Um dia a gente acaba constatando que é assim.
Assim como?
Assim, desse jeito meio esquisita, meio torta, meio alegre, meio triste
E percebe que perdeu mais tempo tentando ser meio certa, do que aproveitando o meio de fianco.
E entende que ama desse jeito. E que assim como não adianta ficar brava porque esqueceu o cigarro ao lado do café, porque não terminou de ler a tempo o que deveria, porque deliciosamente ficou de pernas pro ar e não lavou roupa.
Também não precisa emburrar por dias e esvaziar mais garrafas
tentando rir
Vai é acabar chorando e andando.
Como num consolo, é bom saber que se é assim.
Que gosta de pagode, e Cartola, por favor, prefiro em casa.
que choro muito em filme,
falar sobre ele, só ser for necessário,
ou a companhia muito boa
Que moço bonito demais, geralmente sabe que é bonito demais
e que sua vida foi mais fácil por conta disso
Então não gosto.
Que café é bom mesmo sem açúcar. Isso aprendi.
Principalmente de ressaca, que por vezes, pode não ser tão ruim, mas um importante momento pra se pensar na eterna luta eu e o mundo
E gosto de muita farinha no feijão,
molhado, prefiro beijos
e amo o que não é perfeito, nem se esforça pra ser
e que tem, do alto da soberba, aquela pedância orgulhosa que só o que é dito
feio pode ter.
Pra você? Só se eu quiser.
E acabei de perceber/saber que esqueci a chave no portão.....
27.3.07
25.3.07
Domingo no meu mundo
Coisa estranha essa de caminhar pela vida. Estranho essa de se ver, de se olhar, e perceber-se alheia e descolada de todo o contexto a sua volta. Os historiadores, aliás, adoram essa palavra: contexto. Teoricamente, dialogamos com o "onde" estamos inseridas. Pode ser um lugar, pode ser uma situação com pressupostos x, pode ser uma situação o com pressupostos y, enfim, tudo varia de acordo com os elementos que se confrontam naquele momento. Quase um jogo matemático. Probabilidade.
Pode ser que eu deteste alguma coisa, mas naquele momento harahara de harmonia e encontro dos astros, aquilo pareça / seja bom, não é isso?
Não se o lugar for a Vila Madalena. Ela é devastadoramente desesperante. Ela reúne o que há de pior e melhor no mesmo espaço . E eu? Por que eu estou ali? O que me aproxima desse lugar, dessas pessoas,o que nesse cenário específico, permite que eu faça parte da alegoria? Por que eu sou aceita, enquanto tantos não são ? Por que eu posso, o que em mim me aproxima da calhordice dessa casta? Da massificação e padronização travestida de diferente? Na Vila, diferente é ser igual. Quanto mais diferente mais igual. Quanto mais se luta pela diferenciação, individualização e exclusividade do indivíduo, mais esses se assemelham a um grande rebanho colorido....
Eles? E eu? Não estava lá?
Estava. Enchi a cara. Dei risada. Fiquei absurdada. Detestei tudo. Mas adorei a música e o músico. Pedimos o resgate. Fomos para casa. Eu e Raquel. Com uma leve ressaca moral dos surtos de espontaneidade insuflada pelo álcool. Mas tudo bem. Ele não vai ligar mesmo. Ele é de lá, estava perfeitamente encaixado.
Mas e eu? Por que eu insistia em me achar diferente? Por que eu não estava? Por que eu achava que não fazia parte do mundo dos ursinhos carinhosos e coloridos que ouvem samba?
Delícia tomar café. Dar risada de ontem. Saber que falou demais. Ressaca, tonteira.
E então, a frase cabalística que me situou. A frase com a qual me sentia em casa. Alocada. Que me libertou do meu desconhecimento e sensação de flutuar e não fazer parte do mundo. De algum lado. E de algum mundo....
- Meu filho não vai estudar em nenhuma escola que tenha QUALQUER projeto pedagógico.
Sai de lá e flutuei. Mas agora de contente. Contente por ser essa, e não aquela, a minha gente.
Pode ser que eu deteste alguma coisa, mas naquele momento harahara de harmonia e encontro dos astros, aquilo pareça / seja bom, não é isso?
Não se o lugar for a Vila Madalena. Ela é devastadoramente desesperante. Ela reúne o que há de pior e melhor no mesmo espaço . E eu? Por que eu estou ali? O que me aproxima desse lugar, dessas pessoas,o que nesse cenário específico, permite que eu faça parte da alegoria? Por que eu sou aceita, enquanto tantos não são ? Por que eu posso, o que em mim me aproxima da calhordice dessa casta? Da massificação e padronização travestida de diferente? Na Vila, diferente é ser igual. Quanto mais diferente mais igual. Quanto mais se luta pela diferenciação, individualização e exclusividade do indivíduo, mais esses se assemelham a um grande rebanho colorido....
Eles? E eu? Não estava lá?
Estava. Enchi a cara. Dei risada. Fiquei absurdada. Detestei tudo. Mas adorei a música e o músico. Pedimos o resgate. Fomos para casa. Eu e Raquel. Com uma leve ressaca moral dos surtos de espontaneidade insuflada pelo álcool. Mas tudo bem. Ele não vai ligar mesmo. Ele é de lá, estava perfeitamente encaixado.
Mas e eu? Por que eu insistia em me achar diferente? Por que eu não estava? Por que eu achava que não fazia parte do mundo dos ursinhos carinhosos e coloridos que ouvem samba?
Delícia tomar café. Dar risada de ontem. Saber que falou demais. Ressaca, tonteira.
E então, a frase cabalística que me situou. A frase com a qual me sentia em casa. Alocada. Que me libertou do meu desconhecimento e sensação de flutuar e não fazer parte do mundo. De algum lado. E de algum mundo....
- Meu filho não vai estudar em nenhuma escola que tenha QUALQUER projeto pedagógico.
Sai de lá e flutuei. Mas agora de contente. Contente por ser essa, e não aquela, a minha gente.
19.3.07
Sessão nostalgia
Pois é... fui obrigada a ler uma biografia inteira do camarada Renato Russo. De quebra acabei mexendo de novo naqueles cd´s do fundo da armário que a gente só guarda pensando que, no caso de ter filhos, é um documento importante da sua adolescência para mostrar para eles. Lembrei porque eu gostava tanto do cara. Era o mais próximo do romântico confuso com pitadas políticas que eu conhecia. Gostava mesmo. Ouvindo os discos, constatei que ainda sei a maioria das letras de cor. Eu era uma adolescente deprimida que gostava de fossa. O Renato também era uma adolescente deprimido... só que com 22 anos a mais do que eu.
Petróleo do Futuro
Legião Urbana
Ah, se eu soubesse lhe dizer o que eu sonhei ontem à noite
Você ia querer me dizer tudo sobre o seu sonho também
E o que é que eu tenho a ver com isso?
Ah, se eu soubesse lhe dizer o que eu vi ontem à noite
Você ia querer ver, mas não ia acreditar
E o que é que eu tenho a ver com isso?
Filósofos suicidas
Agricultores famintos
Desaparecendo
Embaixo dos arquivos
Ah, se eu soubesse lhe dizer qual é a sua tribo
Também saberia qual é a minha, mas você também não sabe
E o que é que eu tenho a ver com isso?
