Achava-as medíocres. Como podiam parecer tão alegres em um mundo tão ruim? Será que só a minha vida era uma merda?
Minha alegrias momentâneas sempre foram os resultados da dor, seus produtos. Tentar ser artista quando ainda era jovem, escrever, ler, beber, ter relações confusas que acabavam em reencontros calorosos... Tudo muito. Tudo intenso. Não tinha medo não. Não tava nem vendo porque tudo valia a pena.

Sempre preferi a dor ao tédio. Sempre achei que podia ser mais forte do que ela porque a sensação de superação, deixava um ar de heroísmo. Era como se o tempo todo eu dissesse: Pode vir, mas vem com toda a força porque não é qualquer merdinha que me derruba. E não derrubava. Podia me jogar na lona por uns dias, mas dali a pouco, lá estava eu caçando confusão. Andando com gente errada. Brigando até as lágrimas. Provocando deuses e pessoas.

Mas acho que cansei. Não da tristeza, porque ela é minha e sempre vai ser. Nunca vou saber viver sem ela. Nunca vou ser alegre. Não seria eu, seria outra que faria outras coisas, de outra forma. Mas cansei de tentar ser maior do que ela. Depois de anos de árduas batalhas, perdi e não quero mais brincar. Quero que ela saiba que perdi e assim me deixe em paz, fique quieta, ali no cantinho dos que existem, mas nem sempre são lembrados.

Ontem ouvi uma voz da sapiência que me perguntou: Por que você se castiga?
E hoje li um texto de alguém que me faz muita falta que falava de medo. Medo da morte.
No fim, o medo explica muita coisa.
Sempre tive muito medo da morte em vida. Daquela morte lenta que se constrói todo dia. De ficar anestesiada, transparente no mundo, burocrata com a emoção.


Talvez a felicidade me passe essa idéia. De que estar feliz é estar morrendo para todo o resto. É acomodar-se e definhar no desejo satisfeito. Parar de buscar saídas, coisas novas, alegrias intensas momentâneas e que trazem a ressaca da dor que ensina.

Meu amor da pequena Londres... Como estou errada e cansada disso tudo. Como eu queria agora estar frágil, fraca e feliz no teu colo. Sem superar nada...

Queria só que nosso sal compartilhado, redimisse nossa tristeza e nos desse a mediocridade dos que riem feitos bobos para o mundo. Só isso. Besta assim.

23.11.07

Como a noite descesse...


Como a noite descesse e eu me sentisse só, só e desesperado diante dos horizontes que se fechavam
gritei alto, bem alto: ó doce e incorruptível Aurora! e vi logo
só as estrelas é que me entenderiam.

Era preciso esperar que o próprio passado desaparecesse,
ou então voltar à infância.
Onde, entretanto, quem me dissesse
ao coração trêmulo:
- É por aqui!

Onde, entretanto, quem me dissesse
ao espírito cego:
- Renasceste: liberta-te!

Se eu estava só, só e desesperado,
por que gritar tão alto?
Por que não dizer baixinho, como quem reza:
- Ó doce e incorruptível Aurora...

se só as estrelas é que me entenderiam?

Sobe
Emilio Moura

21.11.07

O Rio continua lindo...

Pois é... O Rio, além de lindo dá dessas... 500,00 paus e você sai limpo da delegacia, de onde você também ligou para pedir o resgate. Reprimir classe média (principalmente a alta) nos termos da lei não dá e não compensa: Se matar, o pai e mãe fazem passeata pela paz, pela redução da menoridade penal, a favor da pena de morte e o escambau.

Se levar para a delegacia, em meia hora tem um advogado, "dotô", que vai lá, humilha, faz um escarceu e solta o menino porque filho de pobre é viciado e ladrão, portanto tem que ir preso. Já filho de classe média e rica vai para a clínica de recuperação.

E nessa a galera, quer dizer, os puliça, resolvem aplicar sua própria punição que além de dar menos trabalho e dor de cabeça, ainda rende o complemento do orçamento. E desconfio que, em termos de "eficiência" pedagógica, até funcione melhor.
Cada um correndo como dá... Uns pagando pra não ter preocupação. Outros recebendo pelo mesmo motivo... E ainda ficando momentaneamente menos pobre ...
Até aqui nenhuma novidade... Mas é que escutar uma história assim, em primeira pessoa vivida e experimentada, num churrasco de amigos, sempre faz pensar de que lado que a gente tá mesmo no mundo... Goste ou não.
E quando ferver, não vai adiantar levantar bandeirinha de socialista não ....
O que é o que é??

Clara e salgada,
cabe em um olho e pesa uma tonelada,
tem sabor de mar,
pode ser discreta,
inquilina da dor,
morada predileta.,
na calada ela vem,
refém da vingança,
irmã do desespero,
rival da esperança,
pode ser causada por vermes e mundanas
ou pelo espinho da flor,
cruel que vc ama,
amante do drama,
vem pra minha cama,
por querer, sem me perguntar me fez sofrer,
e eu que me julguei forte,
e eu que me senti,
serei um fraco,
quando outras delas vir,
se o barato é louco e o processo é lento,
no momento,
deixa eu caminhar contra o vento,
do que adianta eu ser durão e o coração ser vulnerável,
o vento não, ele é suave, mas é frio e implacável,
(é quente) borrou a letra triste do poeta,
(só) correu no rosto pardo do profeta.
Verme sai da reta,
a lágrima de um homem vai cair,
esse é o seu B.O. pra eternidade,
diz que homem não chora,
ta bom, falou ou vai pra grupo irmão ai
Jesus chorou !

O post é repetido... como a minha vida.