Ah, se eu soubesse lhe dizer o que fazer pra todo mundo ficar junto
Todo mundo já estava há muito tempo
E o que é que eu tenho a ver com isso?
Sou brasileiro errado
Vivendo em separado
Contando os vencidos
De todos os lados
Petróleo do Futuro
Legião Urbana
Ah, se eu soubesse lhe dizer o que eu sonhei ontem à noite
Você ia querer me dizer tudo sobre o seu sonho também
E o que é que eu tenho a ver com isso?
Ah, se eu soubesse lhe dizer o que eu vi ontem à noite
Você ia querer ver, mas não ia acreditar
E o que é que eu tenho a ver com isso?
Filósofos suicidas
Agricultores famintos
Desaparecendo
Embaixo dos arquivos
Ah, se eu soubesse lhe dizer qual é a sua tribo
Também saberia qual é a minha, mas você também não sabe
E o que é que eu tenho a ver com isso?
Ah, se eu soubesse lhe dizer o que fazer pra todo mundo ficar junto
Todo mundo já estava há muito tempo
E o que é que eu tenho a ver com isso?
Sou brasileiro errado
Vivendo em separado
Contando os vencidos
De todos os lados
2.3.07
Embriaguem-se
É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.
Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.
E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vega, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão:
“É hora de embriagar-se”! Para “não serem os escravos martirizados do tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso” Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.
Charles Baudelaire
28.2.07
Amores pela vida...
Ontem me emocionei ao conversar com um grande amor. Conversamos sobre a separação, sobre o romantismo dele e a minha frieza de racionalista louca... Ele não me perdoou por eu não ter acreditado em nós dois e casou. Está feliz e agora achando que louco era ele por acreditar, não eu por desistir. E eu ando em dúvida se o que fiz valeu a pena.
Nos chamávamos de amante-amigo, porque antes de amantes fomos muito amigos e depois de amantes, continuamos amigos. Pensamos em nos ver, mas desisti. Agora ele só quer a amiga, e eu não quero só a metade.
Hoje é aniversário de outro grande amor, que também cansou de só ser meu amante, e resolveu namorar uma mocinha bonitinha, comportada e que lhe dá trabalho. Acho que anda com saudade de nossa inconsequência, do nosso amor de anos sem se declarar amor, sem chamar de nada, sem rotular e sem cobrar... mas também sem viver junto, sem dividir os problemas, sem companheirismo.
E eu ando com saudades de todos eles...
Tomei cerveja com outro no sábado. Assisti a banda de outro tocar.
Tenho saudades de todos..... acho que não aguento perder nenhum deles. E sem ser a namorada, é mais fácil saber deles sem mágoa e sem que ninguém me cobre um desprendimento com minha própria vida que não sou capaz de ter. Nenhum deles conseguiu ser mais importante do que eu mesma. Nenhum dos meus mais belos amores conseguiu me suprimir. Sofria tanto por isso, que achava que não era amor, que eu nunca seria capaz de ter uma vida dedicada ao outro e por isso não amava a ninguém.
Amo sim. E muito.
Amo tanto, que não quero obrigá-los a me conhecer inteira, eles podem não gostar muito do que vão ver. Por enquanto não, e não sei se um dia acontecerá.
Acho que por agora, desisti do tal do grande amor de todo dia.
Porque não sei se eu quero mesmo, ou se o mundo me obriga a sentir falta de algo que nunca tive.
- Quem sabe um dia mulher.... quem sabe um dia....
Nos chamávamos de amante-amigo, porque antes de amantes fomos muito amigos e depois de amantes, continuamos amigos. Pensamos em nos ver, mas desisti. Agora ele só quer a amiga, e eu não quero só a metade.
Hoje é aniversário de outro grande amor, que também cansou de só ser meu amante, e resolveu namorar uma mocinha bonitinha, comportada e que lhe dá trabalho. Acho que anda com saudade de nossa inconsequência, do nosso amor de anos sem se declarar amor, sem chamar de nada, sem rotular e sem cobrar... mas também sem viver junto, sem dividir os problemas, sem companheirismo.
E eu ando com saudades de todos eles...
Tomei cerveja com outro no sábado. Assisti a banda de outro tocar.
Tenho saudades de todos..... acho que não aguento perder nenhum deles. E sem ser a namorada, é mais fácil saber deles sem mágoa e sem que ninguém me cobre um desprendimento com minha própria vida que não sou capaz de ter. Nenhum deles conseguiu ser mais importante do que eu mesma. Nenhum dos meus mais belos amores conseguiu me suprimir. Sofria tanto por isso, que achava que não era amor, que eu nunca seria capaz de ter uma vida dedicada ao outro e por isso não amava a ninguém.
Amo sim. E muito.
Amo tanto, que não quero obrigá-los a me conhecer inteira, eles podem não gostar muito do que vão ver. Por enquanto não, e não sei se um dia acontecerá.
Acho que por agora, desisti do tal do grande amor de todo dia.
Porque não sei se eu quero mesmo, ou se o mundo me obriga a sentir falta de algo que nunca tive.
- Quem sabe um dia mulher.... quem sabe um dia....
23.2.07
Carnaval no barril de pólvora.....

Minha gente...o Rio de Janeiro é realmente lindo.... Não é a toa que aquele pessoal endinheirado da bossa nova só queria saber de beber um visqui e olhar pro mar.... E cada vez mais me convenço que moro na cidade mais feia, cinza e insalubre do mundo.
Além da paisagem, descobri que, lindamente, os cariocas são otemos em seu habitat natural. Gentis, simpáticos, de braços para o mundo e não odeiam loucamente os paulistas. Pelo contrário, apenas nos acham neuróticos e feios, brancos e com barriga. No fundo, o carioca tem pena da gente e por isso é até solidário....
Mas além de tudo, passar o carnaval em um barril de pólvora é no minímo uma experiência interessante. Tem muita coisa para pensar o tempo todo. Enquanto no bloco toca o bom e velho “chegou a turma do funil.... todo mundo bebe, mas ninguém dorme no ponto...”, ao lado tem um gringo passa mal achando que realmente chegou na Babilônia colorida e com muito sol. São detestáveis e onde eles chegam, em lugares com atrativos para eles, para a gente só resta duas posições: odia-los ou se comportar idiotamente como os tais, tratando todos os pretos que vendem cerveja como seus escravos do subdesenvolvimento que deveriam agradecer pela mão estendida via consumo. São os imbecis que vem para cá procurar as belas putas cariocas e pisar em muleques pretos que se esgueiam para recolher uma latinha entre as pernas brancas.
Em outros lugares, o carnaval é dos cariocas e, nós, turistas, somos apenas o detalhe. Aí é um sururu lêlê! Divertido, esbórnia, como todo carnaval deveria ser.
Além do carnaval em si, a distribuição espacial da cidade merece bem algumas cervejas de discussão.
No Rio, a praia,enquanto espaço público, horizontaliza as relações e permite maior harmonia entre as classes.
Hahahahahaha
Essa é a maior chacota da era. Os espaços, apesar de públicos e abertos, deixam bem claro quem é quem. Quem serve e quem é servido. Nós e eles. Sempre.
O fato é que a ideologia dominante, aquela que prega trabalho, seriedade e mais trabalho, funciona muito. Apesar do famoso jeitinho, da corrupção praticamente inerente as relações e presente em tudo ( já que tudo parece facilmente negociável), a galera quer muito trabalhar. De qualquer jeito. Se realmente, como apregoam os sociólogos positivistas que associam diretamente pobreza e barbárie, todos os pobres que não tivessem acesso a lenda da oportunidade, fossem se tornar traficantes, ladrões ou arrastadores de criancinhas para fora de carros.... meu irrrmão, aí a galera ia ver o que é a chapa ixquentar.
Se realmente o ser humano fosse um ser estúpido, sem escolhas e absolutamente determinados apenas por seu meio material, o barril de pólvora já tinha explodido e de um jeito muito feio. As favelas, os rastilhos de pólvora, estão incrustados dentro dos limites da cidade onde o dinheiro circula de fato, e não nas rebarbas como em São Paulo. São focos de miséria no meio da fartura ostensiva. Ou seja, a contenção (repressão policial e pensamento único baseado em uma moral escrota e burguesa) é muito eficiente, porque dado o grau de diferenciação social convivendo em espaços muito próximos.... Bom, fica a cargo do leitor pensar o que poderia ser o mundo (ou simplesmente o Rio) sem a rede globo e suas novelas que mostram os dramas da elite carioca e a subserviência dos empregados sem vida própria, limpos e felizes por terem a oportunidade de serem serviçais daquela gente tão bonita...
Além da paisagem, descobri que, lindamente, os cariocas são otemos em seu habitat natural. Gentis, simpáticos, de braços para o mundo e não odeiam loucamente os paulistas. Pelo contrário, apenas nos acham neuróticos e feios, brancos e com barriga. No fundo, o carioca tem pena da gente e por isso é até solidário....
Mas além de tudo, passar o carnaval em um barril de pólvora é no minímo uma experiência interessante. Tem muita coisa para pensar o tempo todo. Enquanto no bloco toca o bom e velho “chegou a turma do funil.... todo mundo bebe, mas ninguém dorme no ponto...”, ao lado tem um gringo passa mal achando que realmente chegou na Babilônia colorida e com muito sol. São detestáveis e onde eles chegam, em lugares com atrativos para eles, para a gente só resta duas posições: odia-los ou se comportar idiotamente como os tais, tratando todos os pretos que vendem cerveja como seus escravos do subdesenvolvimento que deveriam agradecer pela mão estendida via consumo. São os imbecis que vem para cá procurar as belas putas cariocas e pisar em muleques pretos que se esgueiam para recolher uma latinha entre as pernas brancas.
Em outros lugares, o carnaval é dos cariocas e, nós, turistas, somos apenas o detalhe. Aí é um sururu lêlê! Divertido, esbórnia, como todo carnaval deveria ser.
Além do carnaval em si, a distribuição espacial da cidade merece bem algumas cervejas de discussão.
No Rio, a praia,enquanto espaço público, horizontaliza as relações e permite maior harmonia entre as classes.
Hahahahahaha
Essa é a maior chacota da era. Os espaços, apesar de públicos e abertos, deixam bem claro quem é quem. Quem serve e quem é servido. Nós e eles. Sempre.
O fato é que a ideologia dominante, aquela que prega trabalho, seriedade e mais trabalho, funciona muito. Apesar do famoso jeitinho, da corrupção praticamente inerente as relações e presente em tudo ( já que tudo parece facilmente negociável), a galera quer muito trabalhar. De qualquer jeito. Se realmente, como apregoam os sociólogos positivistas que associam diretamente pobreza e barbárie, todos os pobres que não tivessem acesso a lenda da oportunidade, fossem se tornar traficantes, ladrões ou arrastadores de criancinhas para fora de carros.... meu irrrmão, aí a galera ia ver o que é a chapa ixquentar.
Se realmente o ser humano fosse um ser estúpido, sem escolhas e absolutamente determinados apenas por seu meio material, o barril de pólvora já tinha explodido e de um jeito muito feio. As favelas, os rastilhos de pólvora, estão incrustados dentro dos limites da cidade onde o dinheiro circula de fato, e não nas rebarbas como em São Paulo. São focos de miséria no meio da fartura ostensiva. Ou seja, a contenção (repressão policial e pensamento único baseado em uma moral escrota e burguesa) é muito eficiente, porque dado o grau de diferenciação social convivendo em espaços muito próximos.... Bom, fica a cargo do leitor pensar o que poderia ser o mundo (ou simplesmente o Rio) sem a rede globo e suas novelas que mostram os dramas da elite carioca e a subserviência dos empregados sem vida própria, limpos e felizes por terem a oportunidade de serem serviçais daquela gente tão bonita...
Ou apenas, sem o caveirão que metralha pessoas como se fossem pombas.
12.2.07
Aprender a olhar

"Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim."
Cecília Meireles
Hoje estou tentando descobrir como olhar o mundo. Tudo tão esquisito, mal vivido, que não sei nem se estou contente ou triste. O cabelo nem enrolado nem liso, a vontade nem assumida nem escondida, e essa maldita espinha no queixo que não me permite olhar o que tem atrás. Não sei se é drama, ou se realmente tenho um problema sério. Não sei mais se devo me levar a sério, nem a quem levar a sério, nem se levo alguém a sério. Quando me olho, não percebo o errado, apenas o ser vivido, sem viver. Olho para mim e não percebo nada. E quando olho o mundo tenho percebido apenas um otimismo duro. Otimismo porque há muito o que fazer e duro pelo o que é ser humano, pelo trágico-belo existir.
Hoje não sei se as pequenas felicidades existem e eu não consigo enxergar. Não sei de nada, tão vazia, que parece que tenho que reapreender. A falar, a me relacionar, a pensar a vida cogitando a existência do amor. Esse que por vezes, deixa a paisagem da janela tão bonita.
Hoje, assumo que não tenho coerência. Nem eu, muito menos o que escrevo.
Hoje só queria ver tudo mais bonito. E me sentir menos sozinha no meio de todo mundo.
Da próxima vez, se eu puder escolher, quero é ser engraçada.
5.2.07
Quando se tem que ir....

Pois é... apesar do olhar que sorri na paisagem, essa foto, o indivíduo em aparente harmonia com o mundo que o cerca, me lembrou despedida, desencontro. Lembro quando chorei, da janela de um ônibus, apenas com o adeus de uma senhora que se despedia de um casal com duas criancinhas, e que enfrentariam, com muitas e muitas malas, tantas horas de viagem quanto eu. Apenas não consegui pensar que eles estavam de férias como eu. A senhora chorava e eles, ficaram na janela até a curva que definitivamente limparia as lágrimas da paisagem. Pensei que o casal parecia estar se mudando, procurando algo em algum outro lugar, já que ali não havia. Procurando emprego provavelmente, porque pessoas amadas estavam ali. A senhora chorando na saída da rodoviária, e eu chorando por todos aqueles que precisam deixar sua casa, sua cultura e seus amores, para buscar dinheiro, a suposta oportunidade de vida melhor e que geralmente não se realiza, apenas mais uma ilusão dentro dos muitos mitos de ascensão e mudança de vida.
Pensando um pouco nisso, e na máxima do mundo globalizado que é ver bolivianos, sendo explorados por coreanos em São Paulo, fui até a Cantuta, feira de imigrantes bolivianos. Vi comidas típicas, músicas tradicionais, pessoas se encontrando.... mas principalmente vi tristeza, acanhamento, dificuldade de lidar com a língua.... vi apenas estrangeiros deslocados e mal recebidos, mal tratados em meio as placas que anunciavam facilidades para fazer ligações e enviar dinheiro para casa. Enviar dinheiro? Daqui?
Muito mais triste e desolador do que imaginar as dificuldades que atravessam a vida dessa gente, é pensar que essa merda, muito provavelmente, ainda é melhor do que as condições de vida da qual saíram.
O maldito do dinheiro separa famílias não em nome de uma nova forma de ver o mundo, de novos valores de libertação, mas em nome da sobrevivência que ainda assim, permanece humilhante e indigna.
E enquanto isso, do alto da miséria humana que controla o mundo, permanece a proliferação da ideologia de que agora, não existem mais fronteiras, de que o mundo é livre para que circulemos por ele em busca das melhores oportunidades. Enquanto nas rodoviárias, só se vê sonhos ludibriados e fronteiras cada vez mais claras e impostas. Segregados não apenas pela origem de seus rostos e costumes, mas essencialmente, pela miséria que grita em todo o seu ser.
31.1.07
Para a esquerda e para frente.
Muita vontade de escrever mais. Mas o mais de um sempre quer dizer menos de outro, portanto nesses dias, fiquei ocupada com a vida pratica e nao pude escrever. Agora que ja voltei a trabalhar, tenho tempo porque sou muito boa em parecer ocupadissima quando estou escrevendo no blog aqui da sala dos professores. Pena que o teclado esta desconfigurado. Outra hora, escrevia em um teclado que nao tinha nossos acentos. E com muita pressa. Agora sem pressa porque tenho horas para cumprir, mas ainda sem acento. Ou seja, de volta a vidinha.
Queria escrever tanta coisa sobre Buenos Aires, gostei tanto de la, da forma como os padroes do que e a dignidade humana parecem melhores. Da relacao entre a populacao e os espacos e servicos publicos que, mesmo tambem deficientes em diversos aspectos, estao anos luz a frente de Sao Paulo, a capital do caos. O fato e que apesar de inumeros episodios que merecem ser lembrados aqui, o que mais tem ocupadao minha cabeca e a porra do Estado, do tal do governo, aquele la longe, abstrato e protegido em Brasilia. Realmente era muito impressionante para alguem que nao conhece a capital do seu proprio pais, lembrar diversas vezes durante o dia que o poder constituido estava ali, na minha frente ou a 15 minutos dali.
- Nossa, que linda a sede do Ministerio da Cultura.
- Deve ser porque e a sede do Ministerio e nao da Secretaria da Provincia.
- Puts, e mesmo.... e a nossa fica onde (pergunta em um teclado desconfigurado)
- Em Brasilia, ne. Ou seja, no meio do nada com lugar nenhum.
- E a necessidade de integrar o territorio, a nacao. (pode ser ou nao uma pergunta, fica ao gosto do leitor)
- Sei....
Alem da questao geopolitica, depois de passar duas semanas ao lado de um anarquista ortodoxo, que no meio de uma pizzaria me acusou de bolchevique, encontramos amigos recem chegados de mais um classico reduto de turismo politico. A bolha socialista perdida no turismo predador (existe outro tipo? aha, achei o ponto de interrogacao...progressos), ou seja, a Cuba do comandante Fidel.
- Porra, um puta Estado autoritario, sem noticias porque todo dia e alguma data memoravel dos tempos do inicio da Revolucao, mas que garante os direitos basicos do cidadao... No que isso difere do Estado do bem estar social?
- Na solidariedade e espirito de coletividade das pessoas.
Me emocionei um pouco quando ouvi isso.
E aqui? E no resto da America Latina? Onde a dobradinha assistencia e repressao nao existem, onde ficamos apenas no campo da porrada generalizada, com uma populacao que so ve o Estado como pulicia? Fiquei pensando que essa ideia de superar o Estado, de destrui-lo, e discussao para europeu e bons leitores da literatura anarquista. Como destruir o que nao existe para a maior parte da populacao?
- Poxa rapaz, voce sumiu, tava de role? (pergunta para um colombiano que depois de tentar me chutar no comercio ilicito do hostel, acabou virando um bom colega).
- Que nada. Estava internado. Fui picado no Brasil, fiquei com essa ferida que ficou feia porque os outros medicos me disseram que nao era nada. Ai o medico daqui raspou e fiquei tomando injecoes que precisavam de acompanhamento. E quer saber? Nao paguei nada no hospital. E sou estrangeiro. Se fosse na Colombia estava perdido porque me custaria x (nao lembro quanto) e nao tenho esse dinheiro. Se fosse estrangeiro, pior, ai e que estava ferrado mesmo.
O fato e que o atendimento nao foi gratuito. Foi publico. E isso a maior parte da populacao nao consegue conceber porque simplesmente nunca foi criado de fato. No caso do Brasil, o mais perto que chegamos da construcao de um Estado, foi a ditadura varguista. Depois, foi somente o desmonte liberal de uma tentativa timida e tosca do pacto conservador que buscava a anulacao das constradicoes de classes. E so isso.
Voltei pensando muito no quanto as politicas publicas sao importantes para que a ideia de ser assistido como retorno pelos impostos pagos faca sentido. Para que as pessoas sintam falta do atendimento publico quando ele piora. Para que briguem e se ofendam quando o onibus esta lotado, ou quando nao vem. Para que as escolas de qualidade possam por fim ser pensadas como um direito de todos, e nao apenas como um sistema paliativo para os pobres, como referencia do que e ruim para que aumentem as matriculas e os pais infelizes se matando de trabalhar e se privar para pagar a rede particular.
Enfim, para que uma hora possamos entender e enraizar em nossa cultura politica a ideia de cidadao, e todos os direitos basicos incutidos em tal conceito ainda tao vago para todos.
Precisamos ainda aprender que somos pessoas, e nao restos incapazes de um sistema falido, no qual aqueles que nao podem pagar pelos servicos privados ruins sao colocados como meros fracassados.
E para tanto, e preciso mostrar para esse poder que paira sobre nossas cabecas, que a demanda existe e esta mobilizada. Alias, nao esta, mas precisa estar. Nao se trata de eleger o cara que vai criar este Estado. Mas de fortalecer a populacao que vai bater de frente com essa estrutura amorfa. Antes disso, discutir se devemos ou nao ter um Estado e pura abstracao teorica que so faz sentido para nossas conversas, que apesar de muito qualificadas e essenciais para pensarmos nossas praticas locais e pessoais, eu, falando exclusivamente por mim e de minha pessoa, acho que definitivamente nao dialogam nem com a nossa realidade, nem com o atual momento historico do nosso pais e de alguns vizinhos bem interessantes.
17.1.07
Buenos Aires por favor!!!!
Estou tentando atualizar isso aqui mas está bem dificil.Ainternet aqui do hostel ena faixa, mas sempre tem fila como agora. Tambem, basicamente já aconteceu de tudo. A viagem deveria durar 36 horas e durou 40 e algumas, com direito a onibus empurrado pelos passageiros e duas trocas de carro. Ah, e claro que sempre tem um imbecil que faz literalmente merda no banheiro acabando com a vida e o humor de todos os outro passageiros. Um casal portenho teve surtos de nacionalismo quando viu a entrada da cidade: Este es mi pais! Buenos Aires por favor!!!
Bom nao contente, tudo lindo, divertidissimo com espanhol de sotaque italiano, os companheiros sao os melhores do mundo. Mas resolvemos adentrar o mundo da burguesia portenha e ai fudeu. Como em todo lugar de gente escrota, aquilo nao era para nós. Pela primeira vez na minha vida, eu que apesar de algumas atividades ilicitas nunca tinha tomado um enquadro da policia, vim me batizar em Buenos Aires. Ridiculamente m um plaza. Bolsa revirada e documento na mao do pulicia. Bosta. Raiva. E o pior e que foi algum morador escroto que fez a denuncia de estavamos fumando um. E eles obviamnete vieram pra cima de nosso amigo Tim (um dos 3 negros que vi em toda a cidade, sendo que um outro deles tambem era brasileiro) , quando quem tinha la droga, era um boy branco que morava nas redondezas do higienopolis daqui. Vai America Latina!!!!!
Bom, alem do que, o hostel é lotado de gringos (inclusive nós), sendo que em sua maioria, ou sao uns hippies que passam a vida tentando passar a perna nos amiguinhos do lugar, ou fazem a funcao do trafico (mais especificamente os colombianos) e uns europeus que vem para cá porque é barato, tem mujeres lindas e acessíveis e tambem porque.... é barato mesmo. Estao pouco se fudendo para a America Latina querem mais que isso aqui continue na merda, para que eles possam continuar trabalhando 6 meses e viajando 1 ano para um lugar exótico onde nao correm o risco de morrer de tédio. Os noruegueses e suecos amam isso aqui! E os portenhos amam os gringos e vendem todo o seu artesanato em milhoes de feiras que demonstram como é lindo e criativo o subdesenvolvimento.
Bom, o pessoal da fila já está espumando aqui do lado. Mas só para nao parecer que sou muito, muito ranzinza..... Viva o Maradona!!!!
Bom nao contente, tudo lindo, divertidissimo com espanhol de sotaque italiano, os companheiros sao os melhores do mundo. Mas resolvemos adentrar o mundo da burguesia portenha e ai fudeu. Como em todo lugar de gente escrota, aquilo nao era para nós. Pela primeira vez na minha vida, eu que apesar de algumas atividades ilicitas nunca tinha tomado um enquadro da policia, vim me batizar em Buenos Aires. Ridiculamente m um plaza. Bolsa revirada e documento na mao do pulicia. Bosta. Raiva. E o pior e que foi algum morador escroto que fez a denuncia de estavamos fumando um. E eles obviamnete vieram pra cima de nosso amigo Tim (um dos 3 negros que vi em toda a cidade, sendo que um outro deles tambem era brasileiro) , quando quem tinha la droga, era um boy branco que morava nas redondezas do higienopolis daqui. Vai America Latina!!!!!
Bom, alem do que, o hostel é lotado de gringos (inclusive nós), sendo que em sua maioria, ou sao uns hippies que passam a vida tentando passar a perna nos amiguinhos do lugar, ou fazem a funcao do trafico (mais especificamente os colombianos) e uns europeus que vem para cá porque é barato, tem mujeres lindas e acessíveis e tambem porque.... é barato mesmo. Estao pouco se fudendo para a America Latina querem mais que isso aqui continue na merda, para que eles possam continuar trabalhando 6 meses e viajando 1 ano para um lugar exótico onde nao correm o risco de morrer de tédio. Os noruegueses e suecos amam isso aqui! E os portenhos amam os gringos e vendem todo o seu artesanato em milhoes de feiras que demonstram como é lindo e criativo o subdesenvolvimento.
Bom, o pessoal da fila já está espumando aqui do lado. Mas só para nao parecer que sou muito, muito ranzinza..... Viva o Maradona!!!!
18.12.06
A suposta democracia de poucos e o fascismo de contenção pra muitos
Ultimamente tenho vivido uma vidinha bem provinciana. De verdade. Fico aqui no mundusp e esqueço um pouco de como é o pega pra capar do centrão, só para citar o mais próximo, o que já vivi e já me machucou muito. Morei no centro, pertinho do minhocão logo que vim para São Paulo. De Piedade com todos os seus 70 mil habitantes para a merda generalizada. Difícil. Para ir ao banco pegar minha mesadinha apertada era terrível... voltava com vontade de pular pela janela de minha espaçosa e agradável kitnet, que me obrigava a fugir para o banheiro no caso de querer mudar de ambiente. E fugi. Foi isso mesmo. Sabia que com o tempo acabaria amortecendo algumas coisas para continuar vivendo.... mas não quis. Queria sair dali, e não me acostumar. Até porque até desencanar um pouco, eu já teria quatro úlceras e um cerébro derretido por entorpecentes. Não dava.
Bom...lembrei disso porque hoje, companheira Juju e eu, passando por baixo do minhocão, nos deparamos com um carro da guarda municipal zelando por um caminhão de água e sua mangueira super potente. Na hora não entendi. De repente, percebemos com um grito de indignação que os jatos de água era para expulsar a galera que mora naquelas rampas embaixo do viaduto. Um senhor fugia da fúria da pressão da água com algumas coisinhas debaixo do braço.
Isso, esses putos chamam de revitalização e higienização. Limpar para que prevaleça a democracia, o direito da classe média e alta de frequentarem o centro sem encontrar esses pobres feios e sujos que ousam morar na rua. Ou seja, até a rua é para poucos, dado que mesmo privados de tudo, do direito constitucional à moradia, nem lá essas PESSOAS podem morar, porque esteticamente é feio.
Para eles, o fascismo declarado. Para nós, o fascismo democrático.
11.12.06
Para tirar a amargura de foco
Sei que exagerei um pouco na última escrivinhada. Mas naquele momento, era isso mesmo. Pensei em apagá-lo, mas me veio a idéia de que não seria honesto com minha própria memória virtual. Dessa forma, resolvi trocar minha amargura, pela melancolia do belo Murilo Mendes. Cantei mal minha tristeza. Então passo a bola para o poeta.
O homem, a luta e a eternidade
Adivinho nos planos da consciência
dois arcanjos lutando com esferas e pensamentos
mundo de planetas em fogo
vertigem
desequilíbrio de forças,
matéria em convulsão ardendo pra se definir.
Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades,
o mundo ainda é pequeno pra te encher.
Abala as colunas da realidade,
desperta os ritmos que estão dormindo.
À guerra! Olha os arcanjos se esfacelando!
Um dia a morte devolverá meu corpo,
minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins
meus olhos verão a luz da perfeição
e não haverá mais tempo.
O homem, a luta e a eternidade
Adivinho nos planos da consciência
dois arcanjos lutando com esferas e pensamentos
mundo de planetas em fogo
vertigem
desequilíbrio de forças,
matéria em convulsão ardendo pra se definir.
Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades,
o mundo ainda é pequeno pra te encher.
Abala as colunas da realidade,
desperta os ritmos que estão dormindo.
À guerra! Olha os arcanjos se esfacelando!
Um dia a morte devolverá meu corpo,
minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins
meus olhos verão a luz da perfeição
e não haverá mais tempo.
Murilo Mendes
7.12.06
O indivíduo no coletivo... ou como justificar a própria covardia.
Ao que remete a idéia de lealdade? Em um mundo no qual constantemente temos nossa subjetividade massacrada pelo fato de efetivamente estarmos inseridos em uma sociedade de massas, como construimos nossos valores? O que norteia a relação entre o indivíduo e o coletivo ?
Por muito tempo e por muitas vezes, me vi passando por cima dos meus preceitos, das minhas vontades, como forma de não magoar o outro. No entanto, suprimir o que temos de nosso também não caracteriza solidariedade nenhuma, não denota exatamente compaixão (não no sentido de piedade, mas de compartilhar os sentimentos) com a dor do outro, mas com a nossa mesma. Assumir determinadas posições e ser sincero é muito penoso, não afeta apenas o outro. Dessa forma, não ser sincero, significa poupar a nós mesmos da dor de causar o sofrimento no outro. Talvez nisso, esteja a deslealdade. Egoismo e não fraternidade de nos enxergarmos no outro. No fim das contas é mais fácil omitir e abrir mão da responsabilidade.
Por outro lado, temos sim influência direta sobre o bem estar do outro, e portanto temos que medir a forma como somos sinceros e leais. Caso contrário, a lógica do "se deus não existe, eu posso tudo" prevalece e em nome de uma suposta fidelidade, machucamos despropositadamente o outro, quando poderíamos ter sido mais delicados, mais sutis, evitar sofrimentos desnecessários. Qual o limite?
Não sei, de verdade. Mas hoje, me sentindo um pouco traída por pessoas que, querendo poupar o sofrimento (talvez mais o deles do que o meu) me omitiram problemas e verdades das quais eu gostaria de ter participado, mesmo que doesse. Acho que tentei ser leal, tentei fazer um exercício de sinceridade comigo e com os outros. Mas devo ter aparentado uma fragilidade tão grande (quando somos sinceros, nos expomos, e quando nos expomos, muitas vezes demonstramos nossas fraquezas) que deve ter parecido mais fácil me poupar de algumas coisas. Mas o sofrimento poupado, quando vem à tona, vem em dobro, porque traz um sensação de marido traído, uma sensação que remete a fidelidade, a um aspecto moral e não emocional das situações. Enfim, hoje estou preferindo que me contem tudo, doa o quanto doer. Porque as situações, as tristezas passam. Porém, a mágoa de que, naquela situação, pessoas me foram desleais fica. Hoje estou preferindo os trogloditas individualistas do que os falsos solidários. A verdade no lugar da omissão. Com os meus sentimentos, lido eu.
27.11.06
Sobre (ou sob) a vontade
A chuva, ao mesmo tempo que me deslumbra, dá uma sensação incrível de ser muito menor do que o mundo. A Aline está no meu colo, brigando para que eu não escreva porque ela quer carinho. Agora, escolhi desce-la porque não quero ser carinhosa, quero escrever. É sempre assim, quando quero puxar-lhe para junto de mim, recusa como se eu não a conhecesse, como se não a alimentasse todo dia. No entanto quando não a quero, alisa-me e fica dando cabeçadas pedindo que coloque minha mão sobre sua cabeça. Ela me lembra muitas outras situações em que fui incompatível com aqueles que tentaram gostar de mim. E também com aqueles de quem gostei. Nos desencontramos pela vida da mesma forma como eu e a gata Aline nos desencontramos pela casa. Acho que no fundo somos muito parecidas. Nós duas andamos procurando coisas nas horas erradas.
Está assustada com o trovão, deitou-se ao meu pé e desistiu. Minha vontade foi maior do que a dela, assim como por vezes, tenho a sensação de que uma vontade maior passa por cima da minha. Ela se resignou aos meus pés. E eu? Tenho me resignado diante de tantas coisas que vez ou outra tenho que me lembrar do que gosto e do que vale a pena brigar. Agora a chuva me prostrou de tal forma que não tenho vontade de me mexer. Quando conseguir lembrar do que existe além da cortina de água, quem sabe eu dance debaixo dela só para lhe mostrar que posso. Assim como a Aline enxergou que pode me vencer se ficar quietinha e me deixar fazer as duas coisas ao mesmo tempo : alisá-la e escrever. Assim como percebo que posso continuar, mesmo com a tristeza que me acompanha. Essa tristeza que hora ou outra, só para variar, até se mostra contente. Lembra que posso não estar completamente satisfeita, estar frustrada, sem estar prostrada diante de tudo. Assim como a Alininha, por meio da resignação, conseguiu contentar-se até sair dela e passar a ter um espaço definitivo. No meu pé, é fato. Mas ela pode ficar aqui até quando ela ou eu quisermos. Na resignação ela entendeu que a partir de um certo limite, do meu limite, a escolha passa a ser dela, não minha. Assim como daqui a pouco, essa tristeza que por enquanto faz com que eu desista, faça com que eu escolha, com que me sobreponha a simples vontade aparentemente imposta por uma mundo que não é fácil de ser vivido . Um pouco confuso? Pois é, no fundo só quero dizer que tudo uma hora cansa, até a tristeza, e que então chega a hora de lembrar das vontades e escolher para onde ir. A Aline também se cansou de ficar aos meus pés pedindo carinho, teve saudades do Che e foi buscá-lo. Para depois vir me chamar e dizer que ele estava preso no telhado do vizinho. Ela foi buscar o que lhe parecia melhor. E eu sai na chuva para ajudar o Che a sair de uma situação da qual, apesar de ter buscado sozinho, não conseguia sair. Aliás, sairia sim, mas demoraria mais. E para que sofrer mais do que o pedagógico se eu posso ir até lá ajudá-lo? Se ele tem a Aline que não o deixa nunca? Se tenho pessoas que também sairiam na chuva para me salvar.
Daqui a pouquinho, eu escolho.
21.11.06
Mais uma de Piedade....Tudo bem...
Só pela nostalgia despertada em responder insesantemente a mesma pergunta vinda de pessoas que realmente não se importam com a resposta... Salve a punkisse!
Oi, tudo bem?
Tudo bem, fora o tédio que me consome todas 24hs do dia
Fora a decepção do ontem, a decepção do hoje,e a desesperança crônica do amanhã !!!
Tenho vontade de chorar, raiva de não poder quero gritar até ficar rouco, quero gritar até ficar louco !!
Isso sem contar a ânsia de vômito,reação a tal pergunta idiota !!!!!
Fora tudo isso, tudo bem...
Oi, tudo bem?
Tudo bem, fora o tédio que me consome todas 24hs do dia
Fora a decepção do ontem, a decepção do hoje,e a desesperança crônica do amanhã !!!
Tenho vontade de chorar, raiva de não poder quero gritar até ficar rouco, quero gritar até ficar louco !!
Isso sem contar a ânsia de vômito,reação a tal pergunta idiota !!!!!
Fora tudo isso, tudo bem...
14.11.06
Ausência
Por muito tempo, ouvia teu nome e tudo latejava, perdia o sentido, estremecia... tristeza de saber pelos outros, de ter notícias longe de mim, sem que você me contasse, e muito menos que eu participasse. O estomâgo doia, a cabeça bagunçava e, chorona que sou, me debulhava em perguntas, nos porquês que nunca seriam respondidos, mas cuja solução é bem simples: Sente-se ou não amor, e na ausência desse, não há o que fazer, nem pelo que lutar. Pior para quem não entendeu, insistiu e sofreu. Pior para quem amou sozinha por tanto tempo. Para quem teve sua dor como companheira...
Mas depois de tempos, quando o nome volta aos ouvidos por uma dessas coincidências da má distribuição de renda, vem o alívio de não doer. Não disse não sentir, porque fará parte da memória. Mas não dói, não lateja, só faz parte de mim. E fará sempre.
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
C.D.A
8.11.06
Único diálogo possível - O molotov
Solidariedade para com a Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca. Para com aqueles que escondem o rosto para serem vistos. Nem que para isso tenham que queimar um Burguer King com molotov.

«Venimos a preguntarle a la patria, a nuestra patria, ¿por qué nos dejó ahí tantos y tantos años? ¿Por qué nos dejó ahí con tantas muertes? Y queremos preguntarle otra vez, a través de ustedes, ¿por qué es necesario matar y morir para que ustedes, y a través de ustedes, todo el mundo, escuchen a Ramona -que está aquí- decir cosas tan terribles como que las mujeres indígenas quieren vivir, quieren estudiar, quieren hospitales, quieren medicinas, quieren escuelas, quieren alimentos, quieren respeto, quieren justicia, quieren dignidad?»
Subcomandante Marcos
6.11.06
Quando estranhos personagens adentram a nossa vida
Maria Padilha. A pomba – gira. A puta que se fez Deusa. A vingança daquelas que esquecidas pelo mundo, mercantilizadas, apropriadas por mãos a quem não respondem com amor. Filhas da noite. Ditas perdidas pelo mundo machista que as execram. Ditas achadas por esse mesmo mundo que as procura.
O mundo cria sub-produtos. Crias renegadas que, no entanto, teimam em se manterem presentes e vivas. Teimam em lembrar ao mundo que existem. Teimam em ter voz. Quanto aos caminhos da redenção, não me compete julgar. Cada um vai como dá, faz suas escolhas como pode.
Hoje no banco, circulavam na minha frente sub-produtos não reconhecidos pelo mundo como tal. Moças bem pintadas, atinadas com a moda, ditas bem sucedidas e resolvidas. Aquelas as quais, Maria Padilha não chegaria nem perto. Elas talvez não procurem. Ou procurem da forma como estão acostumadas a lidar com o mundo. Vendendo e comprando. As imagino tentando se aproximar da deusa, por meio de plaquinhas que garantem a volta de seu amor mediante pagamento posterior. E fico imaginando a Maria Padilha, com um ar pedante e sarcástico:
- Para essas daí? Para elas não! Não são moças de casar? Não são dignas aos olhos dos homens? Não querem ser iguais para terem casamentos iguais? Sofrem? Problema delas. Para as minhas putas da noite, tudo. Para essas putas do dia, de carteira assinada, nada.
Eu gostaria que fosse assim. Bati boca com uma delas. A ferocidade com que, como uma leoa, defendia a instituição bancária, seu emprego medíocre, sua vida escondida pela maquiagem barata e mal feita, seus rancores por estar ali, me irritaram profundamente. Perdi o respeito por ela. Por todas as mocinhas que vieram lhe prestar auxílio com a mesma conversa de nós. Como se o Itaú admitisse um nós, além de seus acionistas. Pior que isso, só se ao invés de estar no banco, estivesse em alguma ong do Itaú social com bolachinhas e café. Desprezei a todas tão ferozmente quanto elas, do outro lado, defendiam o banco.
Sai de lá pensando no cara que me roubou. Prefiro ele. Ele foi mais educado. Ele falou manso e não me olhou de cima. Fez o que tinha que fazer. Olhou nos meus olhos. Elas não. Ele defendia o seu lado, elas defendiam o seu lado, defendendo o banco e anulando minha humanidade em nome de agiotas institucionalizados. Ladrão por ladrão, o cara que me assaltou foi mais digno porque não mandou recado. Fez ele. Não pagou mocinhas idiotizadas para fazer o serviço sujo. Fez ele.
Em meio a isso, passei então a pensar no quanto esse mundo pode, em uma virada de segundos, se transformar. Do plano completamente abstrato e virtual em coisa concreta, que se realiza de fato. O que antes era um limite de crédito, simples números, sem lastro correspondente, ou seja, dinheiro que não existia, se materializou ali na minha frente em muitas notas que seguiram para o outro lado do sistema bancário, com o sub-produto desse mesmo mundo fomentado por eles, pelos ladrões oficiais e rotineiros. A cria voltou buscar sua parte. Cobrar o abandono dos prmeiros anos. Exigir o que é seu.
O mundo cria sub-produtos. Crias renegadas que, no entanto, teimam em se manterem presentes e vivas. Teimam em lembrar ao mundo que existem. Teimam em ter voz. Quanto aos caminhos da redenção, não me compete julgar. Cada um vai como dá, faz suas escolhas como pode.
Hoje no banco, circulavam na minha frente sub-produtos não reconhecidos pelo mundo como tal. Moças bem pintadas, atinadas com a moda, ditas bem sucedidas e resolvidas. Aquelas as quais, Maria Padilha não chegaria nem perto. Elas talvez não procurem. Ou procurem da forma como estão acostumadas a lidar com o mundo. Vendendo e comprando. As imagino tentando se aproximar da deusa, por meio de plaquinhas que garantem a volta de seu amor mediante pagamento posterior. E fico imaginando a Maria Padilha, com um ar pedante e sarcástico:
- Para essas daí? Para elas não! Não são moças de casar? Não são dignas aos olhos dos homens? Não querem ser iguais para terem casamentos iguais? Sofrem? Problema delas. Para as minhas putas da noite, tudo. Para essas putas do dia, de carteira assinada, nada.
Eu gostaria que fosse assim. Bati boca com uma delas. A ferocidade com que, como uma leoa, defendia a instituição bancária, seu emprego medíocre, sua vida escondida pela maquiagem barata e mal feita, seus rancores por estar ali, me irritaram profundamente. Perdi o respeito por ela. Por todas as mocinhas que vieram lhe prestar auxílio com a mesma conversa de nós. Como se o Itaú admitisse um nós, além de seus acionistas. Pior que isso, só se ao invés de estar no banco, estivesse em alguma ong do Itaú social com bolachinhas e café. Desprezei a todas tão ferozmente quanto elas, do outro lado, defendiam o banco.
Sai de lá pensando no cara que me roubou. Prefiro ele. Ele foi mais educado. Ele falou manso e não me olhou de cima. Fez o que tinha que fazer. Olhou nos meus olhos. Elas não. Ele defendia o seu lado, elas defendiam o seu lado, defendendo o banco e anulando minha humanidade em nome de agiotas institucionalizados. Ladrão por ladrão, o cara que me assaltou foi mais digno porque não mandou recado. Fez ele. Não pagou mocinhas idiotizadas para fazer o serviço sujo. Fez ele.
Em meio a isso, passei então a pensar no quanto esse mundo pode, em uma virada de segundos, se transformar. Do plano completamente abstrato e virtual em coisa concreta, que se realiza de fato. O que antes era um limite de crédito, simples números, sem lastro correspondente, ou seja, dinheiro que não existia, se materializou ali na minha frente em muitas notas que seguiram para o outro lado do sistema bancário, com o sub-produto desse mesmo mundo fomentado por eles, pelos ladrões oficiais e rotineiros. A cria voltou buscar sua parte. Cobrar o abandono dos prmeiros anos. Exigir o que é seu.
“ (...) esta sociedade que compra tudo e tudo vende, hipocritamente condena os serviços daqueles que são usados para manter intactos os tabus e manter no alto os códigos de moral dessa mesma sociedade.”
Galeanadas à parte, o fato é que em meio aos sub-produtos: Eu, o ladrão, as moças vestidas de secretárias subservientes e fiéis, entendo mais o suposto algoz do que as leoas do sitema financeiro. Não se trata de discursos bestas fflchianos sobre a relação entre a desigualdade social e a violência e blablabla. Trata-se de identificação com a causas do outro, com o porquê do agir e atuar no mundo daquela forma. Eu tomaria uma cerveja com aquele sujeito, como já devo ter tomado por aí com figuras parecidas. Mas eu não tomaria nem um copo de água com açucar (arght) com aquelas vacas. Sente-se ou não se sente, não é? Pois bem, sinto compaixão e não tenho raiva do figura. Sinto ódio e chutaria aquelas cabecinhas medíocres do banco. Além disso, ele foi o único a tentar me tranquilizar, só ele me garantiu que o banco me ressarciria, com mais segurança do que as funcionárias. E de fato, nada como lidar com profissionais, o banco realmente me pagou o dinheiro. O capital circulou, movimentou a economia de algum lugar e eu fui apenas a mediadora desse processo.
No entanto, não procuro vitimizar ou glorificar a quem a vida e as escolhas colocaram do outro lado do mundo moral – burguês - capitalista. Mas quando penso nele, penso em sua redenção. Torço para que aquele dinheiro, o dinheiro que redime as putas com dor nas ancas e no útero depois de um dia de trabalho, também o redima da vida que leva, que tenha compensado. Como não saberei nunca a que serviu, prefiro pensar nas coisas como eu gostaria que elas fossem. Penso nele como um dos ladrões românticos criados pelo Mano Brow. Com uma corrente de ouro que poderia estar em um Setubal. Pagando cerveja e wisqui para os amigos no Carioca Club. Fazendo um churrasco no campão depois do futebol. O ladrão ligeiro, boa pinta, respeitado, principalmente profissionalmente, pelos seus. Como as putas que gozam. Eu prefiro assim.
“Encarnam a mesma imagem que o sistema forjou delas, para usá-las e depreciá-las; mas aí, atenção: esse auto-retrato é impresso em negativo, porque o objeto de desprezo passa a ser objeto de adoração; a abominação abre caminho para a devoção, e a prostituta decide que é sagrada. Achavam que eu fosse uma cadela? Pois sou uma deusa. Invulnerável:
À meia noite o cemitério se incendiou.
A mulher do diabo não morreu."
Eduardo Galeano - Crônicas Latino-Americanas
3.11.06
Essa é mais uma cena do espetáculo tragicômico mexicano: A vida andou passando a mão na minha bunda.
Hoje estou acreditando no sobrenatural, em zica séria. Já dei uma passadela na memória dos últimos dias, para ver se andei sacaneando alguém. Não... aparentemente ninguém puto comigo. Então deve ser mesmo a minha falta de fé. Só pode ser falta de deus no coração e ele tá me testando... Sacana, tentando me convencer a qualquer custo.
Seis da manhã. Gosto muito de dar aula em Mauá. São meus proletas favoritos. Mas às 6 da manhã não se pode gostar de nada. Café naquelas banquinhas na Paulista (por que comprar no comércio formal, se você pode comprar no informal que além de mais barato, é caseiro, portanto mais gostoso, e você contribui com a consolidação do lumpemproletariado?) Um moço que acabou de comer duas tapiocas e dois cafés por apenas 3 reais se emociona:
-Esse é o melhor país do mundo!
-É.
Sem nenhuma convicção. Difícil tolerar um surto nacionalista na barraquinha de café. Mas também não quero contribuir com a amargura do mundo, portanto não consigo tratar ninguém mal antes das 10 da manhã. Além disso, já estava saindo. O figura insistiu no seu irritante otimismo...
-Um ótimo dia pra você.
Aí quebrou minhas pernas. Tive que sorrir e desejar um bom dia para ele também. Quem era eu para contestá-lo?
Me fez bem, fiquei até mais contente. Muito bem, vamos lá. Passar no banco pegar dinheiro, dar aula, iluminismo, ih, comprar ração pro bichos, Revolução Francesa....
- Mocinha, encosta no outro caixa.
-Ahn?
- Melhor você ir pro outro caixa senão vai ficar pequeno pro teu lado.
Mudei de caixa. O cara armado.
- Saque o dinheiro.
Explosão. Fúria.
-Puta que o pariu, eu não acredito que você vai me roubar. Eu não tenho dinheiro, se tá ligado que você vai sacar meu limite de crédito, né? Se tá ligado que a essa hora na rua com cara de sono só tem trabalhador, né? Porra, vai se danar, vai roubar de quem tem grana, vai roubar de quem não tem? Não sou eu que tenho culpa.
- Fica calma, que não vai acontecer nada com você.
-Acontecer o quê? Eu não estou com medo de você. Eu estou com muita raiva . Olha aqui o saldo da minha conta. Tá vendo. Menos 32,00. Já tá negativo. Se entendeu que você tá roubando um dinheiro que eu não tenho? Que você tá roubando da pessoa errada?
-Fica calma, o banco vai te ressarcir.
-Não, não vai. Pega logo porra.
-Fica na miúda aí que tem outro cara me esperando lá fora.
-Vai se danar.
Desabei a chorar. Em 15 dias, saldo a menos: Um roubo, sendo itens roubados: Um computador, vale dizer que com meu projeto que seria entregue em dois dias, nele, e uma câmera fotográfica que mal tive tempo de aprender a mexer decentemente. Uma paixão perdida, e um assalto a mão armada. Alô, alguém tá tirando sarro da minha cara? São vocês produção? Prometo que não chego mais atrasada....
Choro continuamente. Para finalizar o quadro, estou de tpm. Tá difícil. Delegacia, B.O.
Mais fúria.
- Nome? Idade? Estado civil? Profissão? Características do assaltante?
- Cássia, 24, solteira, professora, para quê? O que você quer que eu fale? Negro, alto, cabelo crespo, e tinha entre 25 e 30 anos? Ou pardo, baixinho, com cara de nordestino entre 20 e 25?
Ele não insistiu. Relevou, tudo bem, eu estava nervosa, tinha o direito de ser/estar histérica.
No ponto de ônibus, com cara de choro. Chega um sujeito, fudido, roupa suja, chinelo de dedo encardido e vendendo sei lá o quê no ônibus. Olha para minha cara de desespero com o mundo, e começa a cantar olhando para mim.
- Deixa a luz do céu entrar, deixa a luz do céu entrar. Abre bem as portas do seu coração. E deixa a luz do céu entrar... Com Jesus! Deixa a luz....
Assim, começando a ter um acesso de pânico com tudo, simplesmente o olhei com a maior cara de desprezo que consegui fazer naquele momento e dei uma leve rosnada.
Lição do dia: Aprendi como as pessoas se convertem, a qualquer religião. Os pregadores e desesperados só precisam se encontrar. É só uma questão de tempo e espaço. E com a proliferação desses iluminados por deus, concomitante ao processo de concentração de fudidos por metro quadrado, o espaço logo deixará de ser empecilho, porque eles estarão em todos. Seremos uma nação com Jesus.
Já eu, vou para casa me esconder e ler mais um romance que o mundo aqui fora não tá fácil não.
Fecham-se as cortinas – Fim do Primeiro Ato.
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